Toyota Supra: enfrentando o próprio passado

por Plinio Calenzo

Poucos nomes carregam um peso tão grande na indústria automobilística quanto Supra. Existem carros que se tornam bem-sucedidos, outros que conquistam uma legião de admiradores e alguns que ultrapassam a condição de produto para se transformar em parte da cultura popular. O Toyota Supra pertence a esse grupo extremamente restrito. Sua história não foi construída apenas em autódromos ou concessionárias. Ela ganhou vida em oficinas, encontros de carros, videogames, filmes e, principalmente, na imaginação de uma geração inteira que cresceu sonhando com o cupê japonês de seis cilindros capaz de suportar preparações que ultrapassavam facilmente os mil cavalos de potência.

Quando a Toyota decidiu trazer o Supra de volta depois de quase duas décadas de ausência, sabia que enfrentaria um desafio incomum. Não bastava construir um esportivo competente. Era necessário criar um automóvel capaz de dialogar com um dos maiores mitos da cultura automotiva moderna. O problema era que o mundo havia mudado. As exigências ambientais eram outras, o mercado de esportivos havia encolhido e desenvolver um carro desse porte sozinho significaria um investimento difícil de justificar.

A solução encontrada foi estabelecer uma parceria com a BMW. O resultado foi um projeto compartilhado com o Z4, utilizando a mesma plataforma, o mesmo conjunto mecânico e boa parte da arquitetura eletrônica alemã. Antes mesmo de o carro chegar às ruas, surgiram críticas de todos os lados. Para muitos entusiastas, o novo Supra havia perdido parte de sua identidade por carregar tanta tecnologia alemã.

Era uma discussão inevitável.

Mas ela escondia uma pergunta muito mais importante: depois de desligar o computador e sentar atrás do volante, o novo Supra ainda conseguiria transmitir a essência que sempre definiu esse nome?

A resposta começa pelo desenho.

Ao contrário da tendência atual de criar esportivos com linhas excessivamente limpas, a Toyota optou por uma carroceria cheia de volumes, curvas e superfícies musculosas. O longo capô faz referência direta às gerações clássicas, enquanto a cabine posicionada quase sobre o eixo traseiro reforça a distribuição de massas típica dos grandes esportivos de motor dianteiro e tração traseira. Não é um carro discreto. Também não tenta ser. O Supra chama atenção pela maneira como parece concentrar toda sua energia entre os para-lamas, transmitindo a impressão de estar permanentemente comprimido contra o solo.

Ao entrar na cabine, porém, a influência da BMW torna-se evidente. Muitos comandos, telas, interruptores e até o sistema multimídia são familiares para quem conhece os modelos da marca alemã. Em outro contexto isso poderia representar uma perda de personalidade. Na prática, significa ergonomia excelente, materiais de qualidade e uma posição de dirigir extremamente bem resolvida. O motorista fica sentado muito próximo ao centro de gravidade do carro, com o volante na altura correta, os pedais perfeitamente alinhados e uma sensação imediata de integração com o conjunto.

É um ambiente que não busca impressionar pelo luxo, mas pela funcionalidade.

O motor seis cilindros em linha de três litros turboalimentado talvez seja o maior responsável por encerrar rapidamente qualquer discussão sobre a origem do projeto. Independentemente do logotipo estampado na tampa do motor, trata-se de um dos melhores seis cilindros produzidos atualmente. Ele reúne suavidade, elasticidade, enorme disponibilidade de torque e uma disposição admirável para ganhar rotações. Não possui o caráter explosivo dos antigos motores japoneses preparados para grandes pressões de turbo, mas entrega desempenho de maneira muito mais refinada e consistente.

É na estrada que essa mecânica revela toda sua personalidade.

Desde os primeiros quilômetros, fica claro que o Supra não foi desenvolvido para impressionar apenas em números de aceleração. A direção é rápida, direta e transmite segurança sem exagerar no peso artificial que alguns fabricantes utilizam para criar falsa esportividade. O carro muda de direção com enorme rapidez, favorecido pela distância curta entre eixos e pela distribuição de peso praticamente equilibrada. Em curvas de média velocidade, a frente aponta exatamente para onde o motorista deseja, enquanto a traseira acompanha com estabilidade exemplar.

