Doug Boles: sempre aparece mas raramente deixa a responsabilidade parar em sua mesa

por Gildo Pires

Uma investigação sobre o presidente da IndyCar não encontrou escândalos pessoais comprovados, mas revelou concentração de poder, conflitos de interesse e um método sofisticado de conduzir crises sem permitir que elas atinjam o centro de sua própria autoridade.

Doug Boles não costuma desaparecer quando surge um problema. Ao contrário de dirigentes que se escondem atrás de comunicados, ele aparece, conversa com os jornalistas, circula entre os torcedores e demonstra compreender a gravidade do momento. Foi assim diante dos escândalos técnicos da Team Penske, voltou a ser assim em Markham e tem sido dessa maneira durante seus anos no Indianapolis Motor Speedway.

Essa presença ajudou a construir a reputação de um executivo acessível, apaixonado pelo automobilismo e próximo do público. Entretanto, também faz parte de uma habilidade profissional desenvolvida ao longo de décadas no Direito, no Jornalismo, no marketing, nas relações públicas e na administração esportiva.

Boles sabe que assumir o comando da comunicação não significa necessariamente assumir a responsabilidade pela crise. Muitas vezes, significa justamente determinar onde essa responsabilidade deverá parar.

Uma investigação sobre sua história profissional não encontrou processos, condenações ou evidências confiáveis de corrupção, fraude pessoal, assédio ou enriquecimento irregular. Não existem, até agora, “podres” pessoais comprovados que autorizem uma acusação dessa natureza. O que aparece é mais sutil e, institucionalmente, mais importante: Doug Boles ocupa o centro de uma estrutura cercada por conflitos de interesse e desenvolveu uma maneira muito eficiente de proteger a organização, reconhecer apenas aquilo que já não pode ser negado e direcionar o restante da culpa para a operação, o processo ou o parceiro contratual mais exposto.

Boles foi cofundador, coproprietário e diretor operacional da Panther Racing. Também trabalhou como advogado de pilotos, equipes e patrocinadores, passou por empresas de marketing e tornou-se diretor de comunicação do Indianapolis Motor Speedway. Em 2013, assumiu a presidência do autódromo. Em fevereiro de 2025, acumulou a função com a presidência da própria IndyCar.

Ele não é, portanto, um executivo que desconhece as sutilezas jurídicas de um contrato ou improvisa declarações diante das câmeras. É formado em Jornalismo e Direito, conhece o funcionamento das equipes e domina a comunicação corporativa. Cada palavra utilizada durante uma crise deve ser compreendida dentro dessa formação.

Seu maior desafio está na estrutura que aceitou comandar.

Roger Penske controla a IndyCar, o Indianapolis Motor Speedway, a Penske Entertainment e a Team Penske, uma das equipes mais poderosas do campeonato. Boles preside a categoria e seu principal autódromo, mas trabalha para o proprietário de uma equipe submetida às regras e à fiscalização dessa mesma categoria.

Essa concentração não comprova favorecimento, mas cria um conflito de interesse permanente. Qualquer punição aplicada à Team Penske, qualquer inspeção técnica e qualquer decisão esportiva capaz de atingir seus carros ocorre dentro de uma estrutura empresarial controlada pelo mesmo proprietário.

Os questionamentos começaram assim que Penske adquiriu a IndyCar e o Speedway, em 2019. Durante anos, concorrentes e observadores defenderam uma separação mais clara entre a propriedade comercial da categoria e seus organismos de arbitragem e fiscalização. A estrutura foi mantida até que dois escândalos consecutivos tornaram a situação difícil de sustentar.

Em 2024, a Team Penske foi descoberta utilizando irregularmente o push-to-pass. Josef Newgarden perdeu a vitória em St. Petersburg, Scott McLaughlin também foi desclassificado e Will Power recebeu punição. A equipe alegou que a possibilidade de utilizar o sistema fora das condições permitidas havia permanecido ativada depois de um teste.

No ano seguinte, já sob a presidência de Boles, os carros de Newgarden e Power apareceram com alterações não autorizadas nos atenuadores traseiros durante a classificação para as 500 Milhas de Indianapolis. Os dois foram enviados ao fim do grid, perderam pontos e posições nos boxes, enquanto cada inscrição recebeu multa de US$ 100 mil.

O caso ficou ainda mais grave quando surgiram imagens e indicações de que aquelas peças apresentavam o mesmo aspecto havia pelo menos um ano. Isso significava que a fiscalização técnica da IndyCar poderia ter examinado repetidamente os carros sem identificar a modificação.

