O longo, caro e incerto caminho de um jovem norte-americano até a IndyCar – final

por Gildo Pires

Enquanto aumenta a velocidade, o jovem encontra uma especialidade que separa profundamente a formação norte-americana da europeia: os ovais. O spotter observa aquilo que o piloto não consegue enxergar: “inside”, “outside”, “clear”. A 250 ou 300 km/h, algumas dessas palavras podem separar uma ultrapassagem de um acidente e o muro está sempre ali. E quem pretende correr a Indy 500 precisa aprender essa linguagem.

Depois da USF Pro 2000 acontece algo que grande parte do público desconhece. A estrutura Andersen Promotions termina e o piloto atravessa uma fronteira institucional e chega à INDY NXT by Firestone. Agora está dentro do universo INDYCAR/Penske Entertainment. O Tatuus dá lugar ao Dallara IL-15. O motor passa a ser o AER P63, quatro cilindros turbo de dois litros, com aproximadamente 450 hp e potência adicional disponível através do Push-to-Pass.

Em ovais, esses carros podem se aproximar dos 300 km/h, mas a maior diferença talvez não esteja na ficha técnica. Está ao redor do piloto. Agora os homens capazes de decidir quem correrá na IndyCar estão no mesmo paddock e equipes, dirigentes, empresários, patrocinadores e engenheiros observam tudo. Uma boa ultrapassagem pode ser percebida e um erro também.

É aqui que o orçamento pode se aproximar da barreira de US$ 1 milhão para programas completos e competitivos, dependendo da equipe, testes e condições negociadas. E, mais uma vez, não existe uma tabela oficial de assentos. Cada programa é negociado individualmente.

E existem histórias que mostram quanto isso pesa. Michael d’Orlando chegou a disputar uma abertura de temporada sem ter certeza se teria dinheiro para participar da prova seguinte. Yuven Sundaramoorthy terminou sua temporada de estreia em oitavo lugar, conquistou um segundo lugar na última corrida e tinha acordo para continuar. Não continuou. Problemas de orçamento interromperam o programa.

Imagine o que isso significa: durante anos, o piloto treina para ganhar décimos de segundo. Cuida do corpo, estuda dados, aprende circuitos, procura patrocinadores e atravessa os Estados Unidos correndo. Finalmente chega à categoria imediatamente anterior à IndyCar e pode parar ali. Não porque ficou lento. Porque acabou o dinheiro.

A INDY NXT oferece uma resposta parcial a esse problema.

Em 2026, a premiação total supera US$ 1 milhão e o campeão recebe um pacote avaliado em US$ 850 mil. Mas ele não recebe simplesmente uma mala de dinheiro. Os recursos são direcionados à progressão profissional, incluindo atividades fundamentais para chegar à IndyCar: teste de rookie em oval, Open Test da Indy 500, Rookie Orientation Program, participação na Indy 500 de 2027 e outra prova da NTT IndyCar Series.

A diferença é enorme e o prêmio não compra uma carreira. Compra uma oportunidade. E, no automobilismo, talvez seja isso que dinheiro e talento estejam procurando desde o primeiro kart.

Quando todas essas etapas são observadas juntas, surge uma realidade desconfortável.

Uma temporada completa da Skip Barber já se aproxima de US$ 200 mil. Os primeiros campeonatos USF entram progressivamente na casa das centenas de milhares. A USF Pro 2000 eleva novamente o orçamento e uma campanha competitiva de INDY NXT pode aproximar-se ou superar US$ 1 milhão. Não são tarifas oficiais; são dimensões de mercado que variam enormemente de acordo com equipe, testes, acidentes e contratos.

Também não significa que uma família necessariamente pagará tudo. Existem patrocinadores, investidores, bolsas, premiações e programas de desenvolvimento, mas alguém paga.

E quando são somados anos de kart, equipamentos, viagens, hotéis, testes, preparação física, acidentes e temporadas completas, é perfeitamente possível que milhões de dólares tenham sido consumidos antes de aquele piloto receber seu primeiro salário significativo dentro de um carro de corrida.

É uma das grandes contradições do esporte: o automobilismo procura os melhores pilotos do mundo. Mas primeiro precisa descobrir quais dos melhores conseguem sobreviver financeiramente tempo suficiente para serem encontrados.

Talvez, portanto, seja necessário abandonar a expressão “escada até a Indy”. Ela facilita a explicação, mas esconde justamente a característica mais interessante desse sistema. Os Estados Unidos construíram uma rede: o kart forma a base; Skip Barber, Fórmula 4 e outras estruturas podem iniciar a transição para os automóveis. A Andersen Promotions organiza USF Juniors, USF2000 e USF Pro 2000. A USAC participa da estrutura esportiva e, finalmente, INDYCAR e Penske Entertainment assumem o último estágio através da INDY NXT.

São organizações diferentes, empresas e interesses diferentes. Mas todas dependem de alguma maneira da existência das outras.

No início dessa história existe uma criança dentro de um kart, provavelmente sem compreender o tamanho do caminho que tem pela frente. Alguns anos depois, haverá engenheiros, contratos, patrocinadores, simuladores, telemetria, entrevistas, pneus, aviões, hotéis, acidentes e contas. E muitas contas. Talvez a família venda alguma coisa ou, talvez, apareça um empresário, um patrocinador acredite, uma vitória traga uma bolsa. Ou, outra vitória não seja suficiente.

Até que, para pouquíssimos deles, chega o dia em que Indianapolis aparece pela primeira vez através da viseira.

Nesse momento, provavelmente ninguém se lembrará de quanto custou cada pneu ou cada passagem aérea. Mas todos saberão quanto custou chegar até ali, porque a estrada americana oferece algo extraordinário ao jovem que começa no kart.

Não promete que ele será piloto da IndyCar.

Promete apenas que, se tiver talento, dinheiro, resistência e alguma sorte, talvez consiga chegar perto o suficiente para tentar.

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