
A Walt Disney Company decidiu aprofundar sua presença no automobilismo mundial, mas a categoria escolhida para conduzir essa expansão não foi a Fórmula 1 nem a IndyCar. A partir da temporada 2026–2027, o Disney+ passará a ser a plataforma global de streaming da Fórmula E em 144 territórios, incluindo os Estados Unidos, onde a competição também será oferecida pelo ESPN+.
A informação inicialmente divulgada pelo jornalista Adam Stern, do Sports Business Journal, foi confirmada oficialmente pela Fórmula E, pela Disney e pela ESPN. O acordo é plurianual e inclui todas as sessões dos finais de semana: treinos, classificações e corridas. Os assinantes também terão acesso a programas de abertura e análise, melhores momentos, reprises completas imediatamente após cada prova e produções exclusivas de bastidores.
Os valores financeiros não foram revelados, mas a dimensão geográfica do contrato deixa claro que não se trata simplesmente da aquisição de mais um campeonato para preencher a programação. O Disney+ será apresentado como a “casa global” da Fórmula E, expressão que indica uma integração mais profunda entre transmissão, distribuição digital, divulgação e produção de conteúdo.
A iniciativa não substituirá necessariamente os contratos existentes com emissoras abertas ou canais lineares. A estratégia será complementar. A Fórmula E pretende preservar os parceiros locais nos mercados onde já possui presença consolidada e, simultaneamente, utilizar o Disney+ para oferecer uma plataforma digital comum, capaz de acompanhar o campeonato em diferentes países sem depender de uma rede fragmentada de emissoras.
Para a Disney, o acordo resolve várias necessidades ao mesmo tempo. O esporte ao vivo tornou-se uma das ferramentas mais importantes para reduzir o cancelamento de assinaturas, aumentar a frequência de utilização das plataformas e criar horários de consumo que não podem ser substituídos por filmes ou séries assistidos posteriormente. Uma corrida possui urgência: o público quer vê-la enquanto acontece.
O automobilismo também atrai anunciantes relacionados a tecnologia, automóveis, energia, serviços financeiros, telecomunicações, viagens, produtos premium e apostas. A Fórmula E acrescenta atributos particularmente alinhados à comunicação corporativa contemporânea: eletrificação, sustentabilidade, inovação, grandes cidades e presença de fabricantes internacionais.
A parceria começará junto com a estreia do GEN4, o carro mais potente já produzido para a Fórmula E. A nova geração terá desempenho muito superior ao dos modelos anteriores e aceleração anunciada de zero a 60 mph em aproximadamente 1,8 segundo. A mudança permitirá à Disney apresentar a temporada não como continuidade, mas como o começo de uma nova era.
O calendário também favorece a estratégia. A temporada 2026–2027 terá 21 etapas distribuídas por 13 eventos, permitindo que a plataforma ofereça várias horas de conteúdo ao vivo, reprises, análises e bastidores durante meses. A categoria é controlada majoritariamente pela Liberty Global, empresa com experiência em telecomunicações, distribuição e mídia, o que facilita a construção de um produto pensado para circulação internacional.
A decisão contém uma dimensão que interessa diretamente à IndyCar. A Disney já mantém relação com a categoria norte-americana por meio da ESPN e do Disney+, mas esse vínculo é regional. O contrato firmado em janeiro de 2025 assegurou a transmissão da IndyCar na América Latina, incluindo Brasil e México, durante as temporadas de 2025, 2026 e 2027. Em 2026, a ESPN também permaneceu responsável por outros mercados, como a África Subsaariana, e passou a oferecer a Indy NXT aos espectadores latino-americanos.
A diferença é considerável. A IndyCar utiliza ESPN e Disney+ para chegar a determinados territórios, mas continua distribuída mundialmente por uma rede formada por FOX, Sky Sports, Canal+, Viaplay, Movistar, Stan Sport, BandSports e outras emissoras, além de seu próprio serviço IndyCar Live. A Fórmula E acaba de conquistar uma plataforma central com alcance em 144 mercados.
Isso não significa que a Disney tenha abandonado ou rejeitado a IndyCar. Os dois contratos possuem dimensões e objetivos diferentes, e os valores envolvidos não são conhecidos. Entretanto, a escolha da Fórmula E como propriedade global mostra qual campeonato apresentou, neste momento, o projeto mais compatível com a estratégia internacional do grupo.
A IndyCar possui vantagens esportivas evidentes. Suas corridas combinam circuitos mistos, urbanos, ovais curtos e superspeedways; a Indianapolis 500 é um dos maiores eventos do automobilismo; o nível dos pilotos é elevado; e a competição costuma oferecer imprevisibilidade real. O problema não está na qualidade da pista, mas na transformação desse patrimônio esportivo em um produto mundial organizado.
Enquanto a Fórmula E se apresenta como campeonato global, a IndyCar continua essencialmente norte-americana. Seus principais eventos estão concentrados nos Estados Unidos, as corridas internacionais são poucas e a distribuição depende de acordos territoriais. Para um grupo como a Disney, que busca conteúdo capaz de circular com a mesma identidade em dezenas de países, essa fragmentação pode reduzir o potencial comercial.
Existe também uma diferença na propriedade dos direitos norte-americanos. Desde 2025, a FOX é a emissora exclusiva da IndyCar nos Estados Unidos. Posteriormente, a Fox Corporation adquiriu um terço da Penske Entertainment, empresa proprietária da categoria e do Indianapolis Motor Speedway. A FOX deixou de ser apenas a televisão da IndyCar e passou a participar diretamente de sua valorização.
Esse arranjo dificulta qualquer possibilidade de o Disney+ tornar-se, no curto prazo, a plataforma mundial exclusiva da IndyCar. Os direitos norte-americanos estão ligados a uma companhia que possui participação na própria categoria. A Fórmula E, por outro lado, pôde oferecer à Disney uma operação que inclui os Estados Unidos e grande parte do mundo no mesmo acordo.
Contudo, Disney e FOX não são adversárias em todas as situações. ESPN e FOX One lançaram nos Estados Unidos uma assinatura conjunta que reúne os dois serviços por US$ 39,99 mensais. A iniciativa mostra que empresas concorrentes podem cooperar na distribuição quando existe interesse comercial. Assim, uma futura articulação internacional envolvendo FOX, Disney e IndyCar não seria impossível, embora nenhuma negociação desse tipo tenha sido anunciada.
E qual será a consequência mais imediata para a Indycar?
Continua…