2027: o ano em que a IndyCar poderá perder a largada para o próprio futuro – parte 1

por Gildo Pires

A temporada de 2027 não será apenas mais um campeonato na história da IndyCar. Será o último ano antes de uma transformação técnica que a categoria prepara há muito tempo — e também o último ano do atual ciclo de direitos de transmissão com ESPN e Disney+ na América Latina.

A coincidência é perigosa.

Em 2028, a IndyCar pretende apresentar ao mundo o IR-28, seu primeiro chassi verdadeiramente novo em mais de uma década. A categoria promete um carro mais leve, mais potente, mais exigente para os pilotos e visualmente capaz de representar uma nova época. Entretanto, no momento em que esse carro entrar na pista, a IndyCar poderá não ter garantida a mesma casa televisiva e digital para apresentá-lo ao público latino-americano.

O contrato anunciado pela ESPN cobre as temporadas de 2025, 2026 e 2027 em mais de 15 países da região. Ele contempla corridas, treinos e classificações da IndyCar e da Indy NXT, com transmissões em inglês, espanhol e português. Oficialmente, porém, não existe até agora confirmação pública de renovação para 2028. Portanto, a última bandeirada de 2027 não encerrará apenas uma temporada: poderá também encerrar uma relação de mídia que hoje oferece à categoria sua principal estrutura regional de distribuição.

É necessário fazer uma ressalva importante. O comunicado informa que o acordo abrange as temporadas até 2027, mas não publica a data contratual exata de expiração, valores, cláusulas de preferência ou prazos para renovação. A conclusão segura é que os direitos de 2028 precisarão ser renovados ou negociados novamente — não que a IndyCar necessariamente desaparecerá da ESPN na virada do ano.

Ainda assim, é impossível ignorar o tamanho da encruzilhada.

O IR-28 representa o maior argumento comercial da IndyCar para uma nova negociação. O carro utilizará motores Chevrolet e Honda V6 biturbo de 2,4 litros, capazes de produzir até 760 cavalos, associados a um sistema híbrido mais leve e com maior capacidade de armazenamento de energia. O projeto também prevê redução de aproximadamente 45 quilos em relação ao conjunto atual, maior participação dos pilotos no desempenho e uma aparência mais moderna.

Para as equipes, será uma mudança dispendiosa. Será necessário adquirir carros, peças, equipamentos, componentes de suspensão e novos conjuntos relacionados ao sistema híbrido. Haverá custos com testes, desenvolvimento, estoque de sobressalentes e acidentes inevitáveis durante a adaptação. Para a categoria, portanto, 2028 precisa ser vendido como um salto de valor — e não apenas como uma conta maior a ser paga pelos competidores.

É aqui que 2027 se torna decisivo.

Uma plataforma de alcance continental poderia transformar o lançamento do IR-28 em uma temporada-evento: documentários sobre o desenvolvimento do carro, programas técnicos, acompanhamento das equipes, testes de pré-temporada, apresentação dos pilotos e uma campanha preparada durante meses. Sem uma estratégia de mídia definida, o novo carro poderá simplesmente aparecer na tela na primeira corrida de 2028, privado da narrativa necessária para convencer o público de que está diante de uma nova era.

O agravante é que a Disney já escolheu outro campeonato para ocupar esse território.

A partir da temporada 2026–2027, a Fórmula E terá o Disney+ como sua casa global de streaming em 144 territórios. O acordo inclui todos os treinos, classificações e corridas, além de reprises imediatas, programas de análise, bastidores e conteúdos especiais. A parceria começa juntamente com o GEN4, novo carro da Fórmula E.

A correlação é evidente. A Fórmula E está fazendo exatamente aquilo que a IndyCar precisaria fazer em 2028: apresentar uma nova geração técnica por intermédio de uma plataforma global, acompanhada por um pacote completo de conteúdo.

Isso não significa que a Disney tenha decidido abandonar a IndyCar. Os dois campeonatos podem coexistir, possuem calendários diferentes e oferecem produtos esportivos distintos. Mas significa que, quando IndyCar e ESPN discutirem a renovação latino-americana, a plataforma já terá um campeonato mundial de monopostos contratado por vários anos, com distribuição global e conteúdo produzido especificamente para o ambiente digital.

A IndyCar chegará à mesa como uma categoria de enorme importância nos Estados Unidos, mas cuja presença internacional permanece fragmentada entre diferentes emissoras e serviços. A Fórmula E chegará como um produto concebido para oferecer à Disney uma programação mundial uniforme.

Essa diferença pode influenciar preço, destaque editorial, espaço na página inicial do aplicativo, promoção cruzada e investimentos em programas originais. Não basta estar dentro do Disney+. É necessário ser encontrado, recomendado e apresentado ao assinante.

No Brasil, essa questão assume uma dimensão ainda mais delicada.

Em agosto de 2026, o plano Premium do Disney+ — necessário para acessar todos os canais básicos da ESPN e o pacote esportivo mais completo — custa R$ 69,90 por mês. A opção anual custa R$ 587,90. Os planos Padrão, de R$ 49,90, e Padrão com anúncios, de R$ 29,90, não oferecem o mesmo acesso integral aos canais da ESPN. Os eventos esportivos ao vivo também podem conter publicidade, inclusive no plano Premium.

Isso significa que um torcedor interessado exclusivamente na IndyCar pode pagar R$ 489,30 por sete meses de assinatura, considerando aproximadamente o período da temporada, ou R$ 587,90 pelo plano anual. Para uma família que também consome filmes, séries, futebol, tênis e outros eventos da ESPN, o pacote pode fazer sentido. Para o fã que deseja apenas acompanhar uma categoria automobilística, o custo de entrada é considerável.

Esse é um problema recorrente do esporte moderno: o torcedor não compra exatamente aquilo que deseja assistir. Ele compra acesso a uma plataforma inteira para encontrar dentro dela o campeonato que procura.

O IndyCar Live oferece uma alternativa digital em alguns territórios e disponibiliza planos, reprises e determinadas sessões conforme as restrições de cada país. Em 2026, o plano anual anunciado pelo serviço custa US$ 24,99. Entretanto, a disponibilidade não é igual em todos os mercados. Onde existe um detentor exclusivo de direitos, corridas ou sessões podem ser bloqueadas. Por isso, o IndyCar Live não deve ser apresentado ao brasileiro como substituto garantido do Disney+: é necessário verificar, etapa por etapa e país por país, quais conteúdos estão liberados.

A presença da Band e do BandSports ajuda a reduzir essa barreira, especialmente quando corridas são disponibilizadas na televisão aberta. Em 2026, por exemplo, as 500 Milhas de Indianápolis foram exibidas pela Band. A emissora também colocou determinadas provas do campeonato em sua programação, enquanto o BandSports ampliou a cobertura na televisão por assinatura.

Mas ainda existe uma diferença entre transmitir algumas corridas e construir uma temporada…

Continua…

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