
Um projeto de IndyCar que pode ter mobilizado US$ 50 milhões e uma das equipes mais vencedoras da formação europeia.
Holdings na Itália, empresas financeiras na Suíça, milhões entrando numa estrutura que pouco lucrava, a saída repentina da família que criou a equipe e, poucos meses depois, o nascimento de uma concorrente comandada justamente por René Rosin.
Não existe, até agora, prova pública de crime financeiro envolvendo a PREMA. Mas existem números, decisões e coincidências suficientes para fazer uma pergunta que ainda ninguém respondeu completamente: o que aconteceu com o dinheiro e com a própria PREMA?
Durante mais de 40 anos, a PREMA não precisou explicar quem era. O nome bastava.
Fundada por Angelo Rosin em 1983, a equipe italiana transformou-se em uma das maiores fábricas de pilotos do automobilismo mundial. Charles Leclerc, Oscar Piastri, Kimi Antonelli e muitos outros passaram por seus carros. Na Fórmula 2, Fórmula 3, Formula Regional e Fórmula 4, correr pela PREMA significava, durante muito tempo, estar em uma das equipes que todos queriam derrotar.
Então veio a América.
Quando a PREMA anunciou, em abril de 2024, que entraria na IndyCar em 2025, não parecia estar realizando uma aventura. Parecia iniciar a próxima fase de sua expansão. E não economizou para isso: a operação americana foi instalada em Fishers, Indiana, numa estrutura de aproximadamente 100 mil pés quadrados. Vieram carros Dallara novos, peças, equipamentos, transportadores, ferramentas, engenheiros, mecânicos e uma organização preparada para colocar dois Chevrolet na pista.
Callum Ilott e Robert Shwartzman seriam os pilotos.
Não era uma equipe chegando à IndyCar com material usado, tentando sobreviver enquanto aprendia. Era uma operação de primeira classe e, em abril de 2026, segundo a imprensa na época, o orçamento de implantação e lançamento do projeto era estimado, nos bastidores, em até US$ 50 milhões. Uma estrutura com mais de cinco Dallara DW12 novos, transportadores novos e praticamente tudo adquirido do zero.
É dinheiro de equipe grande. E é justamente por isso que a história fica interessante. Porque a PREMA que teria mobilizado algo próximo de US$ 50 milhões para chegar à IndyCar em 2025 não conseguiu estar no grid da temporada seguinte. Como?
Antes de tentar responder, é necessário voltar para a Europa, porque os números mostram que esse dinheiro não poderia ter saído simplesmente dos lucros normais da PREMA Racing: em 2023, a PREMA Racing Srl faturou exatamente €22.866.904. Era um aumento de aproximadamente 28% sobre 2022, quando a receita havia sido de €17.861.393. Em 2020, para efeito de comparação, o faturamento era de apenas €8.003.301. Ou seja: entre 2020 e 2023, a receita praticamente triplicou.
Bonito.
Mas há outros números: o lucro líquido de 2023 foi de apenas €66.674. Sessenta e seis mil euros sobre €22,87 milhões de receita. Margem líquida de aproximadamente 0,3%. E o custo com pessoal naquele exercício chegou a €3.319.778, com 77 funcionários registrados pelas bases empresariais consultadas.
Então faça a pergunta mais simples possível: como uma empresa que ganha €66 mil em um ano consegue, pouco depois, participar da construção de um projeto americano estimado em dezenas de milhões de dólares?
Em 2024 a situação fica ainda mais curiosa: o faturamento aumenta novamente. A PREMA Racing chega a €27.556.927. São quase €4,7 milhões a mais de receita em relação a 2023, mas o lucro desaparece. Na verdade, transforma-se em um prejuízo de €1.171.748, segundo a Ufficio Camerale.
A receita cresce aproximadamente 20,5%, enquanto o resultado piora em cerca de €1,24 milhão.
E que ano era aquele? Era 2024. Exatamente o período em que a operação da IndyCar estava sendo construída nos Estados Unidos.
Coincidência?
