As conversas seguem entre Geely e Alpine, mas os detalhes impedem o anuncio
por Sergio Milani
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Um tema que se discute muito no mundo do Endurance é: Quem ficará com a Alpine? Depois da decisão da Renault de descontinuar o projeto, esta pergunta fica no ar. Após muita especulação, tudo indica que a Geely deve anunciar que assumirá a operação da Alpine no FIA WEC.
Nesta sexta, o portal The Stint traz um ótimo artigo sobre o tema. Quem acompanha as transmissões do FIA WEC no grupo Bandeirantes sabe que não é algo inesperado. Mesmo antes de Le Mans, esta informação já estava na mesa, mesmo com a notícia de que uma outra marca chinesa, a BYD, estava interessada em aproveitar a oportunidade.
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A decisão da Renault de terminar com o projeto causou muita surpresa. Afinal de contas, desde o início o A424 se mostrou competitivo e a operação tocada pela Sigmatech mostrava seu valor. Não à toa que a Alpine ganhou a corrida 100 do FIA WEC, as 6 horas de Fuji, em 2025. Sem contar o investimento feito pela marca para impulsionar o desempenho.

Mas diante da situação da indústria automotiva europeia, a Renault agiu. Sob o comando de François Provost, que assumiu o lugar de Luca Di Meo em julho de 2025, as atividades esportivas seriam bem revisadas. Para alegria dos planilheiros, um novo plano estratégico foi desenvolvido, incluindo a Alpine.
O antecessor de Provost concebeu a Alpine como o braço esportivo da Renault e com uma visão 100% elétrica. Embora as vendas venham crescendo ano após ano, a unidade ainda patina financeiramente e a operação do FIA WEC foi sacrificada, bem como o investimento em outras áreas, como a Formula Regional Europeia. Estima-se que a marca francesa desembolsava entre US$ 50 a 70 milhões anuais neste campo.
A F1 não entrou neste campo pois a equipe teve uma enorme valorização nos últimos tempos, mesmo sem ter um desempenho brilhante. A Renault ainda tem 76% das ações do time e tem poder de veto sobre os 24% restantes (que estão à venda). Hoje, a operação da Alpine na F1 é estimada em US$ 3 bilhões e a exposição de marca teria o mesmo tamanho.
Diante destes números, era mais fácil reduzir outras despesas (até porque a equipe de F1 pode ser um ativo interessante mais à frente). Embora Philippe Sinault, dono da Sigmatech, tenha tentado rever a situação, perdeu um forte aliado internamente: Bruno Famin, que era o responsável pela área de competições da Alpine e entusiasta do projeto, foi assumir um posto no ACO. Restou ir à luta.
Uma série de possibilidades foram apresentadas e três ficaram mais fortes: um investimento liderado por empresários franceses, o da BYD e a Geely. A solução caseira foi descartada pois teria uma expectativa de vida até 2029 e não envolvia um ponto que é de interesse da Renault: a unidade de Viry-Chatillon (França).

Viry-Chatillon foi historicamente a base da área esportiva da Renault e onde foram desenvolvidos todos os motores da F1, desde o turbo ao híbrido. Com o passar do tempo, começou a abraçar uma série de atividades de desenvolvimento do grupo: para se ter ideia, o desenvolvimento do protótipo a hidrogênio, o Alpenglow, e do trem de força da Nissan na Fórmula E são feitos ali.
A decisão de não continuar o projeto da Unidade de Potência para o novo regulamento da F1 tirou um pouco da importância, embora a operação do time de Endurance foi transferida para Viry-Chatillon, incluindo a administração do motor, originalmente montado pela Mecachrome (baseado na unidade usada na F2). Isso detonou uma grande discussão, já que havia um acordo da Renault com o governo local para manter as atividades. Atualmente, as ações são menores, já que vários funcionários foram para outros locais, embora oficialmente tenha sido mantido um “núcleo de observação da F1” e a Renault definiu um corte de 20% na sua área de engenharia globalmente.
Em Le Mans, Sinault declarou que várias conversas estavam em curso, incluindo fabricantes. Para os chineses, seria um prato cheio: seria uma forma de mostrar sua tecnologia globalmente em competição, em um cenário maior mas a um custo bem menor do que a F1. Seria a reprise de um caminho feito pelos japoneses e agora recentemente os coreanos da Hyundai, através da Genesis.

