Aston Martin DBX707: o SUV que não deveria existir — e talvez por isso seja tão extraordinário

por Plinio Calenzo

Ao longo da história da indústria automobilística, alguns modelos foram criados para conquistar novos mercados. Outros surgiram para atender mudanças de comportamento dos consumidores. E existe uma terceira categoria, muito mais rara, formada por automóveis que carregam sobre os ombros o futuro de uma marca inteira. O Aston Martin DBX707 pertence exatamente a esse grupo.

Para compreender a importância deste veículo, é preciso voltar alguns anos no tempo. Durante décadas, a Aston Martin construiu alguns dos automóveis mais desejados do planeta. O nome da marca tornou-se sinônimo de elegância britânica, desempenho refinado e exclusividade. Modelos como DB4, DB5, V8 Vantage, Vanquish e DBS ajudaram a criar uma aura que poucas fabricantes conseguiram alcançar. Ao mesmo tempo, a empresa acumulou dificuldades financeiras, mudanças de controle e uma luta quase permanente pela sobrevivência. Poucas marcas foram tão admiradas e, ao mesmo tempo, tão vulneráveis.

Enquanto isso, o mercado mudava diante de seus olhos. Os consumidores migravam para SUVs em uma velocidade que poucos previram. A Porsche percebeu isso antes de todos com o Cayenne. O resultado foi tão expressivo que transformou completamente a saúde financeira da empresa. Mais tarde vieram Bentley Bentayga, Lamborghini Urus, Rolls-Royce Cullinan e, mais recentemente, o Ferrari Purosangue. O segmento deixou de ser uma tendência para se tornar uma necessidade estratégica.

Quando a Aston Martin decidiu entrar nesse mercado, ela não estava simplesmente desenvolvendo um novo produto. Estava apostando seu futuro. O sucesso do DBX significaria recursos para financiar o desenvolvimento de novos esportivos, novas tecnologias e a continuidade de uma das marcas mais tradicionais do planeta. O fracasso, por outro lado, teria consequências difíceis de calcular.

Talvez por isso o DBX707 seja um automóvel tão fascinante. Ele carrega uma responsabilidade enorme e, ao mesmo tempo, precisa cumprir uma missão extremamente complicada: ser um SUV capaz de preservar a identidade de uma marca construída sobre coupés esportivos de motor dianteiro.

Passei alguns dias ao volante do DBX707 percorrendo estradas que combinam exatamente os cenários necessários para entender um automóvel dessa categoria. Trânsito urbano, vias expressas, trechos sinuosos e longas viagens permitiram observar não apenas seus números, mas principalmente sua personalidade. E foi justamente aí que surgiu a primeira surpresa.

O DBX707 não se comporta como um SUV de alta performance tradicional. Na verdade, em muitos momentos ele sequer parece um SUV.

A impressão começa antes mesmo de ligar o motor. Existe uma elegância natural em suas proporções. Enquanto alguns concorrentes optam por uma estética agressiva e quase caricata, o Aston Martin segue um caminho diferente. O longo capô, a linha de cintura elevada, a traseira musculosa e a maneira como a carroceria parece abraçar as rodas criam uma presença que transmite força sem recorrer a exageros. Ele não tenta intimidar. Não precisa.

Ao entrar na cabine, a sensação é semelhante. Os materiais estão entre os melhores que já encontrei em um veículo dessa categoria. Couro, alumínio, fibra de carbono e acabamento artesanal convivem de maneira harmoniosa. Mas o aspecto que mais me chamou atenção foi a posição de condução. Apesar da altura típica de um SUV, existe algo extremamente familiar para quem já dirigiu outros Aston Martin. O motorista continua sendo o centro das atenções.

Foi apenas quando encontrei as primeiras curvas rápidas que comecei a entender a verdadeira dimensão do trabalho realizado pelos engenheiros da marca.

Todo motorista experiente sabe que a física é uma adversária implacável. Não importa quanto dinheiro seja investido em um projeto. Não importa quantos sistemas eletrônicos estejam disponíveis. Um veículo de mais de 2,2 toneladas continuará sendo um veículo de mais de 2,2 toneladas. Pelo menos em teoria.

Na prática, o DBX707 parece determinado a desafiar essa lógica.

A primeira curva percorrida em ritmo mais elevado provoca uma sensação quase estranha. Seu cérebro espera uma determinada quantidade de inclinação da carroceria. Espera perceber claramente a transferência de peso. Espera sentir a massa do veículo tentando seguir em frente. Mas nada acontece da forma prevista. O carro muda de direção com uma rapidez impressionante e, principalmente, com uma naturalidade que não deveria existir em um utilitário esportivo desse porte.

Grande parte desse comportamento é resultado de um trabalho extremamente sofisticado realizado na suspensão. O sistema pneumático adaptativo, combinado com controle eletrônico de rolagem e amortecedores continuamente ajustáveis, consegue manter a carroceria sob controle mesmo quando o ritmo aumenta significativamente. O mais impressionante é que esse controle não vem acompanhado da rigidez excessiva que muitos fabricantes utilizam para mascarar peso. O DBX707 continua confortável, refinado e silencioso mesmo em longas viagens.

