
A novidade demorou, mas chegou. E vou fazer uma aposta: o Jeep Avenger será um dos grandes sucessos da Stellantis no Brasil.
E não digo isso apenas por preço, motorização ou tecnologia. Digo principalmente por uma característica que, muitas vezes, as fabricantes esquecem quando desenvolvem um automóvel: o brasileiro compra carro também com os olhos.
E nisso a Jeep sabe exatamente o que está fazendo: para entender o Avenger, é preciso primeiro entender o extraordinário patrimônio que existe por trás da palavra Jeep. Uma marca que nasceu como ferramenta e virou símbolo. Poucas marcas de automóveis carregam uma imagem tão forte quanto a Jeep.
O pequeno veículo militar utilizado durante a Segunda Guerra Mundial tornou-se um dos símbolos daquele período. Robusto, simples, capaz de enfrentar terrenos praticamente intransitáveis, o Jeep acabou associado à resistência, à aventura e à vitória dos Aliados. Décadas se passaram, mas essa imagem permaneceu. E talvez aí esteja uma das maiores virtudes comerciais da Jeep: conseguir transformar uma herança essencialmente militar e fora de estrada em objeto de desejo urbano.
Quando a Fiat assumiu o controle da Chrysler e, consequentemente, da Jeep, entendeu muito bem uma mudança que já estava acontecendo no mercado. O consumidor queria a imagem do off-road, mas não necessariamente precisava do off-road.
Essa diferença parece pequena, mas vale bilhões.
A verdade é que a enorme maioria dos proprietários de SUVs jamais enfrentará uma trilha realmente difícil.
Provavelmente não atravessará um rio.

Não subirá uma montanha. Não enfrentará lama até os eixos. O máximo de aventura de muitos SUVs será subir na calçada de um restaurante. E não há absolutamente nada de errado nisso.
Porque o consumidor não está necessariamente comprando a capacidade de atravessar o Saara. Ele está comprando aquilo que o automóvel transmite: robustez, segurança, aventura, liberdade. E, principalmente, design.
O Renegade mostrou o caminho: no Brasil, o Renegade foi a demonstração perfeita de que essa estratégia funcionava. O carro virou um enorme sucesso e ajudou a popularizar definitivamente a Jeep no mercado brasileiro, mas sempre achei que o Renegade carregava algumas proporções estéticas discutíveis. Era um carro propositalmente quadrado, alto e compacto, com um desenho muito particular.
E é justamente aí que entra o Avenger.
Na minha opinião, o Avenger corrigiu praticamente tudo aquilo que esteticamente poderia ser questionado no Renegade. Ele é menor, mais proporcional, mais jovial e visualmente muito bem resolvido e, principalmente, você olha para ele e imediatamente sabe que é um Jeep.
Isso é muito difícil de conseguir.
Um carro moderno que deliberadamente olha para 1941
Não diria sequer que o Avenger tem um desenho simplesmente “moderno”.

