Prema: para onde foram os milhões? – parte 2

por Gildo Pires

Qual seria uma movimentação adicional nas contas da Prema?

O patrimônio líquido da Holding, segundo os dados agregados que examinamos, passa de aproximadamente €346 mil para €707 mil, mesmo carregando aquele prejuízo de €739 mil. A diferença matemática sugere uma movimentação patrimonial positiva próxima de €1,1 milhão no exercício e isso pode ser perfeitamente normal: aumento de capital, aporte do controlador, reserva, cobertura de prejuízo, renúncia de crédito de sócio.

Mas qual foi e quem colocou o dinheiro?

Enquanto isso, a PREMA Engineering apresenta outro movimento peculiar. Em 2022 tinha patrimônio líquido negativo de aproximadamente €468 mil e, em 2023, aparece com patrimônio líquido positivo próximo de €609 mil, apesar de registrar prejuízo de aproximadamente €23 mil. Novamente, uma movimentação patrimonial implícita na vizinhança de €1,1 milhão.

É o mesmo dinheiro? Não sabemos. Não existe documento que nos permita afirmar isso.

Pode ser apenas coincidência.

Mas duas empresas relacionadas apresentarem movimentos patrimoniais dessa ordem no mesmo intervalo deveria despertar a curiosidade de qualquer jornalista econômico. Principalmente porque os ativos da Engineering teriam caído de aproximadamente €10,74 milhões para €8,70 milhões nesse período. Mais de €2 milhões de diferença.

Onde está a explicação? Nos balanços completos, nas notas integrativas, nos créditos e débitos entre partes relacionadas.

E existe uma série de linhas contábeis que seria particularmente interessante enxergar: debiti verso soci per finanziamenti, ou seja, dívidas com sócios por financiamentos. Ou seriam debiti verso controllanti, dívidas com a controladora? Ou crediti verso controllanti, créditos contra a controladora. Ou debiti verso imprese sottoposte al controllo delle controllanti, as dívidas com outras empresas sob controle comum?

É aí que talvez apareça o mapa financeiro real da PREMA. Porque existe uma enorme diferença entre uma equipe de corrida que cresce com suas operações gerando caixa e uma equipe que cresce porque um acionista poderoso continua abastecendo a estrutura e ambos os modelos podem funcionar, até o dia em que o segundo acionista decide fechar a torneira.

Foi isso que aconteceu?

Essa é uma das perguntas mais importantes desta história.

Há estimativas publicadas de que Deborah Mayer teria garantido mais de US$ 40 milhões para o programa americano. Uma análise econômica sobre Iron Lynx e Iron Dames também reproduziu esse valor e apontou outro problema: a PREMA chegou à IndyCar sem charter e, portanto, não tinha acesso aos aproximadamente US$ 1,2 milhão do Leaders Circle destinados às equipes elegíveis, segundo lucabasso.substack.com.

Então pense novamente no modelo: uma equipe nova, com dois carros, praticamente nenhum grande patrocinador externo capaz de bancar a operação, uma estrutura gigantesca, com material comprado novo e sem charter. Por quê?

Por que comprometer dezenas de milhões de dólares antes de garantir um dos ativos mais importantes para a sustentabilidade comercial de uma equipe da IndyCar?

A PREMA acreditava que obteria charters depois? Havia algum acordo que não se concretizou? O risco foi simplesmente aceito porque havia dinheiro suficiente? Ou a necessidade de entrar imediatamente na IndyCar falou mais alto que a prudência financeira?

E aqui está talvez a pergunta mais picante de todas: se havia US$ 40 milhões ou US$ 50 milhões disponíveis para construir a equipe, por que aparentemente não havia dinheiro suficiente para garantir sua continuidade apenas um ano depois?

US$ 50 milhões não evaporaram. Ou viraram alguma coisa (carros, peças, equipamentos, salários, transportadores, iInstalações, engenharia, taxas, operação) ou prejuízo.

Quanto foi para cada coisa? Até agora não existe prestação pública suficientemente detalhada para responder.

Alguns jrnalistas relatam que foram adquiridos mais de cinco Dallara DW12 novos e uma enorme quantidade de equipamentos. Ao mesmo tempo, alertou para um problema cruel para qualquer potencial comprador: aqueles carros estavam próximos do fim de seu ciclo competitivo com a chegada do novo IR28. Ou seja, uma parcela relevante do investimento poderia sofrer desvalorização rápida.

