
Sim, existe uma diferença entre transmitir algumas corridas e construir uma temporada.
A televisão aberta é capaz de alcançar o espectador ocasional, apresentar pilotos e criar eventos nacionais. O streaming é mais eficiente para entregar treinos, classificações, Indy NXT, reprises e transmissões simultâneas. A melhor solução para a IndyCar não parece ser escolher entre uma coisa e outra. É combinar as duas: uma casa digital completa e uma janela aberta capaz de transformar as principais corridas em acontecimentos populares.
A Fórmula E já declarou que seu acordo global com a Disney complementará, e não substituirá, parceiros lineares e transmissões abertas existentes. Essa arquitetura híbrida deveria servir de referência. O streaming entrega profundidade; a TV aberta entrega descoberta.
Sem descoberta, o público envelhece. Sem profundidade, o novo fã não se transforma em seguidor permanente.
A IndyCar possui argumentos fortes para negociar. A temporada de 2025 alcançou média de 1,362 milhão de espectadores por corrida nos Estados Unidos, crescimento de 27% em relação ao ano anterior e o melhor resultado da categoria em 17 anos. O aumento foi especialmente relevante entre espectadores de 18 a 34 anos.
São números norte-americanos e não podem ser automaticamente transferidos para o mercado latino. Mesmo assim, demonstram que o produto responde quando recebe exposição, promoção e transmissões em canais de grande alcance.
Há, porém, uma nova complexidade institucional. A Fox não é apenas a emissora norte-americana da IndyCar. Em 2025, adquiriu um terço da Penske Entertainment, empresa que controla a categoria e o Indianapolis Motor Speedway.
Essa participação aproxima os interesses da categoria e da emissora nos Estados Unidos, mas pode tornar mais sensível a negociação internacional. A IndyCar precisará definir até onde deseja uma estratégia articulada com a Fox e até onde pretende manter relações independentes com Disney, ESPN e emissoras regionais.
Na América Latina, a resposta não pode ser baseada exclusivamente no maior cheque.
O valor de um contrato deve incluir alcance, idioma, promoção, produção local, presença jornalística e disponibilidade das sessões. Uma proposta financeiramente maior pode ser comercialmente pior se esconder as corridas em um serviço pouco utilizado, eliminar a narração em português ou espanhol ou oferecer apenas a prova, sem classificação, treinos e Indy NXT.
O mercado mexicano terá peso especial. Pato O’Ward fornece à categoria uma ligação direta com uma das maiores audiências esportivas da região. O México tem público, patrocinadores e potencial para receber uma corrida. Uma eventual prova no país mudaria significativamente o valor dos direitos locais.
O Brasil também conserva importância histórica. Emerson Fittipaldi, Gil de Ferran, Hélio Castroneves, Tony Kanaan, Cristiano da Matta e outros pilotos construíram uma relação emocional que nenhuma campanha publicitária conseguiria fabricar. A presença de brasileiros no grid principal e na Indy NXT pode reativar essa ligação, mas a nostalgia não substitui exposição contínua.
Um jovem piloto brasileiro precisa ser visto antes de chegar à IndyCar. Se suas corridas na Indy NXT ficam escondidas, o país descobre seu nome tarde demais. Isso prejudica audiência, patrocinadores e o próprio projeto esportivo do competidor.
A transmissão, portanto, faz parte do sistema econômico das equipes. Um patrocinador latino-americano pergunta onde sua marca aparecerá, em que idioma, diante de quantas pessoas e por quanto tempo. Se os direitos de 2028 permanecerem indefinidos durante boa parte de 2027, equipes e pilotos terão dificuldade para vender projetos vinculados à estreia do IR-28.
Também existe o risco da fragmentação. O torcedor pode encontrar a corrida em um canal, os treinos em uma plataforma, a classificação em outra e a Indy NXT em um serviço internacional. Tecnicamente, tudo foi transmitido. Na prática, ninguém consegue formar hábito.
Em 2027, a IndyCar poderá escolher entre quatro caminhos.
O primeiro é renovar integralmente com ESPN e Disney+, preservando a cobertura regional e utilizando o IR-28 como argumento para obter mais promoção e conteúdo próprio.
O segundo é manter a ESPN em alguns países e negociar separadamente mercados estratégicos, especialmente Brasil e México. Isso pode aumentar receitas locais, mas amplia a fragmentação.
O terceiro é construir uma relação internacional mais ampla com a Fox, aproveitando sua participação na Penske Entertainment. O desafio seria encontrar infraestrutura e canais com presença equivalente em toda a América Latina.
O quarto é fortalecer o IndyCar Live e transformá-lo em uma verdadeira plataforma direta ao consumidor. Essa alternativa concede controle sobre dados, assinaturas e acervo, mas exige investimento em tecnologia, produção, marketing, meios de pagamento locais e narração em diferentes idiomas.
A solução mais inteligente provavelmente será uma combinação: ESPN e Disney+ como plataforma regional completa; televisão aberta para provas selecionadas; IndyCar Live para conteúdos complementares e mercados sem cobertura; e liberdade para acordos locais que realmente ampliem o público.
Contudo, isso deverá ser negociado antes que 2027 se transforme em contagem regressiva.
O momento ideal para anunciar o futuro contrato não é depois da última corrida de 2027. É antes. A IndyCar deveria entrar naquela temporada com o destino televisivo do IR-28 definido, permitindo que a emissora escolhida acompanhe os testes, apresente o projeto e construa a expectativa.
Caso contrário, a categoria poderá chegar a 2028 com o carro certo e a distribuição errada.
Esse seria o paradoxo mais cruel: equipes obrigadas a absorver os custos de uma revolução técnica enquanto o público latino-americano procura onde assistir; pilotos tentando vender patrocínios sem conhecer a exposição disponível; e a Disney promovendo globalmente o GEN4 da Fórmula E justamente quando o IR-28 precisa ser apresentado ao mundo.
O drama de 2027 não estará apenas na disputa pelo campeonato. Estará nas reuniões realizadas longe dos autódromos, nos cálculos de audiência, nos preços das assinaturas e na decisão sobre quem contará a próxima história da IndyCar.
Em 2028, o IR-28 poderá acelerar mais, ser mais leve e oferecer corridas melhores. Mas nenhuma inovação técnica é capaz de conquistar um público que não consegue encontrá-la — ou que já não pode pagar para assistir.
A última temporada do atual contrato latino-americano será, por isso, muito mais que uma despedida contratual. Será uma prova de visão.
A IndyCar precisará decidir se deseja apenas estar disponível na América Latina ou se deseja voltar a ser importante nela.