Audi Q3: como conseguiram estragar o que estava tão bom?

por Plinio Calenzo

(imagem: Primeira Geração)

Para aqueles que me conhecem e acompanham as minhas matérias há algum tempo, talvez esta aqui surpreenda um pouco.

Normalmente, eu procuro explorar aquilo que existe de melhor nos carros. E faço isso por uma razão muito simples: entendo perfeitamente que nem todo carro foi feito para todas as pessoas.

Os SUVs, por exemplo, dominaram o mercado automobilístico nos últimos anos. Definitivamente, não são os carros que mais me agradam. Sempre tive uma preferência por automóveis mais baixos, esportivos, com outra dinâmica e outra proposta. Entretanto, seria uma enorme injustiça não reconhecer que os SUVs são extremamente úteis. Entendo perfeitamente por que grande parte do público os prefere hoje e respeito profundamente essa escolha.

Da mesma maneira, também entendo que nem sempre as montadoras acertam.

Afinal, não existe um designer que acorde de manhã, tome seu café e pense: “Hoje eu vou desenhar um carro feio”.

Pelo menos, espero que não.

Mas, de vez em quando, acontecem alguns escorregões. E alguns são difíceis de explicar.

Os famosos “dentes de sabre” adotados pela Peugeot, por exemplo, são extremamente discutíveis. Algumas pessoas adoram; outras simplesmente detestam. E não cabe a mim determinar se são de bom ou mau gosto. Se existe um público que gosta, então o desenho cumpriu sua função para aquelas pessoas.

Existem, porém, dois extremos curiosos no design automobilístico.

De um lado, temos aqueles carros cujo desenho consegue praticamente uma unanimidade positiva. Mesmo que você jamais comprasse aquele automóvel, olha para ele e reconhece: “É bonito”.

Do outro lado existe algo muito mais raro: o carro tão feio, mas tão feio, que consegue a proeza de produzir uma espécie de consenso ao contrário.

Todo mundo olha e pergunta: “Como deixaram isso acontecer?”

Pois bem.

Recentemente tivemos um exemplo vindo da própria Ferrari, com um modelo que conseguiu provocar enorme rejeição entre entusiastas e pessoas ligadas ao mundo automobilístico.

E agora, pasmem, chegou a vez da Audi.

imagem: Segunda Geração

Sim, a Audi.

A marca das quatro argolas conseguiu cometer aquilo que, para mim, chega perto de um sacrilégio: estragou o Q3.

Desde o seu surgimento, o Q3 se consolidou como um dos melhores pequenos SUVs premium do mercado. A primeira geração tinha um desenho mais arredondado, agradável, que conquistou o público e transformou o modelo em um grande sucesso comercial.

Depois, ele foi evoluindo.

E evoluiu muito.

A geração anterior do Q3 era impressionantemente bonita. A Audi conseguiu, inclusive, fazer no Q3 Sportback um fastback extremamente bem resolvido. Era esportivo, elegante, proporcional e tinha presença.

Somando isso àquela mecânica que já conhecemos da Audi, tínhamos um carro capaz de empolgar até quem normalmente não é apaixonado por SUVs.

Eu sou um desses casos.

Não sou propriamente um admirador do segmento, mas confesso: gostava muito de olhar para o Q3. Era um daqueles SUVs que me faziam pensar que talvez existisse esperança para nós, amantes dos carros mais baixos.

E então veio a nova geração.

E a Audi simplesmente estragou o Q3.

Desculpem-me os amigos da marca, mas não encontrei outra maneira de dizer.

O novo desenho do Q3 é, na minha opinião, horroroso.

E o mais surpreendente é ver uma empresa premium como a Audi, integrante de um dos maiores grupos automobilísticos do planeta, cometer um erro de design dessa magnitude.

Ao olhar para o carro, lembrei imediatamente de alguns automóveis americanos da década de 1990, época em que, às vezes, parecia existir uma competição secreta entre os fabricantes para descobrir quem conseguia fazer o carro mais feio.

Pois bem: a Audi entrou na competição.

imagem: Terceira Geração

E entrou forte.

O mais triste é que, mecanicamente, o Q3 continua sendo um Audi. Temos tecnologia, engenharia alemã, boas motorizações e sistemas híbridos modernos. Ou seja, continua existindo um excelente automóvel debaixo daquela carroceria.

O problema é justamente olhar para ela.

E existe ainda uma coisa curiosa.

A Audi resolveu seguir um caminho de design que, na minha visão, já havia dado sinais de desgaste em outros fabricantes. A Hyundai, por exemplo, passou por uma fase do Creta em que resolveu espalhar elementos luminosos pela carroceria de uma maneira tão exagerada que parecia terem encontrado no almoxarifado um estoque de lanternas de vários carros diferentes e decidido:

“Não vamos desperdiçar. Coloca tudo.”

E, guardadas as devidas proporções, foi mais ou menos essa sensação que tive olhando para o novo Q3.

Principalmente na traseira.

É tanta informação visual, tantos elementos tentando chamar atenção ao mesmo tempo, que ainda estou tentando entender exatamente qual foi a intenção.

Parece que também estavam sobrando lanternas no estoque da Audi.

E alguém resolveu aproveitar.

Audi, me desculpe.

Eu realmente nunca imaginei que escreveria uma matéria tão crítica sobre um carro da marca. Tenho enorme respeito pela engenharia da Audi e por vários automóveis fantásticos que ela produziu ao longo de sua história.

Mas essa não deu para passar.

E existe algo ainda mais impressionante: um desenho como esse não nasce simplesmente da prancheta de uma única pessoa e vai direto para a linha de produção. Um automóvel passa por designers, engenheiros, executivos, pesquisas, apresentações, reuniões e inúmeras aprovações antes de chegar às ruas.

Ou seja: muita gente olhou para aquilo e disse:

“Pode produzir.”

Minha única explicação é que essa reunião aconteceu numa sexta-feira, no final da tarde, e todo mundo estava querendo ir para casa.

Porque não é possível.

Mas existe uma instituição no mundo automobilístico muito mais poderosa do que qualquer conselho de administração: o consumidor.

É ele quem dará a resposta.

E acredito que o mercado mostrará à Audi que o Q3 merece um desenho compatível com aquilo que sempre representou: um SUV premium compacto, tecnológico, esportivo e, principalmente, bonito.

Porque mecânica se aperfeiçoa, tecnologia se atualiza e software se corrige.

Mas carro feio…

Carro feio você precisa olhar para ele todos os dias na garagem.

Espero sinceramente que a Audi perceba isso rapidamente.

Estaremos atentos.

Um grande abraço a todos e boa leitura.

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