F1: O problema não é a rua

por Sergio Milani

Gritaria contra Madring não é descabida. Mas o problema não é a rua…

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É hora de tomar a rua. Soa como um slogan revolucionário. Mas pode ser citado por um dos esportes que tem o dinheiro como uma de suas bases: o automobilismo. Cada vez mais os carros vão deixando os campos feitos especificamente para que pudessem alegremente se estourar (autódromos, não é isso?) e voltam a circular entre os muros montados em ruas e avenidas de grandes cidades.

Andar nos circuitos de rua nos últimos tempos tem sido uma solução cada vez mais procurada por conta de buscar a união de demonstração de força e redução de necessidade de investimentos. Hoje, para fazer um autódromo em nível para receber as principais categorias mundial, é preciso um grande investimento. Para se ter ideia, a Argentina está agora procedendo uma grande reforma no Autódromo Oscar e Juan Galvez planejando receber a MotoGP e posteriormente a F1 e a Prefeitura de Buenos Aires está gastando cerca de US$ 100 milhões para tal.

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Não basta somente um investimento para construção. Mas o problema depois é a manutenção. Não é a toa que autódromos mais novos tem tido a preocupação de serem multiuso e os mais antigos, vão se adaptando. Temos Interlagos como um exemplo desta adaptação, embora houvesse uma agenda intensa de utilização anteriormente.

A saída é a rua

Por esta questão de manutenção alta para manter as instalações, a saída acaba sendo a rua. Mas há a questão de exposição. Se notarmos bem, as provas são disputadas em lugares em que suas qualidades podem ser exaltadas. Ou ainda servir como caminho para desenvolvimento de novas áreas, como foi o caso de Madri. O investimento é alto? sim. Mas se causa um transtorno pontual e a vida prossegue. Outro exemplo disso foi a realização da Freedom 250 pela Fórmula Indy nas ruas de Washington.

Não é uma solução nova. Desde quando o automóvel apareceu e iniciou-se a realização de corridas (já com o intuito de promoção de produtos), as disputas ficavam entre estradas e ruas. A partir da década de 20 é que foi acelerada a construção de áreas exclusivas para corridas, especialmente por conta da segurança.

A quintessência da corrida de rua vem desta época: Mônaco, que começou a ter seu Grande Premio em 1929. E o objetivo era promoção do Principado e para ver e ser visto. Nada diferente de hoje em dia.

Com o passar do tempo, as ruas foram deixando de ser usadas e os autódromos foram tomando espaço. Porém, com a escalada de custos de construção e manutenção, além de outras situações urbanas (expansão das cidades, especulação territorial, logística, etc), as ruas foram voltando…

Espanha: exemplo do vai e vem

Podemos pegar a Espanha, que entrou no olho do furacão pelo Madring, como exemplo de toda esta revolução: Começou pelas pistas de Pedralbes e Montjuich, sediadas em circuitos citadinos. Jarama, um traçado permanente, surgiu nos anos 60 dentro de um programa governamental e começou a sediar a F1 em 1970. Depois da desgraça que foi o GP de 1975 (a história é fartamente documentada e teve Emerson Fittipaldi como personagem principal), Jarama voltou a ficar com a prova até 1981. Por conta dos custos da Copa do Mundo de 1982, os espanhois abriram mão da corrida.

Houve a tentativa de trazer de volta a corrida em 1984, com uma pista de rua em Fuengirola. Por conta de problemas burocráticos e financeiros, Estoril entrou no lugar. Mas o governo da Andaluzia, querendo ampliar o potencial turistico da província, aprovou a construção de um circuito em Jerez de la Frontera, que poderia receber várias categorias. Em tempo recorde, a pista ficou pronta para a temporada de 1986 e recebeu a F1 até 1990 (com algumas aparições pontuais em 1994 e 1997 como GP da Europa). Em paralelo, a Catalunha, na esteira das Olimpiadas de 1992, também decidiu construir o seu, que recebeu a F1 até este ano.