Boles admitiu que a inspeção havia falhado. Disse que “absolutamente” aquilo representava um erro. O reconhecimento foi importante, mas veio acompanhado de uma justificativa: segundo ele, os atenuadores não produziriam ganho de velocidade e, diante do tempo limitado para verificar cada carro, os fiscais concentravam sua atenção nos componentes capazes de proporcionar vantagem competitiva.

A explicação não resolveu o problema. Apenas confirmou a existência de uma lacuna.

Se a modificação de um componente era proibida, ele deveria ser inspecionado independentemente da vantagem estimada. Além disso, o atenuador é uma estrutura destinada a absorver energia em impactos traseiros. A IndyCar não havia deixado de conferir um detalhe decorativo, mas uma peça relacionada à segurança.

Boles reconheceu uma falha da categoria, porém a apresentou como deficiência do processo de inspeção e consequência das prioridades adotadas pelos técnicos. Não discutiu, naquela primeira reação, a responsabilidade da direção executiva por permitir que um sistema de controle atravessasse sucessivas verificações sem detectar a irregularidade.

Pouco depois, a IndyCar passou a estudar uma estrutura independente de arbitragem, sem funcionários de Roger Penske. O modelo desenvolvido posteriormente foi apresentado por Boles como um organismo que a Penske Entertainment não poderia controlar, influenciar, contratar ou demitir.

A providência foi necessária, mas também representou uma admissão tardia. Durante aproximadamente cinco anos, a categoria resistiu aos pedidos de maior independência. A mudança somente se tornou prioridade depois que a equipe do proprietário da IndyCar protagonizou dois escândalos técnicos consecutivos.

Boles merece crédito por participar da correção. Não pode, entretanto, apresentar a solução como simples evolução administrativa. Ela nasceu porque a governança anterior, que ele aceitou comandar, deixou de ser defensável.

Markham revelou o mesmo método de comunicação sob outra forma.

Quando a construção do circuito não terminou a tempo e toda a atividade de sexta-feira foi cancelada, Boles declarou que a IndyCar estava “extremamente decepcionada” porque o promotor não havia concluído o trabalho, apesar do “apoio significativo” oferecido pela categoria. Em seguida, pediu desculpas aos torcedores e agradeceu à cidade.

A Green Savoree possuía responsabilidade contratual pela organização e pela montagem temporária. Havia, portanto, fundamento para cobrar o promotor. O que ficou fora da manifestação foi a participação da própria IndyCar no processo.

A categoria aprovou Markham no calendário, participou da implantação de um circuito inédito, conhecia as limitações envolvendo a estação Unionville GO, fiscalizava a estrutura e sabia que determinadas áreas seriam liberadas muito perto do evento. A caminhada de pista já havia sido adiada e a IndyCar enviara ajuda adicional antes do cancelamento.

Se havia “apoio significativo”, era porque a direção sabia que o promotor enfrentava dificuldades. Se muros e barreiras continuavam sendo instalados quando as equipes chegaram, o problema não apareceu no horário do treino.

Boles responsabilizou expressamente a Green Savoree, mas não explicou quando a IndyCar percebeu que o cronograma estava ameaçado, por que a programação foi mantida e por que os torcedores permaneceram durante horas nas arquibancadas antes do cancelamento definitivo.

Sua declaração realizou uma divisão muito precisa. A Green Savoree ficou responsável pelo fracasso. A IndyCar apareceu como a instituição que tentou ajudar e protegeu a segurança. Markham foi preservada como parceira que investiu milhões e entregou um traçado promissor. Os torcedores foram reconhecidos como vítimas merecedoras de desculpas.

A categoria, entretanto, não era uma fiscal externa surpreendida pelo atraso. Era parceira, sancionadora, beneficiária e conhecedora dos riscos do evento. Contratualmente, a principal falha poderia pertencer à Green Savoree. Institucionalmente, a IndyCar também deveria explicar sua supervisão.

Mais uma vez, Boles apareceu, falou com firmeza e conduziu a crise, mas não permitiu que a responsabilidade alcançasse integralmente sua mesa.

Outro episódio merece cuidado. Em 2025, durante o processo antitruste entre 23XI Racing, Front Row Motorsports e NASCAR, a IndyCar recorreu à Justiça para tentar impedir que Boles fosse interrogado em um depoimento solicitado pela NASCAR.

A categoria argumentou que já havia fornecido mais de 650 páginas de documentos, que o depoimento seria excessivamente oneroso e desnecessário e que poderia expor informações comerciais e financeiras a uma organização concorrente.