O diferencial ativo trabalha de forma quase imperceptível, distribuindo torque entre as rodas traseiras para maximizar tração na saída das curvas. O resultado é um esportivo que transmite confiança desde os primeiros quilômetros, mas que também recompensa quem decide explorar seus limites com mais profundidade.

Existe uma característica particularmente interessante no Supra moderno.

Ao contrário de alguns esportivos contemporâneos que parecem ter sido calibrados para registrar tempos impressionantes em circuitos, ele preserva uma certa espontaneidade. A carroceria comunica claramente as transferências de peso, a suspensão permite sentir o asfalto sem comprometer o conforto e o conjunto mecânico responde aos comandos de forma previsível. É um automóvel que conversa com o motorista durante toda a condução.

Essa comunicação talvez explique por que o Supra conquistou tantos admiradores mesmo enfrentando um preconceito inicial tão grande. Depois que as discussões sobre sua origem diminuíram, restou aquilo que realmente importa em um esportivo: a experiência ao volante.

O câmbio automático de oito marchas merece destaque pela rapidez e pela inteligência com que interpreta a condução. Nas reduções, as trocas acontecem com precisão quase instantânea. Nas acelerações mais fortes, o motor permanece sempre na faixa ideal de torque, permitindo retomadas vigorosas em praticamente qualquer velocidade. Para quem prefere uma participação ainda maior na condução, a Toyota também disponibilizou uma versão equipada com transmissão manual de seis marchas, decisão que agradou profundamente aos puristas e reforçou o compromisso da marca com a experiência de dirigir.

Outro mérito do Supra está em sua capacidade de equilibrar desempenho e utilização cotidiana. Diferentemente de muitos esportivos de alto nível, ele não exige concessões constantes do proprietário. A suspensão absorve bem as irregularidades, a visibilidade é melhor do que a aparência sugere e o conjunto mecânico apresenta um refinamento que permite longas viagens sem desgaste físico ou mental. Essa versatilidade sempre fez parte da história do Supra e continua presente na geração atual.

Há, naturalmente, quem jamais aceite a parceria com a BMW como parte legítima dessa trajetória. Mas reduzir o Supra moderno à origem de sua plataforma significa ignorar aquilo que realmente define um automóvel. Carros não são apenas a soma de peças compartilhadas. São o resultado da forma como essas peças são calibradas, integradas e transformadas em personalidade.

Foi exatamente isso que a Toyota fez.

O novo Supra não tenta reproduzir artificialmente o A80, nem viver apenas da nostalgia. Ele compreende o peso de seu passado, mas escolhe construir uma identidade própria, adequada às exigências técnicas e comerciais do século XXI. Essa talvez tenha sido a decisão mais inteligente possível.

Porque lendas não sobrevivem sendo copiadas.

Sobrevivem quando conseguem evoluir sem esquecer de onde vieram.

Dados técnicos

  • Motor: seis cilindros em linha, 3.0 litros, turboalimentado
  • Potência: 387 cv
  • Torque: 51 kgfm
  • Transmissão: automática de oito marchas ou manual de seis marchas
  • Tração: traseira
  • 0 a 100 km/h: aproximadamente 4,1 segundos
  • Velocidade máxima: 250 km/h, limitada eletronicamente
  • Peso: cerca de 1.540 kg
  • Distribuição de peso: próxima de 50:50
  • Suspensão: independente nas quatro rodas, com amortecimento adaptativo
  • Freios: discos ventilados nas quatro rodas

Veredicto

O Toyota Supra renasceu cercado por expectativas quase impossíveis de atender. Carregava um nome lendário, uma herança cultuada por milhões de apaixonados e, ao mesmo tempo, precisava existir em um mercado completamente diferente daquele que consagrou seus antecessores.

A parceria com a BMW continuará dividindo opiniões por muitos anos, mas ela não diminui aquilo que realmente importa. O Supra moderno é um esportivo extremamente competente, equilibrado, rápido e prazeroso de conduzir. Mais do que isso, ele preserva uma característica que sempre esteve presente nas melhores gerações do modelo: a capacidade de fazer o motorista procurar uma estrada mais longa, uma curva a mais e um motivo qualquer para continuar dirigindo.

No fim, talvez essa seja a melhor definição possível para um Supra. Não um carro feito para impressionar apenas na ficha técnica, mas uma máquina construída para lembrar que, antes de qualquer número, dirigir ainda pode ser um enorme prazer.

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