O longo, caro e incerto caminho de um jovem norte-americano até a IndyCar – parte 1

por Gildo Pires

Antes de existir um piloto da IndyCar, provavelmente existiu uma criança querendo apenas andar mais rápido.

E isso pode ter começado muito longe de um autódromo. Talvez num quintal, descendo uma pequena ladeira em um carro de rolimã construído com o pai. Pode ter sido num carrinho a pedal, disputando imaginariamente uma corrida contra alguém na calçada ou sentado diante da televisão, vendo aqueles carros passarem a mais de 300 km/h e tentando entender como seria estar lá dentro.

Nesse momento não existe carreira. Só existe brincadeira. A criança ainda não sabe o que é telemetria, não conhece cambagem, pressão de pneus ou acerto aerodinâmico. Muito menos imagina quanto custa transformar aquela fantasia em profissão. Simplesmente, descobriu que gosta de carros, de velocidade e, talvez, de chegar primeiro.

Nos Estados Unidos, um dos passos seguintes pode ser surpreendentemente banal: uma pista de kart indoor. Não é preciso ter equipe, engenheiro ou caminhão de transporte e, em muitos casos, basta chegar, pagar pela sessão, colocar capacete e entrar num kart fornecido pela própria pista. Pais levam os filhos para brincar, amigos disputam baterias e aniversários terminam transformados em pequenas corridas.

É lazer, mas alguma coisa pode acontecer ali.

A criança começa a procurar o ponto de frenagem, percebe que levantar o pé antes de determinada curva custa tempo ou que uma trajetória mais aberta permite acelerar antes na saída. Começa a olhar o painel procurando seu tempo de volta, depois compara, tenta novamente e quer voltar.

É uma transformação pequena, quase imperceptível. A diversão continua, porém aparece uma pergunta que antes não existia: será que ele é realmente rápido?

O kart indoor pode alimentar a paixão, ensinar noções elementares de trajetória e, principalmente, tornar a competição acessível sem exigir uma estrutura profissional. Mas ele ainda está muito distante do ambiente que encontrará quem decidir transformar velocidade em carreira. O salto seguinte é enorme: chegar ao kart de competição.

Agora não existe simplesmente um kart esperando pelo garoto no final da fila. Aparecem equipamento próprio ou alugado, preparação, pneus, combustível, peças, mecânico, transporte, inscrições, treinos e viagens. A família começa a conhecer palavras que até então pertenciam apenas ao paddock. E começa também a conhecer contas.

O garoto aprende que dois karts aparentemente iguais podem se comportar de maneiras completamente diferentes: pressão de pneus, relação de transmissão, temperatura, aderência, desgaste e acerto de chassi, quando o kart está prendendo, escorregando ou perdendo tração.

Principalmente, começa a enfrentar outros garotos que também são rápidos. E esse é um momento decisivo. Ser o melhor entre os amigos numa pista indoor é uma coisa, mas chegar a um campeonato de kart e encontrar vinte crianças que venceram corridas em suas cidades é outra completamente diferente.

A partir daí o cronômetro deixa de alimentar apenas sonhos e começa a selecionar. E a família precisa tomar uma decisão: continuar significa gastar mais. Muito mais.

Uma das tradicionais portas de entrada norte-americanas é a Skip Barber Racing School. Criada em 1975, tornou-se escola, campeonato e instrumento de descoberta de talentos. Sua lista histórica de alunos ajuda a explicar a importância que adquiriu dentro do automobilismo americano.

Segundo levantamentos realizados no primeiro semestre de 2026, uma etapa da Skip Barber Formula Race Series custa aproximadamente US$ 24.500. A temporada completa, com oito eventos e 16 corridas, chega a cerca de US$ 196 mil e programas mais extensos de desenvolvimento podem alcançar US$ 250 mil.

Isso antes da USF Juniors. O jovem ainda está no começo da carreira e a família já pode estar discutindo um investimento de seis dígitos em dólares. Agora, a pergunta dentro de casa deixa de ser apenas se o filho é rápido e passa a ser: até onde conseguiremos levá-lo?

A Skip Barber tem uma vantagem importante. O piloto entra numa estrutura pronta, não precisa comprar seu próprio monoposto, contratar mecânicos ou transportar uma oficina pelas estradas americanas. Mas precisa pagar para correr e o cronômetro não pergunta de onde veio o dinheiro.

Neste ponto, a Fórmula 4 norte-americana também pode servir como passagem entre o kart e categorias superiores. Ela não integra formalmente o USF Pro Championships, mas pode aparecer exatamente nessa posição no currículo de um piloto. E isso destrói a primeira impressão de uma pirâmide rígida. Não existe um roteiro obrigatório, mas existe um destino desejado.