Tentar anular uma intimação é um recurso jurídico legítimo. Não existe evidência de que Boles estivesse ocultando uma conduta ilícita, e o episódio não pode ser apresentado como prova de culpa. Ainda assim, quando surgiu a possibilidade de um interrogatório envolvendo informações internas da categoria, a primeira reação institucional foi tentar mantê-lo fora do depoimento.

Existe também uma questão familiar. Boles é padrasto de Conor Daly, piloto da IndyCar. O próprio Indianapolis Motor Speedway já explorou publicamente a relação, apresentando Daly, em tom afetivo, como o piloto favorito do dirigente.

Não há evidência de favorecimento, interferência esportiva ou benefício irregular concedido a Daly. Qualquer acusação nesse sentido seria irresponsável. Entretanto, numa estrutura de governança verdadeiramente transparente, deveria existir uma política pública de impedimento para decisões que pudessem afetar diretamente o piloto.

A relação familiar não é o problema. O problema está em não haver clareza visível sobre como esse conflito potencial é administrado por uma categoria cujo presidente já acumula funções e responde ao proprietário de uma equipe.

Até mesmo a comunicação sobre segurança oferece exemplos do estilo de Boles. Em 2017, diante da possibilidade de tempestades durante as 500 Milhas de Indianapolis e da dificuldade de proteger centenas de milhares de pessoas espalhadas por arquibancadas metálicas e pelo infield, ele aconselhou os torcedores a preparar seus próprios planos de emergência.

A recomendação possuía lógica, pois nenhum autódromo consegue abrigar imediatamente um público daquela dimensão. Ao mesmo tempo, devolvia ao espectador uma parcela da responsabilidade por reagir a um risco existente dentro de um evento organizado e controlado pelo Speedway.

Não era abandono de responsabilidade, mas uma formulação característica: Boles reconhece o perigo, explica as limitações da instituição e distribui a obrigação de enfrentá-lo.

Esse padrão não transforma Doug Boles em um dirigente desonesto. Também não elimina suas realizações. Sob sua administração, o Indianapolis Motor Speedway recebeu investimentos superiores a US$ 150 milhões, passou por uma grande modernização e realizou a centésima edição das 500 Milhas de Indianapolis com arquibancadas lotadas. Sua proximidade com o público é reconhecida até por críticos, assim como sua capacidade de promover eventos e compreender o valor histórico do Speedway.

Justamente por ser competente, sua atuação precisa ser examinada com mais profundidade.

Boles não foge das crises da maneira tradicional. Ele não desaparece. Aproxima-se delas, ocupa o espaço público e impede que outras pessoas definam primeiro o significado dos acontecimentos. Reconhece o que já se tornou incontestável, demonstra indignação, apresenta uma providência e delimita onde está a falha.

Quando o problema pertence a um parceiro, a responsabilidade é individualizada. Quando pertence à própria estrutura, transforma-se em deficiência de processo, fiscalização ou governança. Quando envolve o público, pede-se compreensão e participação. Quando a instituição reage posteriormente, a correção passa a integrar a narrativa de integridade.

É uma forma sofisticada de liderança e, simultaneamente, de autoproteção.

A história disponível não permite publicar “os podres de Doug Boles” como se houvesse uma coleção de escândalos pessoais escondidos. Não há comprovação disso. O que existe é uma discussão mais séria sobre um homem que concentra poder, trabalha dentro de uma estrutura empresarial conflituosa e domina a capacidade de administrar responsabilidades sem permitir que elas permaneçam inteiramente consigo.

Em Markham, sua indignação contra a Green Savoree pode ter sido contratualmente justa. Mas a IndyCar também aprovou, acompanhou e sustentou o evento até que a pista se mostrasse incapaz de receber os carros. Na crise da Team Penske, ele reconheceu a falha técnica, mas somente depois de dois escândalos a categoria avançou para uma fiscalização independente. No processo envolvendo a NASCAR, a organização tentou evitar seu depoimento. Na relação com Conor Daly, existe um conflito potencial sem demonstração pública clara de impedimento.

Nada disso prova corrupção. Tudo isso recomenda vigilância.

Doug Boles construiu a imagem do presidente que está sempre presente. Talvez seja exatamente por isso que suas palavras precisem ser examinadas com tanta atenção. Ele aparece para apagar o incêndio, conversa com os torcedores, reconhece a fumaça e promete reforçar o sistema.

O que raramente faz é perguntar, diante de todos, por que tantos incêndios conseguiram chegar tão perto de sua própria sala.

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