Sim, é possível gastar muito dinheiro de maneira absolutamente legítima e, mesmo assim, destruí-lo economicamente e, talvez, essa seja a explicação mais simples.

Mas então surgem outras perguntas: quem aprovou uma expansão dessa magnitude e com base em qual projeção de receita? Porque, paralelamente, outro pilar financeiro do universo DCRS estava mudando.

O relacionamento com a Lamborghini azedou no final de 2024, enquanto a Iron Lynx operava o importante programa Lamborghini no endurance e essa atividade representava receita, estrutura, pessoas e perspectivas plurianuais. Quando essa relação terminou, uma expectativa financeira desapareceu.

Ao mesmo tempo, a IndyCar começava: entrava uma despesa gigantesca enquanto desaparecia outra fonte importante de negócios.

A PREMA foi para os Estados Unidos contando com receitas futuras que depois deixaram de existir? Quando o orçamento IndyCar foi aprovado, a relação Lamborghini ainda fazia parte das projeções? Se sim, quanto daquele US$ 40 milhões ou US$ 50 milhões dependia da continuidade de outras receitas do grupo?

São perguntas que talvez expliquem muito mais do que qualquer teoria conspiratória.

E então chegamos a 2025. Na pista, houve um momento quase surreal: em sua primeira participação nas 500 Milhas de Indianápolis, Robert Shwartzman conquistou a pole position. Uma equipe estreante, um piloto estreante na Indy e a pole em Indianápolis!

Era exatamente o tipo de resultado que deveria valorizar comercialmente o projeto. Mas não resolveu o problema financeiro e poucos meses depois, já havia informações de que a PREMA buscava investidores.

Então cabe outra pergunta: como uma equipe que acaba de conquistar a pole da Indy 500 não consegue transformar aquele resultado em patrocínio suficiente para assegurar sua permanência?

Qual a explicação: deficiência comercial, o valor pedido aos patrocinadores era alto demais, dúvidas de mercado sobre a continuidade da operação, necessidade de dinheiro grande demais para ser resolvida com patrocínios convencionais?

Não sabemos, mas sabemos o que aconteceu depois: a PREMA não disputou a temporada de 2026.

E então, em 12 de janeiro de 2026, a família Rosin deixou a equipe. Isso talvez seja mais importante do que qualquer balanço: a família que criou a PREMA saiu da PREMA.

René Rosin não era apenas um executivo contratado. Seu sobrenome estava na história da organização e foi sob sua gestão que a equipe se tornou uma das maiores referências mundiais das categorias de formação. Ele foi embora justamente quando a estrutura controladora enfrentava sua fase financeira mais delicada.

Por quê?

A explicação completa nunca veio a público. Então é legítimo perguntar: o que René Rosin sabia quando decidiu sair?

Muitos perguntavam se ele discordava dos rumos financeiros da empresa ou discordava da expansão americana… Ou se perdeu autonomia depois da entrada da DCRS. Será que não havia mais recursos disponíveis e, ainda, existia conflito entre a filosofia esportiva dos Rosin e a estratégia dos novos controladores? Ainda, foi simplesmente uma separação empresarial natural depois de mais de quatro décadas?

Todas são hipóteses. E nenhuma está provada.

Mas o que aconteceu meses depois torna a saída ainda mais intrigante: no dia 2 de setembro de 2026, surgiu oficialmente a LN4 Fusion. O projeto é cofundado por Lando Norris, atual campeão mundial de Fórmula 1 e a equipe adquiriu ativos da AIX Racing e já tem entrada confirmada na Fórmula 3 para 2027. Também competirá na Fórmula 4 Italiana e na Formula Regional europeia e pretende chegar à Fórmula 2.

Seu team principal? René Rosin.

Seu racing director? Guillaume Capietto.

Nomes profundamente ligados à história técnica recente da PREMA, segundo a Reuters.

A LN4 Fusion não está entrando em kart histórico; não está indo para endurance e não escolheu a IndyCar. Está atacando justamente o terreno em que a PREMA construiu sua reputação: na F4, na Formula Regional, na F3 e possivelmente F2. A sede europeia ficará no Veneto. Ou seja, a poucos quilômetros do coração histórico do universo PREMA, segundo o The Guardian.

Isso produz uma pergunta que pode parecer provocativa, mas talvez seja a pergunta definitiva: a verdadeira PREMA saiu da PREMA?

Veremos a seguir.

Continua…

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