
A Freedom 250 não foi apenas uma corrida realizada diante do Capitólio. Foi uma operação política cuidadosamente construída para apresentar Donald Trump como o homem capaz de remover obstáculos, mobilizar o Estado e transformar os símbolos nacionais em cenário para uma celebração com sua assinatura.
Durante aproximadamente 20 anos, segundo a versão apresentada por Donald Trump, Roger Penske tentou levar uma corrida da IndyCar para Washington. Quando os dois se encontraram para tratar do assunto, o presidente afirmou que tudo foi resolvido em cerca de 15 minutos.
Evidentemente, não foi tão simples. Foram necessários meses de planejamento, 1.350 páginas de licenças e autorizações, mudanças no traçado, negociações com diferentes administrações públicas e uma operação de segurança envolvendo algumas das instituições mais poderosas dos Estados Unidos. Entretanto, a frase de Trump resume perfeitamente a narrativa política que a Freedom 250 deveria produzir: aquilo que a burocracia não conseguiu fazer durante duas décadas, ele teria tornado possível em poucos minutos.
O projeto esteve realmente perto de morrer. A proposta original imaginava os carros contornando o Capitólio, mas o percurso dependeria da aprovação do Congresso, e os organizadores não conseguiram reunir o apoio necessário. Bud Denker, presidente da Penske Corporation e responsável pela organização, disse que em 21 de janeiro a corrida estava “na UTI” e, nove dias depois, Trump assinou uma ordem executiva determinando que os órgãos federais cooperassem para viabilizar o evento.
O circuito foi então redesenhado para evitar os terrenos administrados pelo Congresso e ocupar as avenidas ao redor do National Mall. A ordem presidencial não eliminou as exigências legais tanto que a organização precisou enfrentar uma montanha de documentos, mas mudou completamente o peso político do projeto. Um evento que buscava autorização passou a contar com o apoio explícito do chefe do Executivo.
A Freedom 250 nasceu, portanto, como uma demonstração da capacidade presidencial de fazer acontecer. Essa era uma imagem especialmente valiosa para Trump: a de um governante que não pede passagem, mas abre caminho; que não se curva à burocracia, mas a coloca em movimento; e que transforma uma ideia aparentemente impossível em um espetáculo mundial.
A corrida também integrou uma disputa maior sobre quem teria o direito de contar a história dos 250 anos da independência norte-americana. A comissão bipartidária America250 havia sido criada pelo Congresso uma década antes, enquanto a Freedom 250 surgiu posteriormente, alinhada à Casa Branca e aos aliados de Trump. Os dois grupos passaram a disputar atenção, patrocinadores, recursos e, principalmente, o controle da narrativa nacional.
De um lado, projetos educacionais, ações de voluntariado e programas históricos. Do outro, grandes eventos televisivos: o UFC nos jardins da Casa Branca, uma feira nacional no National Mall e uma corrida da IndyCar diante do Capitólio. Segundo o Wall Street Journal, a Freedom 250 recebeu US$ 22 milhões em recursos federais para seu conjunto de iniciativas, embora a Penske sustente que não recebeu dinheiro dessa comissão para pagar a estrutura específica da corrida.
Essa distinção é importante. A Penske Corporation declarou ter arcado com a maior parte do custo da etapa, estimado em aproximadamente US$ 35 milhões. Contudo, uma corrida gratuita não significa uma corrida sem dinheiro público. Polícia, bombeiros, controle do trânsito, emergência, proteção presidencial, segurança de autoridades e diferentes operações governamentais permaneceram, ao menos parcialmente, sob responsabilidade do Estado e do Distrito de Colúmbia. A conta pública consolidada ainda não foi apresentada.
A contrapartida defendida pelos organizadores foi uma projeção entre US$ 100 milhões e US$ 200 milhões em atividade econômica. Para Trump, é uma promessa politicamente poderosa: empresas privadas financiariam o espetáculo, o público teria acesso gratuito e Washington receberia turistas, consumo e exposição internacional.
Mas projeção não é resultado auditado. Alguns hotéis, restaurantes e estabelecimentos receberam novos clientes; outros comerciantes, localizados dentro das áreas bloqueadas, relataram redução do movimento, dificuldades para receber produtos e obstáculos para que seus funcionários chegassem ao trabalho. Segundo o Departamento de Polícia de Washignton, as interdições começaram, em alguns pontos, no dia 20 de julho e se estenderiam até 3 de setembro, uma interferência muito maior do que os dois dias de corrida percebidos pelas imagens da NBC Washington.
