
Quando me perguntaram sobre o que sabia sobre essa “notícia”, meu primeiro pensamento foi sobre a intangibilidade de coexistir em um ambiente jornalístico especializado sem a presença de uma das coberturas mais bem executadas do automobilismo de competição, agregando profissionais do mais alto nível.
A partir desse momento, minhas palavras se tornaram um exercício literário de ficção.
Imaginem: há menos de três semanas, a revista Racer anunciava uma nova fase. A edição 341, batizada de Racing Reimagined, chegava com mais páginas, papel de melhor qualidade, novos temas e a promessa de repensar a maneira de contar o automobilismo. De repente, numa ironia difícil de ignorar, aquela edição se transformaria na última de uma história iniciada em 1992. A revista seria encerrada com efeito imediato, segundo revelaria o jornalista David Malsher-Lopez, antes mesmo de qualquer comunicado formal da empresa.
Não é uma publicação qualquer. Durante 34 anos, a revista Racer construiu uma reputação internacional combinando jornalismo especializado, grandes reportagens, fotografia de altíssimo nível e uma rara capacidade de circular entre Fórmula 1, IndyCar, NASCAR, provas de Endurance, carros históricos e categorias menores sem tratar nenhuma delas como simples preenchimento. Sua primeira edição já carregava um vínculo especial com o público brasileiro: a capa mostrava de frente o Penske-Chevrolet de Emerson Fittipaldi, em meio à guerra de motores da CART.
A revista atravessou mudanças de proprietários, transformações tecnológicas e a migração da notícia para o ambiente digital. Foi adquirida pela britânica Haymarket em 2001 e voltou às mãos de seus fundadores e investidores em 2012. Enquanto isso, a marca ampliou sua presença com o projeto digital RACER.com, canais audiovisuais e produção de conteúdo para empresas e entidades do automobilismo. Em 2025, a publicação ainda havia recebido uma ampla reformulação, passando a oferecer 140 páginas e incorporando temas como cultura automotiva, carros de alto desempenho, coleção e off-road. Tudo indicava uma tentativa de fortalecer o impresso, não de preparar sua despedida.
É justamente isso que torna um encerramento ainda mais inquietante. A revista Racer mantinha um calendário editorial para 2026 e já projetava edições até o início de 2027. No fim de julho, a própria revista celebrava sua reinvenção. Poucos dias depois, seus profissionais seriam informados de que não haveria uma próxima edição. A distância entre a promessa pública de renovação e a interrupção imediata exporia uma fragilidade econômica que hoje cerca até as marcas mais respeitadas da imprensa automobilística.
David Malsher-Lopez soube da decisão no fim da semana passada. No final de semana, ainda trabalhou remotamente na cobertura da IndyCar em Markham, sem saber exatamente o que faria depois. Aquela prova, que deveria representar apenas mais um compromisso em sua longa carreira, tornou-se sua última cobertura como funcionário em tempo integral da revista Racer. Em sua despedida, não houve revolta pública nem acusações. Houve gratidão, surpresa e uma frase que resumiria a vulnerabilidade de muitos profissionais experientes: “E agora? Eu não sei”.
Para os recém iniciados: Malsher-Lopez dedicou cerca de 30 anos ao jornalismo de competição. Trabalhou na revista Racer entre 2008 e 2015, retornou em maio de 2023 e tornando-se referências na cobertura da IndyCar. Ainda poderia colaborar ocasionalmente com o RACER.com, que aparentemente continuaria em atividade, mas nada pode estar definido.
O desaparecimento da revista impressa (repito: impressa) não representaria o fim da marca “Racer”. Pode representar, porém, o encerramento do espaço no qual a marca construiu sua identidade, sua memória e boa parte de sua autoridade.
É fácil atribuir tudo à queda do papel, ao custo de produção ou à velocidade da internet. Mas existe uma questão mais profunda: o público se acostumou a receber notícias gratuitamente, as redes sociais passaram a recompensar velocidade e polêmica, e o jornalismo especializado começou a disputar atenção com vídeos curtos, rumores sem verificação e conteúdos produzidos para satisfazer algoritmos.
Uma revista capaz de investir tempo, conhecimento e recursos numa grande reportagem passou a competir com uma publicação feita em segundos e ambas aparecem do mesmo tamanho na tela de um telefone.
O automobilismo deveria observar esse episódio com preocupação.
Categorias, equipes e patrocinadores precisam de jornalistas capazes de interpretar aquilo que acontece além do resultado, preservar histórias e questionar decisões. E me vejo diariamente cercado de vários talentos que dariam conta desse hercúleo trabalho.
Quando uma publicação como a revista Racer desaparece, não se perde apenas um produto comercial. Perde-se uma parte da memória organizada do esporte e diminui-se o espaço disponível para um jornalismo que não dependa exclusivamente da narrativa oficial dos campeonatos.
Voltando a colocar os pés no chão da nossa realidade, a edição 341 recebeu o título Racing Reimagined. Talvez tenha acabado se tornando, involuntariamente, um retrato da própria imprensa automobilística: obrigada a se reinventar, mas sem a garantia de que haverá tempo, dinheiro ou público para concluir essa transformação.
Os carros continuarão acelerando, as corridas transmitidas e os resultados chegarão instantaneamente.
A pergunta é: quem ainda estará lá para explicar o que tudo isso realmente significa?