Seguindo adiante, surge a USF Juniors, criada em 2022, a porta de entrada da estrutura administrada pela Andersen Promotions. Aqui o garoto já não está simplesmente aprendendo a conduzir um monoposto. Está disputando um campeonato: o Tatuus JR-23 possui célula de sobrevivência de fibra de carbono, halo e estruturas modernas de proteção. O motor deriva do Mazda MZR de dois litros e trabalha associado a uma transmissão sequencial Sadev de seis marchas. Com aproximadamente 500 kg, pode passar dos 210 km/h.

Para competir nas categorias USF é necessária uma licença. Em 2026, ela custa US$ 700 por categoria. Quem nunca participou precisa apresentar também seu histórico esportivo e pode ter sua experiência analisada antes de receber autorização. Mas é importante compreender a dimensão desse número: US$ 700 não é o preço para correr. É o preço para estar autorizado a correr. Depois começa a verdadeira conta: contratar uma equipe, preparação e utilização do carro, mecânicos, engenharia, pneus, combustível, transporte, testes, viagens e hospedagem. Se houver acidente, surge outra variável.

Por isso não existe uma tarifa oficial para uma temporada da USF Juniors. O acordo é comercial, feito entre piloto e equipe e, dependendo da estrutura contratada e do volume de testes, já estamos falando de algumas centenas de milhares de dólares.

É nesse momento que talento e capacidade financeira começam a correr lado a lado.

Se o garoto e a família tiverem fôlego para tanto, o degrau seguinte possui raízes muito mais antigas. A SF2000, cuja história remonta a 1990 e seu grid já recebeu inúmeros pilotos que posteriormente chegaram às grandes categorias americanas. O atual Tatuus USF-22 foi concebido dentro de uma lógica inteligente. Há continuidade técnica em relação ao carro anterior, permitindo que o piloto evolua sem precisar reaprender tudo e a velocidade passa da região dos 230 km/h.

Mas a verdadeira mudança talvez aconteça quando o piloto sai do carro: agora ele precisa explicar o que aconteceu. O engenheiro não quer ouvir simplesmente que o carro está ruim, quer saber onde. Na entrada da curva? No centro? Quando o piloto volta ao acelerador? Com pneus novos? Depois de dez voltas? O problema apareceu antes ou depois da mudança de pressão?

A telemetria será colocada diante dele e não mente. Começa aí a transformação do jovem veloz em piloto profissional.

Enquanto isso, outra transformação acontece longe dos boxes: a conta aumenta. Programas competitivos de USF2000 vêm sendo situados no mercado na casa de algumas centenas de milhares de dólares por temporada, variando conforme equipe, testes e serviços contratados. Não é um preço oficial da categoria. É o mercado funcionando.

E é justamente para combater parcialmente esse problema que a estrutura americana desenvolveu uma característica extraordinária: o campeão recebe recursos para tentar subir. Em vez de simplesmente entregar uma taça e uma fotografia no pódio, o sistema procura transformar vitória em financiamento para o campeonato seguinte. Isso não elimina o problema, mas pode impedir que um talento desapareça.

A USF Pro 2000 representa a última fronteira antes de o piloto entrar diretamente no universo da INDYCAR. Sua linhagem passa pelo Star Mazda, Pro Mazda e Indy Pro 2000 e o atual Tatuus IP-22 já supera os 260 km/h. O motor de dois litros recebe preparação mais agressiva, o câmbio continua sendo sequencial e o conjunto oferece recursos técnicos mais sofisticados, com a idade mínima para as atividades de pista de 16 anos.

Vale imaginar a cena: eEnquanto outro adolescente de 16 anos está começando a dirigir pelas ruas acompanhado dos pais, aquele garoto pode estar entrando numa curva a mais de 200 km/h, discutindo cambagem com um engenheiro e tentando explicar a um patrocinador por que precisa de mais dinheiro. Porque precisa. Referências de mercado situam programas competitivos da USF Pro 2000 na região de várias centenas de milhares de dólares por temporada, podendo aproximar-se ou ultrapassar US$ 600 mil conforme testes, equipe, acidentes e estrutura escolhida.

Novamente, não é uma tarifa oficial. É uma ordem de grandeza e, às vezes, nem vencer resolve.

Braden Eves conheceu essa realidade. Campeão da USF2000 em 2019, vencedor também na USF Pro 2000, ele chegou a 2024 ainda tentando reconstruir uma carreira interrompida anteriormente por um grave acidente. Naquele ano, outro adversário apareceu: o dinheiro. Eves teve de encerrar sua temporada antes das últimas provas por falta de orçamento. É uma história importante porque desmonta uma das maiores ilusões do automobilismo.

Não basta ser rápido. Não basta vencer. Às vezes, nem ser campeão basta.

continua…

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