Não podemos esquecer de Valência, que decidiu fazer um circuito de rua e sediou a F1 de 2008 até 2012, mesmo tendo um moderno circuito permanente em seus subúrbios e que a categoria esteve várias vezes para testes. Resultado: a crise bateu, o GP foi abandonado, uma série de questionamentos apareceram sobre uso de dinheiro público e agora a área esta devidamente abandonada.

(Aliás, fica aqui a dica de seguir o amigo Speeder76. Ele publicou aqui mesmo no Substack uma boa história do GP da Espanha. Para seguir, eis o link).

Uma prova em circuito de rua não é necessariamente ruim

As pedras que Madring recebe por seu desenho não são descabidas. Tanto que a prova e o vencedor ficaram totalmente em plano secundário e a própria organização já fala em potenciais mudanças para 2027. Porém, o que mais temos visto nos últimos anos em termos de circuitos permanentes são muito sem graça em termos de fluidez de prova. Claro que existem exceções, como Portimão. Porém, o fato de um circuito ser permanente não é garantia de qualidade.

Claro que os promotores tem suas querências e uma série de medidas tem que ser tomadas para atender às demandas da FIA, FIme outros entes desportivos. Mas é possível fazer melhor. Baku foi um exemplo de traçado que houve um estranhamento inicial e posteriormente foi aceita pelos fãs da F1 pela possibilidade de caos.

O que se questiona de Madring é que se teve a possibilidade de fazer algo diferente e se gerou algo extremamente sem graça. Algumas estatísticas apareceram após a prova e, mesmo não sendo iguais, várias fontes deram conta que o GP da Espanha teve menos ultrapassagens do que Mônaco. Não é a toa que os organizadores já se apressaram em dizer no próprio dia da corrida que já estão pensando em modificações para incrementar a dinâmica da prova (leia-se ultrapassagens).

O regulamento da F1 ajudou no resultado de uma dinâmica terrível de prova? Sim. O conservadorismo da Pirelli? Também (depois tem artigo sobre isso). Mas jogar todas as pedras em Madring é complicado. Repetindo: nem toda a corrida de rua é ruim.

Podemos até pegar mais exemplos recentes de outras categorias. Indy bateu ponto este ano em Markham (Canadá) e Washington. A primeira foi um traçado esquisitíssimo e que teve problemas para ficar pronto até a ultima hora. Mas entregou uma prova cheia de caos e entretenimento. Washington também teve seus percalsos, mas acabou entregando um bom espetáculo e foi um sucesso de público. Tanto que a Prefeitura local considera voltar a organizar a prova, desde que não tenha que colocar dinheiro. Até a NASCAR bateu ponto nas ruas de Chicago e este ano foi andar dentro de uma Base Naval, que também foi um festival de caos. Mas a experiência foi considerada positiva e deve voltar futuramente ao calendário.

Madring merece críticas? Sim. Mas temos que ver isso como um sintoma da doença e não como fim. Hoje, a F1 quer ter provas em locais “ancora”, com muita exposição midiática. E com o gigantismo que se exige hoje de circuitos, a solução mais rápida acaba sendo os circuitos de rua. É algo semelhante a outros eventos gigantescos como Olimpíadas e Copa do Mundo, cujo tamanho acaba por exigir tanto recurso que depois se causa grande problema. O Comitê Olímpico Internacional revê certos parâmetros para que não se tornem indesejados. FIA e FIFA acabam indo para onde paga-se mais. E o gigantismo vai além, tudo para pagar a conta e se ignora o lado desportivo.

E olha que nem falei de regulamento…Mas fica a provocação: por que as provas da F-E em Monaco são movimentadas e a F1 é procissão não é de hoje?

O caminho do meio existe. Basta querer. Mas é bom direcionar a raiva no lugar certo.

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