F1: Cadillac em vertigem

por Sergio Milani

Além dos freios em chamas, mudança de chefe de equipe, acionista em investigação…a Cadillac F1 não pode reclamar de tédio nos últimos dias

por Sergio Milani
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Estabilidade. Este foi o ponto que Graeme Lowdon, agora ex-chefe de equipe da Cadillac na F1 apontou como fator comum a todas as equipes vencedoras. Entretanto, este é um produto escasso para o time estadunidense.

Desde o início do projeto, o rumo foi digno de uma montanha russa. Teve de compra de equipe, participação em processo da FIA, entrada de acionistas e outras peripécias. A semana que se encerra foi mais um ponto de toda essa vertigem e uma coisa que não houve foi tédio.

Do nada, um novo chefe de equipe

Um dos pontos que chamou a atenção desde o início da formação da equipe da Cadillac na F1 foram alguns nomes envolvidos no processo, mesmo ainda sob a marca da Andretti. Até se entende que um início na F1 não permite grandes arroubos, dada a complexidade da categoria atualmente. Só que o primeiro arranque se mostrou muito pequeno diante da expectativa (até falei nisso no início da temporada aqui).

Um desses nomes foi o de Graeme Lowdon (foto acima), citado no início do artigo. O britânico foi escolhido para ser o comandante da equipe neste seu início. Causou até uma certa estranheza, embora não seja um novato: ele esteve diretamente envolvido na entrada da Manor/Virgin quando da abertura da “F1 de baixo custo” imaginada por Max Mosley em 2010. Com o fim do projeto, se manteve no mundo do automobilismo, inclusive como empresário de Guanyu Zhou.

Justamente por este histórico, não foram poucos os que puseram em dúvida a capacidade de tocar um projeto como esse. Mas as coisas seguiram e a Cadillac estreou na F1 de uma maneira bem cautelosa e com uma postura de aprendizado e buscar evoluir para ser competitivo em um médio prazo. Ainda mais se considerarmos que a marca trabalha em uma unidade de potência própria, prevista para uso em 2029.

Este coquetel pariu um pacote muito simplificado e baseado em soluções mecânicas (conjunto motor e câmbio) da Ferrari, complementado por uma dupla de pilotos composta por Valtteri Bottas e Sergio Perez. Se esperava uma evolução ao longo da temporada, o que até aconteceu, mas aparentemente não da maneira esperada.

Chamou a atenção as declarações de Perez e Bottas em relação à falta de integração de peças e alguns problemas técnicos. Sobre este ponto, os freios é que acabaram dando mais alarme. Não foram poucas as vezes que os pilotos tiveram que parar por falhas neste campo, até com certa plasticidade…

Dentro deste quadro, o anúncio feito na última quarta (12) não deixou de ser surpreendente. Em coletiva, Dan Towriss, CEO da TWG e do time, anunciou a chegada de Marcin Budkowski (foto) para o posto de chefe de equipe no lugar de Lowdon, que tinha sido comunicado pouco antes do evento de sua destituição.

Em uma postura pouco normal na F1, Towriss declarou que a demissão não havia sido combinada entre Lowdon e ele, embora tenha dito que “ambos concordavam que havia uma mudança em um determinado momento”. E que a chegada de Budkowski foi algo pensado um tanto quanto rapidamente, pois o polonês nem havia tido oportunidade de fazer uma visita prévia às instalações da equipe, que tem base na Inglaterra e prepara sua nova Sede em Fishers, Indiana.

Towriss botou a decisão na sua conta. E mostra que, aparentemente, não estava contente com o rumo que as coisas estavam. Talvez os problemas técnicos fossem resultado de outros fatores, como comunicação e processos internos. Budkowski chega com o currículo de já ter passado por McLaren, Ferrari, Renault/Alpine e FIA. Numa análise preliminar, esta experiência passada pode ser benéfica para um time que se estrutura, ainda mais com o peso de que uma marca como a Cadillac traz.

Confusão no controle

Outro ponto que ajuda nesta turbulência da equipe está do lado de fora da pista e cabe observar com muito cuidado os desdobramentos. No final de julho, veio à público a notícia de que Mark Walter (foto), bilionário do ramo financeiro, estava sob investigação da Procuradoria de Manhattan e da Comissão de Valores Mobiliários sobre empréstimos feitos entre empresas de Walter, bem como um investimento do fundo soberano de Abu Dhabi no grupo TWG.

Além de investimentos no mercado financeiro, Walter lançou seus tentáculos no esporte: simplesmente ele tinha participação nos Los Angeles Lakers (Basquete), Los Angeles Dodgers (Basebol) e Chelsea (Futebol). Além de ter comprado todas as operações da Andretti Global (entenda-se aqui também a Fórmula E e a Formula Indy).

Aqui é que a coisa fica interessante: a TWG Global tem sido um dos pilares principais do projeto da Cadillac na F1. Dan Towriss, o CEO do time, é também CEO do 1001 Group, empresa da área financeira que vem a ser controlada pela Guggelheim Partners, fundo de investimentos de…Mark Walter.

Para todos os efeitos, Walter se pôs à disposição para qualquer esclarecimento que se faça necessário e que todas suas empresas estão colaboração com as autoridades em boa fé, já que ainda não há uma acusação formal. Entretanto, na mesma quarta (12/08), foi anunciada a venda do Los Angeles Lakers, que Walters tinha comprado um ano antes e justamente na época em que o FBI confiscou celular e computadores de Walters em uma busca no aeroporto de Chicago.

Embora tenha apurado lucro no negócio, chamou a rapidez do processo: em três dias, tudo foi fechado. Um dos novos donos é o irmão do genro de Donald Trump, Jared Kushner. Veículos como a Bloomberg dão conta que Walter está buscando fundos para abater dívida e fazer frente a este momento em que seus negócios estão na berlinda.

Por enquanto, não se sabe se outros ativos serão atingidos. Mas cabe verificar com atenção esta movimentação. Afinal de contas, não são poucos os interessados em entrar na F1 e a Cadillac pode se revelar uma bela oportunidade…sem contar o resto dos ativos de competição…

Diante de todo o quadro, os freios podem ser o menor dos problemas da Cadillac….

por Sergio Milani
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