Markham: a Indy entra em território desconhecido

por Gildo Pires

Depois de quase quatro décadas em Toronto, a categoria troca a memória de Exhibition Place por uma cidade que deseja construir a própria história. O resultado pode ser uma corrida imprevisível — e muito mais importante do que parece.

Durante quase 40 anos, a IndyCar soube exatamente onde encontrar o Canadá. Era preciso ir a Exhibition Place, entrar na Lake Shore Boulevard e aceitar que, em algum momento, Toronto cobraria seu preço. O circuito estreito, irregular e cercado por muros produziu acidentes, vencedores improváveis e uma relação com a categoria iniciada ainda em 1986.

Neste fim de semana, porém, os caminhões seguiram por outro caminho.

A Indy não deixou o Canadá, mas mudou de endereço. Markham, cerca de 25 quilômetros ao norte do centro de Toronto, recebe pela primeira vez a principal categoria norte-americana de monopostos e a mudança representa bem mais do que a substituição de algumas ruas por outras.

Toronto havia se tornado logisticamente complicada. As obras na região de Exhibition Place, a utilização de suas instalações durante a Copa do Mundo e a insegurança provocada por acordos renovados por períodos curtos tornavam difícil planejar o futuro. Para os organizadores, permanecer ali significaria correr o risco de interromper uma tradição que sobrevivera até mesmo às muitas transformações da antiga CART.

Markham apareceu como solução, mas rapidamente se tornou uma oportunidade. Em vez de tolerar a corrida, a cidade quis recebê-la. Ofereceu um acordo de cinco anos, espaço para investimento e uma região em crescimento, cercada por empresas, transporte público, hotéis e uma população que a prefeitura deseja aproximar do evento. Para Markham, a Indy não é mais uma atração no calendário. É o maior acontecimento esportivo já organizado na região.

A categoria também ganha algo que lhe faz falta: novidade verdadeira.

Ninguém possui caderno de acertos para Markham. Não há vencedor anterior, volta de referência, estatística confiável de pneus ou memória de onde ultrapassar. Engenheiros poderão simular quase tudo, mas a primeira sessão de pista mostrará aquilo que o computador não conseguiu prever.

O traçado tem 3,52 quilômetros, 12 curvas, retas que podem criar disputas de frenagem e uma incomum área de boxes com duas faces. Há setores rápidos, trechos técnicos e uma pista montada sobre vias que nunca foram projetadas para receber carros da Indy. O asfalto mudará, a aderência evoluirá e qualquer pequeno erro terminará no muro.

É justamente aí que Markham se torna fascinante.

Alex Palou chega com 110 pontos de vantagem e um campeonato que parece caminhar tranquilamente para suas mãos. Mas pistas desconhecidas não respeitam lógica, retrospecto ou conforto na classificação. Uma bandeira amarela no instante errado, uma escolha ruim de pneus ou uma classificação interrompida pode transformar o líder em passageiro de uma corrida controlada por outros.

Também será preciso descobrir se Markham permitirá ultrapassagens ou se produzirá um longo jogo de estratégia. O desenho sugere pontos de ataque, mas circuitos urbanos só revelam sua personalidade quando os carros ocupam toda a largura disponível. Até a largada, ninguém sabe se estamos diante de uma nova Long Beach ou apenas de mais um cenário bonito e difícil de superar.

A saída de Toronto naturalmente provoca saudade. Exhibition Place guardava parte importante da história da Indy no Canadá e não será substituída por decreto. Markham terá de conquistar sua identidade volta após volta, acidente após acidente, disputa após disputa.

Mas existe algo irresistível em assistir ao nascimento de uma corrida.

No domingo, todos começarão do zero. E, pela primeira vez em muito tempo, nem mesmo a Indy sabe exatamente o que encontrará depois da primeira curva.

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