F1: Ninguém é besta, Domenicali!

por Sergio Milani

Simplificar e entreter, sim. Mas tirar o foco da parte técnica da F1 é ignorar o elefante da sala

por Sergio Milani
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Não é pelo fato que a F1 esteja de férias que não tenhamos polêmicas. A mais recente vem do flamante CEO da categoria, Stefano Domenicali. Em entrevista a alguns veículos de imprensa, o dirigente disse que o público tem dado um bom retorno ao novo regulamento e que teria mais interesse no que acontece na pista e não em detalhes técnicos.

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Detalhando sua visão, Domenicali citou uma conversa que teve com o diretor de cinema George Lucas, um grande entusiasta da F1, em que ele falou exatamente isso: o publico que ver ultrapassagens, sem se importar com nível de freada, aceleração ou bateria.

Isso vem justamente após um GP da Bélgica em que dados de telemetria foram convenientemente “omitidos” da transmissão televisiva para não deixar a queda de velocidade nos momentos em que a bateria ficava totalmente gasta e se facilitava a ultrapassagem. Este é um ponto que vários membros da cobertura especializada (inclusive alguns fazendo o papel de “representantes de pilotos e equipes”), parte do público e diretamente alguns pilotos têm levantado desde o início do ano.

Domenicali tem a seu favor as informações de aumento de público na TV e nas redes sociais, além de autódromos cheios, o que foi devidamente trombeteado pela F1 esta semana. E faz o papel de tentar promover seu terreno.

É preciso ter calma.

Domenicali usa algumas premissas até certo ponto corretas do ponto de vista do espetáculo. A F1 não é um esporte altamente intuitivo. Para entender, tem que se prestar atenção em uma série de assuntos para imergir neste mundo. Não podemos esquecer que a F1 é, antes de tudo, um campeonato para ver quem tem o melhor carro dentro de determinadas regras.

Neste ponto, fazer que a corrida tenha mais ultrapassagens é importante. Como o gol no futebol, a ultrapassagem é um dos objetivos do esporte a motor e o foco é ver quem chega na frente. A F1 por anos vem tentando meios de aumentar as disputas e o regulamento atual conseguiu isso de certa forma. Mas a um custo de menos segurança e de um maior artificialismo, até mesmo se comparáramos com o DRS (que está lá, mas em outra encarnação).

Se aumentarmos o nosso campo de análise, o FIA WEC também deu um passo neste sentido este ano ao não divulgar publicamente o Balanço de Performance (o famoso BoP). Isso deixou a imprensa especializada e parte do público no escuro, com as entidades dizendo que “estes dados confundem mais do que explicam”. Porém, temos tido um campeonato bem disputado e o recado dado por FIA e ACO é: “Pra que vocês querem saber de BoP? As corridas não estão boas?”

A F1 segue um caminho semelhante ao não colocar dados de telemetria na transmissão. Foquem na pista e não se prendam em parte técnica, este é o recado. É complicado explicar clipping para o grande público, por exemplo. Soa como um movimento orquestrado para simplificar as coisas. É válido, mas não de qualquer jeito. Ora, não se consegue desviar a atenção o tempo todo. Até porque, chega uma hora que as perguntas corretas começam a ser feitas.

Afinal de contas, como já decretou o filósofo contemporâneo recifense Rafael Câmara, ninguém é besta.

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