O aparato presidencial tornou a corrida ainda mais complexa. O Aeroporto Nacional Reagan suspendeu operações durante três horas. Houve sobrevoos militares, restrições no espaço aéreo, deslocamento da limusine presidencial e a presença de algumas das autoridades mais protegidas do país. Museus avaliaram os efeitos das vibrações sobre prédios e obras de arte, enquanto preservacionistas manifestaram preocupação com murais históricos em edifícios federais próximos ao traçado.
Nada disso impediu o evento. Pelo contrário: cada obstáculo superado reforçou a mensagem de força administrativa que a Casa Branca desejava transmitir.
Trump não compareceu simplesmente como convidado. Ele percorreu o circuito na limusine presidencial ao lado de Melania, encontrou os pilotos, ocupou o espaço principal da transmissão e agitou a bandeira verde. Roger Penske e Dana White apareceram no camarote presidencial e houve banda militar, execução solene do hino, sobrevoos e uma águia no pódio. A arquitetura simbólica dos Estados Unidos foi envolvida por uma cerimônia concebida para associar velocidade, força militar, poder industrial e patriotismo.
A reação dos meios de comunicação expôs o tamanho da divisão. Veículos conservadores enxergaram orgulho nacional, capacidade de realização e uma celebração aberta à população; .o New York Post destacou o caráter patriótico e a emoção produzida pela vitória de Kyle Kirkwood. Já o britânico The Guardian interpretou a corrida como parte da ocupação simbólica de Washington pela estética política de Trump.
O Daily Beast concentrou-se nos problemas enfrentados pelo público: calor, longas filas para água, dificuldades de circulação, falta de lugares e demora para deixar a região e também publicou acusações de que peças promocionais divulgadas pela Casa Branca imitavam materiais de Daytona, Singapura e até do antigo GP de Mônaco. Não existe demonstração pública de plágio deliberado, mas a controvérsia ampliou a percepção de que a comunicação oficial estava mais interessada em produzir impacto do que em preservar qualquer aparência de neutralidade institucional.
Enquanto isso, a maneira entusiasmada com que Trump movimentou a bandeira verde tornou-se conteúdo viral em diferentes países. Seus apoiadores enxergaram espontaneidade e os críticos produziram comparações e montagens humorísticas. Em ambos os casos, o presidente permaneceu no centro da conversação.
Esse talvez tenha sido o maior ganho político da Freedom 250. Trump conseguiu transformar um evento pertencente ao calendário oficial da IndyCar em mais um capítulo de sua própria narrativa presidencial. Mesmo quem assistiu para criticá-lo precisou observar a corrida por meio das imagens que ele ajudou a construir.
Existe, porém, um risco. Quando os monumentos nacionais, a estrutura federal e as comemorações da independência são excessivamente identificados com um governante, aquilo que deveria representar a unidade do país pode passar a ser percebido como manifestação de um único campo político. Para os apoiadores, Trump entregou o impossível e para os adversários, apropriou-se do espaço público e da história nacional para produzir uma demonstração pessoal de poder.
Também ficou exposta a convivência entre discurso popular e privilégio corporativo. A organização recebeu 288 mil solicitações de entradas gratuitas para aproximadamente 150 mil vagas anunciadas, enquanto o Champions Club cobrava US$ 5 mil por pessoa e algumas suítes alcançavam cerca de US$ 200 mil. Uma entidade de desenvolvimento econômico de Indiana contratou por aproximadamente US$ 250 mil uma suíte para 40 pessoas, destinada a receber o governador e seus convidados.
O público ocupava o National Mall; o poder político e empresarial encontrava-se nas suítes.
Para Trump, entretanto, essa aproximação não é uma contradição, mas parte de sua concepção de governo: o espetáculo popular financiado e legitimado pela presença das grandes corporações. Segundo a Reuters, Boeing, Starlink, Delta, United Airlines, General Motors, Honda, Amazon Web Services, Shell, Gulfstream, Verizon e outras empresas encontraram em Washington não apenas visibilidade, mas proximidade com parlamentares, integrantes do governo e autoridades reguladoras.
A Freedom 250 foi, assim, muito mais do que uma prova automobilística apoiada pela Casa Branca. Foi uma demonstração sobre como Trump compreende o poder: grandioso, visual, emocional, televisionado e permanentemente associado à sua pessoa.
O presidente ganhou uma imagem de eficiência e força e o governo assumiu custos, responsabilidades e questionamentos que ainda precisarão ser esclarecidos.
Washington recebeu turistas e investimentos, mas também semanas de interdições e transtornos.