Uma escolha feita para o FIA WEC deixa um caminho aberto que a McLaren faça a mesma coisa para F1 no futuro próximo
por Sergio Milani
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Não é de hoje que Zak Brown diz que a McLaren Racing deve ser vista como uma coisa só. Atualmente, o time atua na F1, Indycar e começará a atuar nos Hypercars no FIA WEC em 2027. Mesmo em frentes diferentes, um dos objetivos é buscar sinergias entre as estruturas para conseguir o melhor desempenho.
No lado comercial, este é o ponto mais visível: vários parceiros estão envolvidos tanto na F1 como na Indy. Na formação de pilotos, o objetivo é trazer pilotos para que possam ser utilizados em qualquer uma das categorias. Recentemente, Pato O’Ward era oficialmente piloto reserva da F1 enquanto disputava a Indy. Um dos objetivos iniciais da contratação de Alex Palou era também colocá-lo neste grupo.
Pelo lado técnico, a operação da Indy acaba por ser mais independente, tendo uma base operacional inaugurada este ano em Indiana (antiga base da Andretti). Mesmo assim, há a comunicação com o MTC na Inglaterra, onde se baseiam as atividades da F1 e agora do time do FIA WEC, além da área automotiva da marca.
Dentro deste lado de integração, uma ação tomada pela McLaren para o seu projeto de Hypercar abre uma possibilidade interessante não somente para a sua área automotiva, mas também para a área de competições, especificamente a F1…
McLaren e sua relação com motores
Historicamente, a McLaren não produz seus motores. Mesmo na sua origem, Bruce McLaren optava por buscar fora da estrutura, por julgar que era interessante focar em fabricar carros. Mesmo o seu projeto de carro “normal” previa a aquisição externa. O máximo que a empresa fez neste sentido foi a negociação com a Technologies D’Avant Gard (TAG) de Mansour Ojjeh nos anos 80 para o desenvolvimento do motor turbo pela Porsche. Ali, Ojjeh se tornou acionista da McLaren e sua empresa subcontratou a Porsche para fazer um motor seguindo as necessidades de John Barnard (Diretor Técnico) e com o conhecimento alemão.
Quando Ron Dennis decidiu retomar o projeto do esportivo de rua, o McLaren F1 usou um possante BMW V12. Posteriormente, os britânicos usavam outros motores como base. Nos últimos tempos, os carros da marca usam como base blocos da Nissan, preparados pela empresa britânica Ricardo.
Com o anúncio do projeto Hypercar, uma das perguntas que martelaram muita gente foi: que motor o McLaren vai usar? O regulamento técnico do FIA WEC e do IMSA permite o uso de um motor “de rua”, bem como um feito sob medida, desde que se respeite uma série de limitações. Como a McLaren optou por fazer um LMDh, câmbio e sistema de recuperação de energia são padrão, a situação ficaria mais simples, embora a integração é algo ligeiramente complexa…
Sem muito alarde, logo depois do anúncio oficial da estreia para 2027, na semana das 24 Horas de Le Mans de 2025, Zak Brown e James Barclay, trazido da equipe Jaguar da Formula E para ser responsável pelo projeto, encontrava com o CEO da italiana Autotecnica Motori, Giovanni Delfino, para firmar um acordo para o desenvolvimento de um motor para o MCL-HY.

Quem é a Autotecnica?
Foi uma cartada interessante para a marca italiana. Embora não soe tão conhecida pelo grande público, a Autotecnica existe desde 1977, quando dois entusiastas de velocidade, Edo Riboldi e Roberto Federici, se juntaram para transformar motores de rua em unidades de competição. Em 1983, teve inicio um forte relacionamento com a Alfa Romeo, com a marca usando os serviços para desenvolver os motores da área de turismo e monopostos.

Atualmente, a Autotecnica faz parte do grupo Korus, composto por mais 7 empresas, incluindo a Tatuus (fabricante de chassis monopostos). Birel (fabricante de chassis de karts de competição) e a IAME (motores de kart). Mais recentemente, a marca desenvolveu os motores da F4 (a divisão brasileira os usa), TCR (pela Honda) e Formula Regional (a Geração 1, com base no bloco Alfa Romeo e a Geração 2, com bloco Toyota). Para a McLaren, a Automecanica usou como base o seu V6 biturbo, que teve seu desenvolvimento iniciado em 2020, ficando pronto em 16 meses.

Por que não fazer os próprios motores?
Esta decisão foi uma grande quebra de paradigma para a McLaren. E abre um caminho para testar uma ideia que reside na mesa dos gestores da marca há algum tempo: Por que não fazer nossos próprios motores?
Como dito antes, o foco da McLaren era na engenharia. Porém, especialmente na F1, ficou cada vez mais clara a necessidade de um envolvimento próximo com o fabricante dos motores. Isso aconteceu tantas vezes no passado, especialmente na gestão Ron Dennis, que quase sempre teve parceiros importantes para seus projetos (TAG, Porsche, Honda e Mercedes).
Zak Brown já tinha sido perguntado antes sobre essa possibilidade. Porém, sempre colocou que o investimento necessário para isso era muito grande, dada a complexidade das unidades atuais e mesmo com as limitações orçamentárias previstas nas regras.
Porém, com o discurso da FIA de querer simplificar a arquitetura da próxima era dos motores da F1, prevista para 2031, o enfoque passa a mudar. Segundo a entidade, o objetivo é permitir que fabricantes independentes possam também participar deste projeto. Ou até mesmo as próprias equipes possam ter seus motores…
Neste cenário, um acordo nos moldes Automecanica/McLaren feito para o FIA WEC para a F1 faria todo o sentido.
Hoje, a parte de competição da McLaren é saudável financeiramente e os controladores (Fundos Soberanos do Bahrein e Abu Dhabi) poderiam dar a benção para o projeto, até mesmo envolvendo alguma montadora, em um esquema semelhante da Red Bull com a Ford.
Por enquanto, são conjecturas. Porém, um caminho novo foi aberto e pode ser (bem) explorado. A ver.
por Sergio Milani
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