Ele faz algo mais interessante.
É moderno olhando para o passado.
A grade, as caixas de roda, a postura elevada e vários pequenos detalhes remetem à identidade histórica da Jeep. Até as lanternas traseiras em formato de “X” foram inspiradas nos antigos galões de combustível utilizados nos veículos militares dos anos 1940. (Stellantis Media)
São pequenos detalhes que talvez passem despercebidos para muita gente, mas que dão personalidade ao automóvel. E personalidade está ficando rara. Hoje temos dezenas de SUVs que são tecnicamente excelentes, mas você retira o emblema da frente e precisa olhar duas vezes para descobrir quem os fabricou.
No Avenger isso não acontece.
Ele tem cara de Jeep.
E a Stellantis acertou também na mecânica. Para o Brasil, a Jeep tomou outra decisão inteligente: todas as versões chegam com o conhecido motor T200 turbo associado ao sistema híbrido leve MHEV de 12 volts e transmissão automática. (Stellantis Media)
Não estamos falando de um híbrido cuja proposta seja transformar completamente a experiência ao volante.
A ideia é outra.
É entregar eficiência sem complicação. Um motor relativamente pequeno, turbo, adequado à proposta predominantemente urbana do carro, auxiliado pelo sistema elétrico. E isso combina perfeitamente com aquilo que o Avenger pretende ser.
Ele tem aparência aventureira, boa altura em relação ao solo e a identidade de um Jeep, mas foi claramente pensado para viver muito bem na cidade. É justamente o que grande parte do público quer.
E então chegamos ao preço. Aqui, para mim, está a grande jogada: no lançamento, a versão Altitude apareceu por R$ 114.990 para o lote promocional inicial, enquanto Longitude e Limited foram posicionadas em R$ 135.990 e R$ 145.990. (Stellantis Media)
Agora pare e observe o mercado brasileiro atual.
Por esse dinheiro você está levando um carro com uma das marcas de maior reconhecimento no universo SUV, design muito bem resolvido, seis airbags, multimídia de 10 polegadas desde a versão de entrada e motorização híbrida leve. Nas versões superiores, aparecem equipamentos ainda mais sofisticados, incluindo câmera 360 graus e recursos de assistência à condução de nível 2. (Stellantis Media)
A conta começa a ficar muito interessante.
E é por isso que acredito que a Stellantis poderá ter um problema muito agradável pela frente: produzir carro suficiente para atender à demanda. Um Jeep para o jovem e também para quem se lembra do Jeep original.
Existe ainda outro mérito enorme no Avenger: é muito difícil construir um carro capaz de conversar com gerações completamente diferentes. Um jovem de 25 anos pode olhar para um Avenger numa cor chamativa e enxergar um SUV pequeno, diferente, tecnológico e descolado. Um sujeito de 60 ou 70 anos pode olhar para exatamente o mesmo carro e identificar elementos que remetem ao Jeep que ele conheceu quando jovem.
Isso é patrimônio de marca.
O Avenger consegue ser jovial sem renegar sua história.
Aliás, as cores mais chamativas ajudam nisso. Haverá quem ache determinado verde ou laranja exagerado. Eu penso diferente: são cores que combinam com um Jeep. Se existe um carro que pode fugir do eterno branco, preto, prata e cinza que tomou conta das nossas ruas, é justamente esse.

O Avenger não nasceu agora. O modelo já construiu uma carreira internacional antes de sua produção brasileira e, inclusive, conquistou o prêmio de Carro Europeu do Ano de 2023. Mas acredito que ele tenha uma combinação especialmente interessante para o Brasil.
Porque nós gostamos de SUV.
Gostamos de carros com aparência robusta. Gostamos de marcas com história e de carros que chamem atenção. E, quando tudo isso aparece associado a um preço competitivo, o brasileiro responde rapidamente. O Avenger reúne praticamente todos esses ingredientes.
A Jeep entendeu o seu próprio passado. Talvez o aspecto mais interessante desse carro seja justamente este: a Jeep não tentou construir um pequeno SUV fingindo que sua história não existe. Fez exatamente o contrário: pegou elementos de uma história que começou há mais de oito décadas, modernizou, colocou tecnologia, eletrificação, telas, assistência eletrônica e criou um produto para uma geração que talvez nunca tenha sequer visto um Jeep militar original.
E o resultado funciona.
O Avenger não precisa atravessar uma floresta para parecer um Jeep. Não precisa ter reduzida para carregar o DNA da marca. Ele precisa fazer você olhar para ele e pensar: “Isso é um Jeep.”
E consegue.
Por isso, faço aqui minha aposta no Ao Volante: se a Stellantis conseguir manter preço, disponibilidade e qualidade, o Jeep Avenger tem tudo para se tornar um dos maiores acertos recentes da marca no Brasil.
É bonito, tem personalidade, tecnologia, preço competitivo e uma história de mais de oito décadas trabalhando a seu favor.
Aos jovens, entrega novidade.
Aos mais velhos, entrega memória.
E a todos entrega algo que anda fazendo falta no mercado automobilístico: um carro com identidade.
Muito bom, Jeep.
Muito bom, Avenger.
Plínio Rodrigues Calenzo
Ao Volante