As conversas com a BYD foram bem intensas, ainda mais que a marca esteve presente em Le Mans com um stand mostrando sua linha. Uma entrada no automobilismo no WEC e na F1 é lógica pela questão dos híbridos…mesmo ligada fortemente aos elétricos, mais da metade da sua produção em 2025 foi composta por veículos híbridos. Porém, havia uma outra marca chinesa na parada…
Geely: a força que chega
A Geely vem crescendo aos poucos no cenário mundial, embora tenha começado a montar automóveis em 1997. Além da marca principal, os chineses é proprietária de marcas como Volvo, Lynk&Co e Lotus. Também é dona da empresa que monta os táxis londrinos, é acionista da Aston Martin (atrás do Consórcio de Lawrence Stroll e o Fundo Soberano Saudita) e…é sócia da Renault.
Sim! Em 2024, Renault e Geely formaram uma joint venture chamada HORSE para desenvolvimento e fabricação de motores híbridos e a combustão para atendimento das demandas dos dois grupos. Posteriormente, a saudita Aramco comprou 10% das ações e desde o ano passado, a Geely tem uma participação na Renault brasileira e começará a fabricar seus carros na unidade dos franceses no Paraná até o final deste ano.
Ano passado, a Geely anunciou um acordo com o ACO (um dos organizadores do FIA WEC), visando a participação da empresa no FIA WEC, bem como a construção de um autódromo na China para receber provas de Endurance e a criação de uma marca chamada Exceed.
A assunção da operação da Alpine no FIA WEC pela Geely faz todo sentido. Uma empresa que quer entrar na categoria e uma outra querendo ficar. Tudo certo, correto?
Infelizmente, não.
O problema está nos detalhes
As coisas vem caminhando para um final feliz. Tanto que algumas fontes já davam como certo o anuncio oficial sendo feito em Austin, onde será a próxima etapa do FIA WEC, no dia 06 de setembro. Porém, os detalhes estão atrapalhando a conclusão…
O principal problema é a definição de que marca será usada para este projeto. Ano passado, os chineses anunciaram a criação de uma marca específica para o projeto de Endurance. Mas a Geely tem uma bela fieira de marcas sob seu controle, especialmente uma tão mítica como a Lotus, que já bateu ponto no FIA WEC entre 2012 e 2014.

A questão aqui nem é a parte de operação (que seguiria com a Sigmatech) e o marketing. Mas sim em relação ao carro. O Alpine A424 foi desenvolvido e construído pela ORECA. Tecnicamente, é um carro que está homologado para correr no FIA WEC até 2029. Com a troca de marca, teria que ser feita uma nova identidade do carro ou os chineses teriam que usar o A424 até 2029?
FIA e ACO já se mostraram compreensivos diante a situação. Mas a janela de homologação está se encerrando (vai até outubro) e implicaria em desenvolver uma nova identidade e realizar novos testes no único túnel de vento reconhecido por FIA, ACO e IMSA: Windshear, na Carolina do Norte (EUA). O cenário mais provável é que o A424 só mude de cor, mas siga ainda com a identidade francesa, só mudando efetivamente em 2028, já considerando o uso dos pacotes de evolução (evo jokers), que já foram aplicados 2 no A424.
Outro ponto que vem pesando é o uso de Viry-Chatillon. Inicialmente, a ideia seria transferir a unidade para a HORSE e assim atenderia às duas partes, já que a Renault deseja ainda mantê-la como uma “antena tecnológica”. Porém, por suas características, a unidade não estaria totalmente enquadrada no escopo da joint venture e a Renault quer resguardar a propriedade intelectual de seus projetos, já que atende a todo grupo.
Além disso, François Provost quer ainda obter mais vantagens financeiras, a despeito da Renault ter apresentado números positivos no primeiro semestre de 2026 (mesmo com a Nissan). Mesmo com as vendas em crescimento, a venda da Alpine não é algo descartado, mesmo com uma série de lançamentos previstos. Se estima que esta transação implicaria em um desembolso pelos chineses que poderia chegar na casa dos US$ 100 milhões.
Há ainda um ponto primordial: e os pilotos? Oficialmente, não se fala nada. Mas se comenta que o time deixou todos à vontade para ver seu futuro. Um que estaria com saída certa seria António Felix da Costa, que está sendo dado como certo na Jota no comando de um dos Cadillac. Victor Martins está sendo cogitado na Nissan pela Fórmula E. Ficando, faria uma jornada dupla? Mas os demais, não há uma perspectiva. Nem muito menos de quem poderia assumir lugar caso o time vá realmente para a pista
Se perguntar hoje, o negócio deve sair. Mas a janela para que 2027 não seja impactado está se fechando rapidamente. Para o FIA WEC, seria sensacional não perder mais um Hypercar e garantir a diversidade do grid. Sem contar o peso que significa a chegada de uma marca chinesa no cenário.
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