
No início da década de 1990, quem entrava pela primeira vez nos boxes da Team Penske tinha a impressão de estar visitando uma empresa de tecnologia e não uma equipe de automobilismo. O contraste com muitos concorrentes era evidente. Enquanto parte do paddock ainda conservava características quase artesanais, a estrutura comandada por Roger Penske funcionava como uma organização industrial.
Seu estilo de liderança misturava disciplina, planejamento e uma capacidade rara de tomar decisões sob enorme pressão. Funcionários relatam que dificilmente ele levantava a voz. Preferia fazer perguntas. Queria entender por que determinado problema havia ocorrido e, principalmente, como impedir que voltasse a acontecer. Essa cultura de melhoria permanente contaminava toda a organização. Mecânicos, engenheiros e estrategistas sabiam que qualquer detalhe poderia representar alguns centésimos de segundo, e centésimos frequentemente decidiam corridas de 500 milhas.
Caminhões impecavelmente organizados, equipamentos identificados, processos documentados e uma disciplina quase militar revelavam que ali havia muito mais do que um patrocinador disposto a investir milhões de dólares. Existia uma filosofia de gestão que unia engenharia, administração e marketing sob um mesmo objetivo: eliminar qualquer fator que pudesse comprometer o desempenho.
A Marlboro compreendeu rapidamente que aquele ambiente representava exatamente os valores que desejava associar à sua marca. A Philip Morris jamais tratou a Team Penske como um simples espaço publicitário. A relação era construída diariamente por profissionais das duas organizações. Executivos responsáveis pelo marketing esportivo acompanhavam o calendário da categoria, coordenavam programas de hospitalidade, organizavam encontros entre pilotos e grandes clientes, supervisionavam campanhas publicitárias e participavam da definição da imagem institucional do projeto.
Cada corrida transformava-se em uma oportunidade para fortalecer relações comerciais que muitas vezes envolviam distribuidores, redes varejistas e parceiros estratégicos espalhados por diferentes países.
Foi nesse ambiente que Emerson Fittipaldi viveu uma segunda juventude esportiva. Muito além das vitórias, o brasileiro tornou-se uma das principais pontes entre os engenheiros e o cockpit. Sua sensibilidade para interpretar o comportamento do carro impressionava técnicos acostumados a trabalhar com alguns dos maiores pilotos do mundo.
Emerson não limitava suas análises ao desempenho do motor ou ao equilíbrio aerodinâmico. Descrevia como pequenas alterações afetavam a confiança do piloto durante a frenagem, a entrada nas curvas e a aceleração na saída. Para engenheiros, esse tipo de informação valia ouro. Um carro competitivo nasce de números, mas transforma-se em vencedor quando esses números conseguem traduzir sensações humanas.
A conquista das 500 Milhas de Indianápolis de 1993 consolidou definitivamente essa parceria. Naquele domingo, a imagem de Emerson cruzando a linha de chegada em um carro vermelho e branco percorreu o planeta. Não era apenas a vitória de um piloto brasileiro. Era a confirmação de que a estratégia construída entre Philip Morris e Team Penske funcionava exatamente como planejado. O retorno de mídia foi gigantesco, e a associação entre a Marlboro e o sucesso esportivo atingiu um dos pontos mais altos de sua história.
Enquanto isso, a categoria atravessava um período de extraordinária competitividade. Newman/Haas, comandada por Carl Haas e pelo ex-piloto e engenheiro Paul Newman, consolidava-se como uma das grandes forças do campeonato. A Chip Ganassi Racing iniciava uma trajetória que a transformaria em referência mundial. A Patrick Racing continuava sendo um adversário respeitado.
Equipes como Forsythe, Green, Walker Racing e Rahal-Hogan disputavam pilotos, engenheiros e patrocinadores em um mercado extremamente competitivo. A guerra não acontecia apenas nas pistas. Ela era travada também nas salas de reunião, onde contratos milionários eram negociados e onde patrocinadores avaliavam cuidadosamente qual organização oferecia o melhor retorno para seus investimentos.
A partir da segunda metade da década de 1990, outro desafio começou a consumir dirigentes e patrocinadores. A criação da Indy Racing League provocou uma divisão que abalou profundamente o automobilismo americano. Equipes, pilotos, fabricantes de motores e empresas patrocinadoras precisaram escolher lados em uma disputa política que fragmentou audiência, reduziu receitas e criou um ambiente de enorme incerteza.
A Marlboro acompanhou esse processo com preocupação. Seu investimento dependia da força comercial da categoria, e qualquer perda de relevância significava menor exposição para a marca. Roger Penske também viveu um dos períodos mais delicados de sua carreira. Acostumado a dominar campeonatos, viu sua equipe enfrentar dificuldades técnicas, mudanças regulatórias e uma concorrência cada vez mais preparada.
Foi justamente nesse momento que outro brasileiro assumiu papel decisivo.

