
Existe uma pergunta que acompanha silenciosamente o automobilismo há mais de um século e que, curiosamente, quase nunca é discutida em sua essência.
Por que um piloto deveria pagar inscrição?
A resposta costuma surgir imediatamente e parece tão óbvia que raramente é questionada: porque o automobilismo é caro. Porque autódromos precisam ser alugados, equipes precisam ser remuneradas, profissionais precisam trabalhar, seguros precisam ser contratados e categorias precisam sobreviver financeiramente. Tudo isso é verdade. Mas talvez não seja toda a verdade.
Durante décadas, aprendemos a olhar para essa discussão exclusivamente por meio de planilhas financeiras. Quanto custa um jogo de pneus? Quanto custa transportar um carro? Quanto custa alugar um autódromo? Quanto custa produzir uma transmissão? Pouco a pouco, transformamos uma discussão extraordinariamente humana em um simples problema econômico. E talvez seja justamente esse o nosso maior equívoco.
Um piloto não paga apenas uma inscrição.
Ele paga para continuar pertencendo.
A psicologia humana talvez seja muito mais eficiente para explicar essa realidade do que qualquer balanço financeiro. Um menino que ingressa no kart aos oito anos de idade dificilmente sonha em conquistar patrocinadores ou negociar contratos comerciais. Ele sonha em ser piloto. Com o passar do tempo, entretanto, passa a compreender que seu sonho possui um preço. Precisará ser rápido, estudar, construir relacionamentos profissionais, convencer patrocinadores, conquistar oportunidades e, quase sempre, investir continuamente em sua própria carreira.
Curiosamente, existe algo que quase nunca lhe é ensinado: seu talento também possui valor.
Observe a construção psicológica do automobilismo moderno. Desde muito cedo, pilotos aprendem que precisam pedir oportunidades, precisam convencer equipes a lhes oferecer um teste, patrocinadores a investirem em seus projetos e categorias a lhes abrirem as portas do próximo campeonato. Aprendem que precisam ser escolhidos e muito raramente são ensinados a compreender que também são responsáveis por produzir parte significativa do espetáculo que todos os demais envolvidos comercializam.
Talvez por isso exista uma enorme diferença entre duas frases aparentemente semelhantes.
A primeira delas diz: “Preciso conseguir dinheiro para continuar correndo”. A segunda afirma: “Preciso investir no desenvolvimento da minha carreira.”
As duas frases parecem significar exatamente a mesma coisa mas, psicologicamente, são absolutamente diferentes. Na primeira situação, o piloto enxerga-se apenas como consumidor de oportunidades. Na segunda, compreende-se também como um ativo esportivo em construção. Parece um detalhe semântico. Não é.
O automobilismo talvez seja um dos poucos espetáculos do planeta que consegue convencer seus protagonistas de que são exclusivamente clientes do próprio espetáculo que ajudam a construir. Um piloto leva consigo patrocinadores, relacionamentos profissionais, credibilidade esportiva, audiência, histórias, rivalidades e emoção. Ele não consome apenas o esporte. Também ajuda a produzi-lo.
Isso não significa, evidentemente, que pilotos não devam pagar inscrições. Equipes não podem trabalhar gratuitamente, promotores assumem riscos financeiros consideráveis, autódromos precisam ser mantidos durante os 365 dias do ano e categorias precisam sobreviver economicamente. Seria intelectualmente desonesto ignorar qualquer um desses fatos.
O problema talvez esteja em outro lugar.
Existe um interessante fenômeno estudado pela psicologia comportamental conhecido como sunk cost fallacy, ou falácia do custo irrecuperável. Em termos simplificados, trata-se da tendência humana de continuar investindo tempo, dinheiro e energia em alguma atividade justamente porque já investimos demais para abandoná-la. Quanto maior nosso investimento anterior, mais difícil torna-se desistir.
Talvez poucas atividades ilustrem tão bem esse fenômeno quanto o automobilismo.
Um piloto investe alguns milhares de reais em sua primeira temporada. Depois investe algumas dezenas de milhares. Mais tarde, centenas de milhares e alguns chegam aos milhões. Em determinado momento, abandonar uma carreira esportiva deixa de representar apenas uma decisão financeira. Passa a significar abrir mão de uma identidade construída ao longo de décadas.
O automobilismo deixa de ser apenas aquilo que ele faz. Passa a ser aquilo que ele é e talvez seja justamente por isso que a inscrição possui um significado muito maior do que aquele impresso em um boleto bancário. Ela representa mais um ano pertencendo ao esporte, mais uma oportunidade de continuar perseguindo um sonho e mais alguns quilômetros percorridos em direção a um objetivo que, muitas vezes, sequer possui uma linha de chegada perfeitamente definida.
Existe ainda outro aspecto pouco discutido nessa relação. Pilotos costumam ouvir durante toda sua formação que precisam conquistar oportunidades. Como já comentamos, raramente alguém lhes pergunta quanto vale o seu talento. E isso produz uma consequência psicológica extremamente interessante e, pouco a pouco, alguns passam a acreditar que devem agradecer simplesmente por estarem presentes. Outros, no extremo oposto, passam a acreditar que são o próprio espetáculo.
Nenhuma das duas posições parece correta.
Um piloto não é apenas cliente do automobilismo. Também não é o seu único protagonista. Sem equipes não existem carros, sem promotores não existem eventos. sem patrocinadores não existem recursos financeiros e sem autódromos não existem pistas. Mas sem pilotos também não existem corridas.
Então, talvez, todos estejam parcialmente certos. E parcialmente errados.
No fim, talvez a pergunta que dá título a este texto permaneça sem uma resposta definitiva. Um piloto pode pagar inscrição porque está investindo legitimamente em sua carreira, pode fazê-lo porque faz parte do modelo econômico daquela categoria ou porque acredita que aquela oportunidade jamais voltará a aparecer.
Mas talvez exista uma resposta ainda mais humana do que todas as anteriores: pilotos não pagam apenas para competir.
Pagam para continuar pertencendo.
Pagam para permanecer próximos daquilo que aprenderam a amar ainda quando eram crianças, para continuar escrevendo uma história que, muitas vezes, começou décadas antes da primeira vitória e que dificilmente termina quando a bandeira quadriculada é finalmente apresentada.
Por isso, talvez estejamos fazendo a pergunta errada há muito tempo.
A questão não é apenas por que um piloto deveria pagar inscrição. A verdadeira pergunta talvez seja muito mais desconfortável: quanto vale um sonho quando ele deixa de ser apenas um sonho e passa a ser parte daquilo que somos?
Essa é uma conta que dificilmente será encontrada em qualquer regulamento desportivo.
Talvez ela pertença muito mais à psicologia humana do que ao próprio automobilismo.
Imagem: Supercars Championship