Esse equilíbrio é muito mais difícil de alcançar do que parece.

Ao longo dos anos tive a oportunidade de dirigir praticamente todas as referências desse segmento. O Lamborghini Urus impressiona pela agressividade. O Porsche Cayenne Turbo GT impressiona pela eficiência. O Ferrari Purosangue impressiona pela originalidade de conceito. O Aston Martin impressiona por outra razão: ele consegue reunir características de todos eles sem perder sua própria identidade.

A direção talvez seja o melhor exemplo disso.

Depois de décadas dirigindo carros esportivos, aprendi que a direção é o local onde uma marca revela sua verdadeira personalidade. Motores podem ser compartilhados. Plataformas podem ser compartilhadas. Sistemas eletrônicos podem ser adquiridos de fornecedores externos. A maneira como um volante conversa com o motorista não pode ser copiada.

O DBX707 possui uma direção extraordinariamente bem calibrada. Existe peso suficiente para transmitir confiança, mas sem qualquer artificialidade. Mais importante ainda, existe comunicação. O volante transmite informações sobre aderência, carga e comportamento do eixo dianteiro com uma clareza cada vez mais rara na indústria. Em poucos quilômetros você passa a confiar no carro. E confiança é o que permite explorar desempenho de verdade.

Sob o capô está outro dos grandes protagonistas desta história. O V8 biturbo de quatro litros produz 707 cv e 900 Nm de torque. São números impressionantes, mas que contam apenas parte da história. Depois de algumas horas ao volante, fica claro que o verdadeiro destaque não está na potência máxima, mas na forma como o motor entrega desempenho.

Os 900 Nm de torque transformam qualquer retomada em um exercício de física aplicada. Em velocidades intermediárias, basta um leve movimento do pé direito para que o horizonte pareça se aproximar rapidamente. Não existe atraso. Não existe hesitação. Existe apenas uma reserva aparentemente infinita de força disponível.

O mais interessante é que toda essa potência é entregue com refinamento. O motor não parece nervoso. Não parece temperamental. Ele transmite uma sensação de autoridade mecânica. Como se estivesse sempre trabalhando muito abaixo de sua capacidade real.

A transmissão automática de nove velocidades merece parte do crédito. Diferentemente de soluções convencionais com conversor de torque, a Aston Martin optou por um sistema de embreagem úmida capaz de proporcionar respostas mais rápidas e diretas. O resultado é uma conexão muito mais próxima entre acelerador, motor e rodas.

Durante uma viagem longa, outro aspecto começou a ficar evidente. O DBX707 não é apenas um SUV extremamente rápido. Ele é um legítimo grand tourer. Essa talvez seja sua maior qualidade.

Muitos veículos dessa categoria conseguem impressionar durante alguns quilômetros. Poucos mantêm o mesmo nível de excelência após horas de condução. O Aston Martin consegue. Os bancos permanecem confortáveis. O isolamento acústico é excelente. A suspensão continua absorvendo imperfeições sem comprometer o controle da carroceria. Existe uma sensação constante de refinamento que acompanha o motorista em qualquer situação.

E talvez seja justamente isso que o diferencia dos concorrentes.

O Urus é mais teatral.

O Purosangue é mais exótico.

O Cayenne Turbo GT é mais clínico.

O DBX707 é mais completo.

Ele consegue ser extremamente rápido sem se tornar cansativo. Consegue ser extremamente luxuoso sem se tornar distante. Consegue ser extremamente refinado sem abrir mão da emoção.

Ao final da avaliação, fiquei pensando em quantos desafios precisaram ser superados para que esse carro existisse. A Aston Martin precisava de um SUV. Precisava de vendas. Precisava de rentabilidade. Precisava garantir seu futuro. O caminho mais fácil teria sido produzir um utilitário esportivo competente e aproveitar a força da marca para vendê-lo.

Mas os engenheiros decidiram seguir um caminho muito mais difícil.

Decidiram construir um Aston Martin de verdade.

E conseguiram.

Dados Técnicos

Motor V8 4.0 biturbo
Potência: 707 cv
Torque: 900 Nm
Transmissão automática de nove velocidades com embreagem úmida
Tração integral permanente
0 a 100 km/h: 3,3 segundos
Velocidade máxima: 310 km/h
Peso aproximado: 2.245 kg

Veredicto

O DBX707 não é apenas o SUV mais importante já produzido pela Aston Martin. É provavelmente o automóvel mais importante da história moderna da marca. Seu sucesso garantiu recursos para o desenvolvimento de novos modelos, fortaleceu a posição da empresa em um mercado extremamente competitivo e demonstrou que era possível entrar em um segmento dominado por gigantes sem abrir mão da própria identidade.

Mais importante do que isso, porém, é o fato de que ele continua sendo um Aston Martin legítimo. Um carro que valoriza o motorista, privilegia a experiência de condução e oferece um equilíbrio raro entre desempenho, refinamento e emoção. Em uma época em que muitos SUVs de alta performance parecem apenas exercícios de engenharia, o DBX707 continua parecendo um automóvel criado por pessoas apaixonadas por dirigir.

E talvez esse seja o maior elogio que um Aston Martin possa receber.

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