
O automobilismo está tentando descobrir como chegar ao futuro sem abandonar aquilo que fez milhões de pessoas se apaixonarem por ele. A questão não se limita ao motor elétrico, ao combustível sustentável ou à presença de sistemas híbridos. É mais profunda: quanto uma corrida pode mudar antes de deixar de produzir as sensações que esperamos dela?
Praticamente todas as grandes categorias já iniciaram essa transformação, embora tenham escolhido caminhos diferentes.
A Fórmula E nasceu elétrica e prepara uma nova geração de carros com potência de até 600 kW, o equivalente a aproximadamente 800 cavalos, tração integral e capacidade de regenerar mais energia do que utiliza em sua potência normal de corrida. O WEC emprega combustível renovável, mantém os híbridos e trabalha para incorporar o hidrogênio. A IndyCar associou seu V6 biturbo a um sistema híbrido acionado pelo próprio piloto e utiliza combustível de origem totalmente renovável. Até a NASCAR, uma das maiores defensoras do motor a combustão, desenvolveu um protótipo elétrico e assumiu o compromisso de reduzir suas emissões operacionais a zero até 2035.
Não se trata mais de saber se a mudança acontecerá. Ela já está acontecendo. A dúvida é o que o automobilismo pretende preservar durante esse processo.
Durante mais de um século, as corridas foram associadas ao excesso. Mais velocidade, mais potência, mais barulho e maior consumo faziam parte de um ambiente no qual a eficiência existia, mas raramente aparecia como mensagem principal. Vencer significava chegar antes, mesmo nas provas em que economizar combustível, pneus e equipamento sempre foi indispensável.
Agora, a eficiência deixou os bastidores e passou a ocupar o centro da competição. O piloto precisa entender quando recuperar energia, em que momento utilizá-la e quanto pode exigir do carro sem comprometer o restante da prova e a corrida não é apenas uma disputa de velocidade, mas também uma administração permanente de recursos.
Em princípio, não há nada de estranho nisso, mas o automobilismo sempre premiou quem soube preservar a máquina. A diferença é que, antes, essa economia ajudava o carro a correr mais e hoje, em algumas situações, o carro parece correr para cumprir uma meta de energia.
É nesse ponto que a transformação começa a dividir o público.
Para uma nova geração, potência elétrica, regeneração e software são partes naturais de um automóvel. Para quem aprendeu a reconhecer um carro antes mesmo de vê-lo, o som, a vibração e a violência da aceleração não são detalhes dispensáveis. Formam uma linguagem emocional que nenhuma ficha técnica consegue reproduzir.
Reduzir essa resistência a uma simples rejeição ao progresso seria um erro. O público não deseja necessariamente motores antigos, poluentes e ineficientes e o que ele teme é um futuro no qual carros visualmente diferentes apresentem comportamentos semelhantes, produzam poucas sensações e dependam mais da administração eletrônica do que da capacidade humana de explorar seus limites.
A tecnologia, entretanto, não precisa ser inimiga da emoção. Um sistema híbrido pode acrescentar potência, criar novas possibilidades estratégicas e tornar a participação do piloto ainda mais importante., combustíveis renováveis podem preservar motores a combustão sem manter o mesmo impacto ambiental, o hidrogênio pode oferecer novas respostas para provas de longa duração e os carros elétricos podem alcançar níveis de desempenho que há poucos anos pareciam impossíveis.
O problema surge quando sustentabilidade se transforma apenas em discurso publicitário ou quando a eficiência passa a valer mais do que a corrida.
Também existe uma contradição pouco discutida. As emissões produzidas pelos carros durante uma prova representam apenas uma parte do impacto de um campeonato mundial. Transportar toneladas de equipamentos entre continentes, deslocar equipes, receber milhares de espectadores e construir estruturas temporárias pode consumir muito mais recursos do que os veículos que aparecem na pista. Silenciar os motores sem enfrentar toda essa operação pode produzir uma imagem ambientalmente correta sem resolver o problema principal.
Por isso, o futuro do automobilismo não será definido apenas pelo tipo de energia utilizado. Ele dependerá da capacidade de cada categoria para explicar por que está mudando e o que pretende entregar em troca.
Se a eletrificação proporcionar carros mais rápidos, disputas melhores e novas formas de pilotagem, ela será compreendida. Se os combustíveis sustentáveis mantiverem diferentes motores em atividade, poderão preservar uma diversidade que o automóvel de rua começa a perder. E se o hidrogênio demonstrar eficiência em condições extremas, as corridas voltarão a cumprir sua antiga função de laboratório.
Mas, se a transformação resultar apenas em carros mais pesados, estratégias difíceis de compreender e competições condicionadas por números que o público não consegue perceber, o automobilismo terá modernizado suas máquinas sem assegurar o próprio futuro.
Corridas nunca foram importantes apenas porque desenvolveram tecnologias. Elas também produziram encantamento, criaram heróis e transformaram máquinas em personagens e o desafio ambiental é real e não pode ser ignorado, mas preservar a emoção também é uma forma de garantir a sobrevivência do esporte.
Talvez o automobilismo do futuro não precise fazer o mesmo barulho do passado. Ainda assim, precisará encontrar uma nova maneira de ser ouvido.