Gil de Ferran chegou à Penske trazendo uma combinação rara de inteligência, serenidade e extraordinária capacidade técnica. Filho de engenheiro, formado em uma cultura que valorizava profundamente a análise de dados, Gil possuía um método de trabalho quase científico. Conversava longamente com os engenheiros, participava ativamente das definições de acerto e ajudava a reorganizar uma equipe que buscava recuperar o protagonismo perdido. Os títulos da CART conquistados em 2000 e 2001 representaram muito mais do que vitórias esportivas. Simbolizaram a recuperação de uma organização que jamais aceitara conviver com a derrota.
Ao lado de Gil começava a surgir um jovem de personalidade completamente diferente. Hélio Castroneves era expansivo, comunicativo e extremamente carismático. Sorria com facilidade, conquistava patrocinadores e aproximava o público da equipe de maneira natural. Muitos imaginaram que um perfil tão descontraído talvez não se adaptasse ao ambiente rigorosamente disciplinado da Penske.
Aconteceu exatamente o contrário.
Roger Penske percebeu que aquele brasileiro possuía uma característica rara: conseguia transmitir alegria sem perder o profissionalismo. Dentro do carro, era meticuloso. Fora dele, transformava-se em um dos melhores representantes que um patrocinador poderia desejar.

As vitórias nas 500 Milhas de Indianápolis em 2001 e 2002 ampliaram ainda mais a ligação entre o Brasil e a Marlboro Team Penske. Em pouco mais de uma década, três brasileiros diferentes haviam conduzido os carros da equipe ao lugar mais alto do pódio na prova mais importante do automobilismo americano. Emerson abrira o caminho. Gil restaurara a competitividade técnica. Hélio conquistara uma nova geração de torcedores. Raramente um único país exerceu influência tão profunda sobre a principal organização da categoria.
Entretanto, o mundo mudava rapidamente. A pressão contra a publicidade de produtos derivados do tabaco aumentava em praticamente todos os continentes. Novas legislações restringiam espaços publicitários, limitavam campanhas promocionais e reduziam a exposição das marcas durante eventos esportivos. Para empresas como a Philip Morris, tornava-se cada vez mais difícil justificar investimentos construídos justamente sobre a visibilidade pública.
A resposta encontrada foi inteligente. Em vez de alterar completamente a identidade visual, a equipe preservou o esquema de cores que durante décadas havia sido associado à Marlboro. Em muitos circuitos, o logotipo desaparecia, mas o vermelho e o branco permaneciam praticamente inalterados. Era uma demonstração impressionante da força construída pelo branding. Depois de tantos anos, já não era necessário escrever o nome da marca. O público fazia essa associação automaticamente.
Poucos programas de marketing esportivo alcançaram tamanho grau de reconhecimento. Durante aproximadamente vinte anos, a parceria entre Philip Morris e Team Penske acumulou títulos, vitórias nas 500 Milhas de Indianápolis, centenas de pódios e uma presença constante entre as equipes mais competitivas da categoria.
Mais importante do que os números, porém, foi a transformação cultural produzida por essa união. A relação entre patrocinadores e equipes deixou de se limitar à compra de espaço publicitário. Passou a envolver inteligência de mercado, gestão de relacionamento, produção de conteúdo, hospitalidade corporativa, desenvolvimento tecnológico e construção de reputação.
Essa herança permanece visível até hoje. Quando grandes empresas utilizam autódromos para receber clientes estratégicos, quando patrocinadores participam do desenvolvimento da identidade visual de uma equipe ou quando pilotos assumem o papel de embaixadores de marcas globais, existe um pouco da filosofia construída pela Marlboro nas décadas de 1980 e 1990. O automobilismo aprendeu que velocidade podia gerar muito mais do que troféus. Podia criar valor empresarial.
Talvez seja justamente esse o aspecto mais fascinante dessa história. Durante anos, acreditou-se que o protagonista era um logotipo estampado sobre um carro vencedor.
Na realidade, o verdadeiro protagonista era um sistema de gestão capaz de integrar engenheiros, mecânicos, executivos, publicitários, estrategistas, pilotos e patrocinadores em torno de um objetivo comum. Roger Penske compreendeu isso antes de quase todos os seus adversários.
A Philip Morris enxergou na Team Penske uma organização capaz de materializar seus valores corporativos.
E três brasileiros, Emerson Fittipaldi, Gil de Ferran e Hélio Castroneves, tornaram-se personagens centrais dessa construção.
Hoje, a Marlboro já não aparece nas carenagens da IndyCar. As leis mudaram, o mercado mudou e o esporte seguiu novos caminhos. Ainda assim, basta observar com atenção o funcionamento das grandes equipes modernas para perceber que muitos dos conceitos considerados indispensáveis nasceram naquele período.
A busca obsessiva pela perfeição operacional, a valorização da experiência do patrocinador, a integração entre marketing e engenharia e a compreensão de que uma equipe de corrida também é uma organização empresarial continuam definindo o automobilismo de alto nível.
A fumaça desapareceu das pistas. O legado, porém, permanece acelerando silenciosamente a cada nova largada.