Naturalmente, uma expansão internacional custa dinheiro e pode perfeitamente transformar lucro em prejuízo. Isso não constitui mistério contábil nem irregularidade, mas cria outra pergunta: quanto do prejuízo de 2024 estava relacionado direta ou indiretamente à aventura americana?
E outra: se a PREMA Racing não gerava caixa suficiente para bancar aquela expansão, quem estava pagando a conta? É aí que precisamos parar de olhar apenas para a equipe de corrida.
Em 2021, a DC Racing Solutions, ou DCRS, passou a controlar financeiramente a estrutura da PREMA. A DCRS é suíça e fFoi constituída em Zug em 12 de julho de 2017, registrada sob o UID CHE-296.968.866. Seu objeto empresarial é amplo e completamente voltado ao automobilismo: compra, venda, importação, exportação e aluguel de carros de corrida; reparação, preparação e transformação de veículos; transporte e desembaraço aduaneiro; organização de eventos; formação e gestão de pilotos; administração de equipes; marketing e patrocínio.
Deborah Mayer e Claudio Schiavoni aparecem entre os seus administradores, segundo a Moneyhouse. Mas DCRS não está sozinha. Existe a DEMA Investments Management AG, também em Zug. Criada em 10 de fevereiro de 2017, portanto cinco meses antes da DCRS, com capital social registrado de CHF 100 mil. A empresa atua com serviços de consultoria patrimonial e de investimentos, planejamento financeiro e organizacional e serviços de gestão. Seu objeto também permite manter e negociar bens de consumo, luxo e investimento, materiais ou imateriais.
Novamente aparecem Deborah Mayer e Claudio Schiavoni. Junto deles, Ludovic Duarte e Jost Andreas Windlin, ainda segundo a Moneyhouse.
Mas ainda não chegamos ao topo interessante dessa rede: existe outra companhia, a Pegase Investments SA. E ela é anterior às duas, foi criada em Zug em 5 de março de 2015, com capital social de CHF 2 milhões. Vinte vezes o capital nominal da DEMA. Seu objeto empresarial inclui prestação de serviços financeiros, aquisição e administração de patrimônio, aquisição de participações em empresas suíças e estrangeiras e, explicitamente, financiamento de empresas e operações comerciais de todos os tipos.
Deborah Mayer aparece na administração e Claudio Schiavoni também. Segundo a certificadora Pappers, a empresa continua registrada como ativa. E, agora, a pergunta muda. Talvez tenhamos passado tempo demais perguntando como uma equipe de corridas italiana poderia bancar a IndyCar.
Talvez devêssemos perguntar: qual era realmente o tamanho do patrimônio financeiro existente acima da PREMA?
E, principalmente: de onde saíram os recursos que chegaram à equipe? Da DCRS? Da DEMA? Da Pegase? Diretamente de Deborah Mayer? De instituições financeiras? De empréstimos garantidos por outros ativos ou de uma combinação de tudo isso?
Nenhuma dessas alternativas representa irregularidade, mas sem conhecer os contratos e as notas detalhadas dos balanços, ainda não sabemos a resposta. E os números da Itália tornam essa resposta ainda mais necessária.
Observe a PREMA Holding. Em 2022 ela faturou apenas €40 mil e teve lucro de €2.183; em 2023 faturou €55 mil, mas perdeu €739.172.
Seu capital social registrado, segundo a Ufficio Camerale, era de €260 mil e, em levantamentos patrimoniais daquele período aparecem aproximadamente €10,21 milhões em ativos em 2022, crescendo para algo ao redor de €14,67 milhões em 2023. Um crescimento próximo de €4,46 milhões.
Agora pense nisso: uma holding que faturava €55 mil e perdia €739 mil aumenta seus ativos em aproximadamente €4,46 milhões. Deve haver necessariamente uma explicação contábil: aquisição de participações? Créditos? Aportes? Financiamentos? Reorganização societária? Operações com empresas relacionadas?
Não sabemos ainda. Mas sabemos que a explicação não pode ser simplesmente “o lucro da empresa”, porque lucro não havia.
Mas havia uma movimentação adicional.
Saberemos no próximo capítulo.
Continua…