Alguém se lembra da transmissão?

por Gildo Pires

Os números são enormes, o alcance é incomparável e a “categoria top do automobilismo mundial” voltou a ocupar os televisores do país. Resta descobrir quanto desse sucesso pertence à equipe que está diante do microfone.

A categoria do automobilismo mais conhecida do planeta voltou para a “Vênus Platinada” e os números praticamente encerraram qualquer discussão comercial.

Logo na abertura da temporada, a primeira corrida na Austrália registrou média de 6,4 pontos e pico de 7,4 na Grande São Paulo, durante a madrugada. O concorrente mais próximo marcou apenas 1,9. Poucas semanas depois, a emissora informou que as três primeiras etapas haviam alcançado 26,9 milhões de pessoas nas diferentes plataformas do grupo.

Em julho, a categoria divulgou um número ainda mais impressionante: 18 milhões de brasileiros teriam sido alcançados pela transmissão da prova na Inglaterra no canal aberto e sua versão paga. Em determinados fins de semana, a audiência nacional chegou a ser cinco vezes maior que a registrada no ano anterior.

Diante disso, seria fácil concluir que a emissora devolveu a nobre categoria do desporto motor ao lugar que ela jamais deveria ter deixado.

Mas os números não contam toda a história.

Quando uma corrida entra na emissora do Jardim Botânico, na Zona Sul do Rio de Janeiro, ela encontra uma rede com cobertura nacional, afiliadas, chamadas durante programas de enorme audiência, presença nos telejornais, divulgação nos portais, vídeos nas redes sociais e milhões de televisores que já estavam sintonizados no canal antes mesmo da volta de apresentação.

A antiga casa da categoria, uma emissora paulistana, precisava convencer o espectador a procurá-la. Sua concorrente carioca muitas vezes só precisa evitar que ele mude de canal.

Isso não diminui o resultado. Distribuição sempre fez parte da força da televisão. Uma categoria que aparece no mais cohecido jornal da hora do jantar, no canal esportivo, nos intervalos da programação e nas chamadas da emissora naturalmente chega a pessoas que jamais procurariam espontaneamente por uma corrida.

A questão é outra: quanto dessa audiência foi conquistado pela transmissão e quanto simplesmente foi entregue a ela?

Everaldo Marques é um narrador experiente, versátil e seguro. Luciano Burti conhece a categoria por dentro. Rafael Lopes acrescenta leitura jornalística, enquanto Mariana Becker possui uma experiência internacional rara na televisão brasileira. Não se trata, portanto, de uma equipe despreparada.

Talvez o problema seja justamente o excesso de segurança.

A transmissão funciona. Informa, explica, acompanha a corrida e dificilmente comete algum desastre. Mas ainda parece procurar uma personalidade própria. Falta uma química capaz de transformar a equipe em parte do espetáculo, de produzir frases que sobrevivam à bandeirada ou de fazer o espectador sentir que aquela corrida só poderia ter sido narrada daquela maneira.

Em alguns momentos, a emissora transmite as provas como quem cumpre muito bem uma obrigação importante. Tudo está no lugar, ninguém compromete, mas pouca coisa surpreende.

A maneira como Mariana Becker vem sendo utilizada ajuda a compreender esse problema. Durante anos, ela se tornou uma referência não apenas por conhecer o automobilismo, mas porque estava onde as coisas aconteciam. Caminhava pelo paddock, observava movimentações, encontrava personagens, percebia mudanças de ambiente e trazia informações que não apareciam nas imagens oficiais.

Isso é o verdadeiro jornalismo de campo.

Colocá-la na inusitada função de “comentarista de campo” não é exatamente uma promoção. Pode ser um desperdício.

Mariana tem conhecimento suficiente para analisar uma corrida, evidentemente. Mas comentaristas capazes de interpretar estratégias, pneus e regulamentos podem ser encontrados ou preparados. Uma repórter com suas relações, experiência, credibilidade e acesso internacional é muito mais difícil de substituir. Quando ela deixa o paddock para ocupar uma função mais convencional na transmissão, a transmissão ganha mais uma opinião e perde parte importante de seus olhos e ouvidos dentro do paddock.

A reportagem de campo também oferecia algo de que a cobertura atual sente falta: informação própria. Sem esse elemento, a equipe corre o risco de apenas comentar aquilo que todos os espectadores já estão vendo na tela. A categroia “top model das pistas” possui uma transmissão mundial tecnicamente sofisticada, gráficos abundantes e narrativas preparadas por ela própria. O verdadeiro diferencial de uma emissora brasileira deveria estar justamente naquilo que o sinal internacional não consegue entregar.

A comparação com o trabaho paulistano torna o assunto ainda mais interessante. Mesmo com audiência muito menor, a antiga transmissão havia desenvolvido um público que conhecia as vozes, reconhecia as manias e discutia os comentários. Sérgio Maurício despertava admiração e irritação, muitas vezes na mesma proporção. Reginaldo Leme carregava memória. Felipe Giaffone imprimia espontaneidade. A equipe podia exagerar, errar o tom e dividir opiniões, mas dificilmente passava despercebida.

Na casa da cagetoria em 2026, a audiência é muito maior. A ligação emocional com a transmissão ainda não parece ser.

Há também uma armadilha nos dados divulgados. “Alcançar 18 milhões de pessoas” não significa que 18 milhões acompanharam a corrida inteira. Alcance soma todos os indivíduos que tiveram algum contato com a programação durante determinado período. É diferente da audiência média e, principalmente, não revela atenção, permanência ou envolvimento.

A emissora carioca já demonstrou que consegue colocar aquela “Fórmula” diante de um público gigantesco. O próximo desafio será provar que consegue mantê-lo ali pela corrida, e não apenas pelo hábito de deixar a televisão ligada no mesmo canal.

Gabriel Bortoleto ajuda. Uma temporada competitiva ajuda ainda mais. Antonelli, Hamilton, Ferrari, Mercedes e as novas regras oferecem histórias que a própria “Fórmula” entrega prontas. Nenhuma equipe de transmissão cria sozinha uma audiência desse tamanho, assim como nenhuma boa corrida depende inteiramente do narrador.

Mas uma cobertura verdadeiramente marcante faz mais do que transportar imagens. Ela ensina o público a olhar, cria intimidade com os personagens, descobre histórias que as câmeras oficiais não mostraram e transforma uma manhã de domingo numa experiência compartilhada.

Os números dizem que “o Rio de Janeiro venceu São Paulo”.

Ainda falta saber se a transmissão também venceu — ou se apenas recebeu a maior arquibancada do país já cheia.

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