Indianapolis ainda merece a NASCAR?

por Gildo Pires

Há uma verdade incômoda por trás da imagem grandiosa do Indianapolis Motor Speedway: nem todo templo produz, necessariamente, uma boa corrida.

A Brickyard 400 continua oferecendo prestígio, tradição, troféus cobiçados e fotografias capazes de engrandecer qualquer currículo, mas o espetáculo entregue pelos carros da NASCAR no oval de 2,5 milhas tornou-se frequentemente inferior à importância que o evento reivindica.

Diante disso, a pergunta deixou de ser uma provocação desrespeitosa e passou a representar uma discussão legítima: Indianápolis ainda merece ocupar uma vaga permanente no calendário da Cup Series?

A corrida nasceu em 1994 cercada por uma dimensão quase épica. Pela primeira vez desde 1916, uma prova que não era a Indianapolis 500 foi realizada no oval, diante de mais de 250 mil espectadores. Jeff Gordon, então com 23 anos, venceu a primeira edição e ajudou a transformar imediatamente a Brickyard 400 em uma das grandes conquistas da NASCAR. A associação fazia sentido. A categoria atravessava um período de expansão nacional, Indianápolis procurava abrir suas portas para novos públicos e o encontro entre o maior campeonato de stock cars dos Estados Unidos e o circuito mais famoso do país parecia inevitável.

O problema é que o peso histórico do lugar nunca alterou sua geometria.

Indianápolis foi concebida para monopostos de alta velocidade, com longas retas, quatro curvas de 90 graus e pouco mais de nove graus de inclinação. Para os pesados carros da NASCAR, essas características criam uma pista estreita do ponto de vista dinâmico, na qual existe uma trajetória claramente superior, o ar turbulento prejudica quem segue atrás e as ultrapassagens dependem mais de relargadas, erros, pneus ou estratégias de boxes do que de uma disputa prolongada entre carros equivalentes.

A Brickyard 400 de 2026 ofereceu emoção em seus momentos decisivos: Corey Heim, em apenas sua 15ª largada na Cup Series, superou Denny Hamlin numa relargada agressiva e sustentou a liderança diante de Christopher Bell e Joey Logano, vencendo por apenas 0s287. A prova teve 15 mudanças de liderança e cinco bandeiras amarelas em 160 voltas. Houve tensão, estratégia e um vencedor surpreendente, mas isso não invalida a crítica central e boa parte da ação concentrou-se nas relargadas, nos boxes e no posicionamento de pista. Heim liderou 58 voltas e conquistou uma vitória importante, porém o resultado dramático não significa necessariamente que o desenvolvimento completo da corrida tenha sido igualmente envolvente.

Esse é justamente o paradoxo de Indianápolis: a corrida pode produzir histórias extraordinárias sem produzir automobilismo extraordinário.

Bubba Wallace viveu ali, em 2025, um dos momentos mais importantes de sua carreira, tornando-se o primeiro piloto negro a vencer uma grande prova no oval. Kyle Larson triunfou em 2024, no retorno da Cup Series ao traçado tradicional. Os vencedores beijam a faixa de tijolos, recebem troféus especiais e passam a integrar uma lista que inclui Gordon, Dale Earnhardt, Jimmie Johnson, Tony Stewart e outros gigantes e o significado humano permanece enorme.

O problema está entre a largada e a bandeirada.

A NASCAR já reconheceu essa incompatibilidade quando abandonou temporariamente o oval e disputou, entre 2021 e 2023, corridas no circuito misto. A mudança não solucionou a questão: o traçado interno criou outros problemas, incluindo acidentes, confusão nas relargadas e a impressão de que a categoria havia renunciado justamente ao elemento que conferia valor à visita: o oval de Indianápolis. O retorno da Brickyard 400, em 2024, recuperou parte do prestígio e atraiu oficialmente cerca de 70 mil pessoas, um público respeitável em qualquer autódromo, mas visualmente pequeno dentro de uma instalação com capacidade permanente superior a 250 mil lugares.

A questão, portanto, não é simplesmente retirar Indianápolis para punir uma corrida ruim. É decidir se tradição deve significar permanência automática.

A NASCAR contemporânea demonstrou disposição para experimentar. Recuperou North Wilkesboro, Rockingham e Chicagoland, criou eventos urbanos e passou a tratar o calendário como ferramenta de expansão, não como patrimônio imutável. Cada data possui valor comercial, televisivo e estratégico.

Manter uma pista apenas por seu nome significa negar espaço a mercados ainda não explorados ou a circuitos nos quais o carro atual poderia produzir disputas melhores. Porém, abandonar definitivamente Indianápolis também seria um erro.

A Brickyard 400 possui algo que não pode ser fabricado por campanhas de marketing: significado. Para equipes, pilotos, fabricantes e patrocinadores, vencer ali ainda representa mais do que ganhar uma etapa comum. Então, a solução mais inteligente talvez esteja entre a submissão à tradição e o rompimento completo. Indianápolis poderia entrar num sistema de rodízio, deixando o calendário por um ou dois anos e retornando quando alterações no carro, nos pneus ou no pacote aerodinâmico justificassem uma nova tentativa.

Isso também protegeria o próprio evento. Uma ausência temporária devolveria expectativa à corrida, impediria que o nome Brickyard fosse desgastado por edições previsíveis e obrigaria NASCAR, Goodyear, equipes e fabricantes a encontrar uma configuração específica para as características do speedway e não seria uma expulsão, mas uma pausa estratégica.

Indianápolis não precisa da NASCAR para continuar sendo Indianápolis.

A NASCAR, por sua vez, não deve acreditar que a simples presença no lugar mais famoso do automobilismo transforma automaticamente uma corrida comum em espetáculo.

O prestígio do cenário não pode substituir a qualidade da competição e quando a memória pesa mais do que aquilo que acontece na pista, a tradição deixa de fortalecer o evento e começa a protegê-lo de uma avaliação honesta.

Talvez a Brickyard 400 ainda mereça existir. O que ela não merece (e a NASCAR tampouco) é permanecer intocável apenas porque ninguém deseja ser o primeiro a admitir que até uma joia da coroa pode precisar ser retirada da vitrine para voltar a brilhar.

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