Por que os piltos não podem correr de graça?

por Gildo Pires

Existe uma frase repetida há décadas nos paddocks do mundo inteiro que poucas pessoas se atrevem a questionar: “pilotos sempre pagaram para correr”. A afirmação é verdadeira. Mas ela também é perigosamente incompleta.

Pilotos pagam para correr desde os primórdios do automobilismo. Famílias venderam propriedades para financiar carreiras, empresários investiram fortunas nos sonhos dos filhos, patrocinadores foram conquistados muito antes da primeira vitória e até alguns dos maiores campeões da história precisaram levar dinheiro para garantir uma oportunidade no início de suas trajetórias. Nada disso constitui novidade.

A pergunta que talvez poucos estejam fazendo é outra: isso significa que deva continuar sendo assim? Ou, mais do que isso: é economicamente saudável para o automobilismo que pilotos corram de graça? A resposta provavelmente desagradará muita gente.

Não.

Existe um enorme equívoco conceitual quando se discute a relação financeira entre pilotos, equipes e categorias. O piloto costuma ser tratado como um cliente da equipe quando, na realidade, ele também é um dos principais ativos econômicos do espetáculo. Sem pilotos não existem corridas, não existem patrocinadores, nem direitos de transmissão e também não existem ingressos vendidos nem torcedores apaixonados.

Parece uma constatação óbvia, mas ela produz uma reflexão desconfortável. Se todos ganham dinheiro em torno do automobilismo, por que justamente aquele que assume os maiores riscos esportivos, físicos, psicológicos e profissionais deve ser tratado como a única peça obrigada a financiar o próprio negócio?

Em praticamente nenhuma outra indústria do entretenimento esse raciocínio seria considerado razoável.

Não esperamos que um ator pague ao estúdio para participar de um filme de sucesso. Não consideramos natural que um jornalista compre espaço em uma redação para trabalhar. Um jogador de futebol pode custar centenas de milhões de euros justamente porque se reconhece o valor econômico do seu talento.

No automobilismo, entretanto, naturalizamos um modelo no qual um jovem de 14 anos pode precisar investir milhões de reais antes mesmo de descobrir se possui condições técnicas para chegar ao topo do esporte.

Talvez tenhamos normalizado aquilo que deveria ser considerado uma exceção.

Existe ainda outro aspecto raramente discutido. Quando afirmamos que “pilotos sempre pagaram para correr”, estamos simplificando excessivamente uma realidade muito mais complexa. Grandes campeões também foram investimentos esportivos. Equipes apostaram em talentos desconhecidos, fabricantes financiaram programas de desenvolvimento e patrocinadores compreenderam que investir em um piloto era também investir no futuro do esporte.

A história do automobilismo está repleta desses exemplos.

O problema surge quando deixamos de falar em investimento e passamos a falar exclusivamente em capacidade financeira.

São conceitos completamente diferentes.

Um piloto que chega acompanhado por patrocinadores representa um ativo comercial legítimo. Um fabricante que investe em jovens talentos também realiza uma escolha estratégica perfeitamente compreensível. Uma categoria que desenvolve programas de bolsas esportivas contribui para democratizar oportunidades.

Nada disso deveria ser objeto de crítica.

O problema aparece quando o dinheiro deixa de ser um diferencial competitivo para transformar-se no principal critério de seleção.

Nesse momento, o esporte começa silenciosamente a produzir uma distorção extremamente perigosa. Ele deixa de procurar os melhores pilotos disponíveis para procurar aqueles que conseguem pagar a conta.

Não estamos falando apenas de justiça esportiva. Estamos falando de inteligência econômica.

Quantos campeões o automobilismo mundial deixou pelo caminho simplesmente porque não nasceram na família certa? Quantos talentos jamais chegaram aos grandes campeonatos porque perderam espaço para orçamentos maiores? Quantas equipes passaram a selecionar patrocinadores em vez de selecionar pilotos?

Não existem respostas definitivas para essas perguntas. Mas talvez o fato de elas existirem já seja suficientemente preocupante.

Existe ainda uma consequência pouco discutida dessa lógica financeira. Quando um piloto passa a ser tratado primordialmente como cliente, estabelece-se uma relação comercial muito diferente daquela existente entre um atleta e sua equipe. Em determinados ambientes, a pressão pela performance passa a dividir espaço com a pressão pela manutenção do orçamento. O talento continua sendo importante, mas já não é suficiente.

O resultado é conhecido por todos os envolvidos com o esporte. As categorias de base tornaram-se extraordinariamente caras, o número de famílias capazes de sustentar uma carreira internacional permanece extremamente restrito e o automobilismo continua sendo um dos esportes menos acessíveis do planeta.

Naturalmente, existe o outro lado dessa discussão.

Equipes também não podem correr de graça.

Construir um carro, transportar equipamentos, contratar profissionais altamente especializados, desenvolver tecnologia e participar de um campeonato internacional custa milhões de dólares. O dinheiro precisa vir de algum lugar. Em inúmeras situações, a participação financeira do piloto tornou-se simplesmente uma questão de sobrevivência econômica.

Seria intelectualmente desonesto ignorar essa realidade.

Talvez seja justamente por isso que o debate precise amadurecer. A questão não deveria ser se pilotos podem ou não trazer patrocinadores. Eles continuarão trazendo. A verdadeira discussão talvez seja outra: qual deve ser o peso do dinheiro diante do talento?

Existe uma diferença enorme entre um piloto contribuir economicamente para viabilizar um projeto esportivo e ser obrigado a comprar sua oportunidade no esporte.

São situações completamente distintas.

O automobilismo moderno tornou-se sofisticado demais para aceitar respostas simplistas. Dizer que pilotos jamais deveriam investir em suas carreiras é tão equivocado quanto afirmar que dinheiro deve ser o principal critério de seleção. Os extremos raramente produzem os melhores resultados.

Talvez o caminho mais inteligente seja compreender que pilotos não representam apenas uma fonte de receitas para equipes e categorias. São também patrimônio esportivo do próprio automobilismo. O talento continua sendo seu principal combustível.

Quando um esporte passa a selecionar prioritariamente aqueles que conseguem pagar para participar, ele corre o risco de tornar-se economicamente mais confortável no curto prazo e esportivamente mais pobre no longo prazo.

No fim, talvez a pergunta deste texto esteja errada.

A questão não é por que pilotos não podem correr de graça.

A verdadeira pergunta talvez seja outra: quanto custa para o automobilismo perder os pilotos que jamais tiveram a oportunidade de mostrar do que seriam capazes?

Essa conta, infelizmente, ninguém consegue calcular.

Imagem de Fernanda Freixosa, https://motorsport.uol.com.br/stockcar-br/news/bastidores-saiba-como-vencedores-da-corrida-do-milhao-usaram-o-dinheiro-do-premio/4516273/

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