
A imagem que chega ao público nos finais de semana da IndyCar costuma ser simples. Um carro branco e preto ocupa seu lugar no grid ao lado de estruturas lendárias como Team Penske, Chip Ganassi Racing, Andretti Global e Arrow McLaren. Para quem acompanha apenas as corridas, a Juncos Hollinger Racing parece apenas mais uma equipe tentando encontrar espaço entre organizações muito maiores.
Mas essa leitura é superficial. Cada vez que um de seus carros deixa os boxes, carrega uma história que começou décadas antes, em uma pequena oficina na Argentina, passou por uma das maiores tragédias econômicas da América Latina e quase terminou inúmeras vezes por motivos que nada tinham a ver com velocidade.
É difícil encontrar, em qualquer grande categoria do automobilismo mundial, um proprietário de equipe cuja trajetória seja tão marcada por perdas, interrupções e recomeços quanto a de Ricardo Juncos. Seu maior adversário nunca foi um piloto rival, um engenheiro mais competente ou um carro mais rápido. Foram as crises econômicas, a escassez permanente de recursos, a necessidade de abandonar as pistas para sustentar a família e a obrigação de reconstruir a própria vida em outro país quando tudo aquilo que havia construído simplesmente deixou de existir.
Essa história ajuda a compreender algo que muitas vezes passa despercebido pelo público. O automobilismo não é sustentado apenas por tecnologia e talento. Ele depende de economias saudáveis, de empresas dispostas a investir, de crédito disponível, de confiança empresarial e de uma cadeia produtiva extremamente sensível às oscilações econômicas. Quando um país entra em colapso financeiro, não quebram apenas bancos e indústrias. Quebram também oficinas, pequenas equipes, carreiras esportivas e projetos de vida.
Ricardo Juncos descobriu isso da maneira mais dura possível.
Nascido em Tigre, na província de Buenos Aires, cresceu em uma família de origem simples, onde o trabalho sempre ocupou um lugar central. Muito antes de conhecer os autódromos, conheceu as limitações impostas pela falta de dinheiro. Em diversas entrevistas concedidas ao longo dos anos, recordou um episódio que jamais deixou sua memória: houve um período em que seus pais precisaram vender as alianças de casamento para conseguir comprar alimentos.
É um detalhe aparentemente pequeno, mas que explica muito da personalidade que desenvolveria décadas depois. Para uma criança, perceber que até os objetos de maior valor sentimental podem ser sacrificados para garantir a sobrevivência da família altera profundamente a forma de enxergar segurança, responsabilidade e risco. Ricardo cresceu entendendo que patrimônio pode desaparecer rapidamente e que estabilidade nunca deve ser tratada como algo permanente.
Foi justamente nesse ambiente que nasceu sua paixão pela mecânica. Enquanto muitas crianças sonhavam apenas em pilotar carros de corrida, ele demonstrava fascínio por compreender como as máquinas funcionavam. Formou-se em engenharia eletromecânica e, ainda muito jovem, passou a dividir sua rotina entre o trabalho técnico e a tentativa de construir uma carreira como piloto.
O talento existia, mas a realidade econômica impunha limites claros. Diferentemente dos grandes centros europeus, onde programas de formação contam há décadas com investimentos consistentes de montadoras e patrocinadores, o automobilismo argentino sempre dependeu de iniciativas privadas de pequena escala e de empresários dispostos a assumir riscos elevados em um ambiente econômico frequentemente instável. Isso significava que sobreviver no esporte exigia muito mais do que velocidade.
Ricardo percebeu rapidamente que pilotar dificilmente seria suficiente para garantir seu futuro. Decidiu então criar sua própria equipe na Fórmula Renault Argentina, ao mesmo tempo em que administrava uma oficina mecânica ao lado do irmão Mariano. A oficina financiava parte da atividade esportiva, enquanto o automobilismo ajudava a desenvolver conhecimentos técnicos e ampliar relacionamentos profissionais. Era um modelo de negócio comum entre pequenas equipes sul-americanas, onde a paixão pelo esporte quase sempre precisava ser sustentada por outra atividade econômica.
Durante alguns anos, o projeto evoluiu de maneira consistente. A oficina conquistava clientes, a equipe começava a ganhar espaço nas categorias de base e parecia existir uma perspectiva concreta de crescimento. Ricardo trabalhava praticamente todos os dias da semana, alternando funções de engenheiro, mecânico, empresário, gestor e piloto. Não havia departamentos especializados nem estruturas complexas. Como acontece em inúmeras pequenas equipes, praticamente tudo dependia da capacidade de seus proprietários resolverem problemas diariamente.
Mas havia um fator impossível de controlar.
No início dos anos 2000, a economia argentina caminhava rapidamente para o colapso. Durante quase uma década, o país manteve a chamada Lei da Conversibilidade, que fixava a relação de um peso para um dólar. A política monetária trouxe estabilidade inicial, mas também reduziu drasticamente a competitividade da economia argentina. Empresas passaram a enfrentar dificuldades crescentes, o desemprego aumentou, a dívida pública tornou-se insustentável e a confiança dos investidores começou a desaparecer.
No fim de 2001, o sistema entrou em ruptura.
O governo decretou o congelamento dos depósitos bancários, medida que ficaria conhecida mundialmente como “corralito”. Milhões de argentinos perderam acesso ao próprio dinheiro. Empresas deixaram de honrar compromissos financeiros, fornecedores interromperam atividades, consumidores reduziram drasticamente seus gastos e milhares de pequenos negócios desapareceram em questão de meses.
Os números ainda impressionam. O Produto Interno Bruto argentino sofreu uma das maiores retrações de sua história recente. O desemprego ultrapassou 20% da população economicamente ativa. A pobreza atingiu mais da metade dos habitantes do país e a extrema pobreza cresceu em velocidade ainda maior. Mais de cem mil pequenas e médias empresas encerraram atividades durante aquele período, provocando um efeito em cadeia que atingiu praticamente todos os setores da economia.
O automobilismo não escapou. Ao contrário. Talvez tenha sido um dos primeiros segmentos a sentir os efeitos da crise. Quando empresas enfrentam dificuldades financeiras, publicidade costuma ser uma das primeiras despesas cortadas. Patrocínios desaparecem rapidamente. Categorias de base perdem participantes. Equipes deixam de desenvolver carros. Fornecedores interrompem investimentos. Pilotos abandonam campeonatos porque simplesmente deixam de encontrar quem financie suas temporadas.
Foi exatamente isso que aconteceu com Ricardo Juncos: a oficina começou a perder clientes em ritmo acelerado. Muitos simplesmente fecharam as portas. Outros continuavam existindo, mas já não possuíam recursos para pagar pelos serviços realizados. Ao mesmo tempo, patrocinadores desapareceram do automobilismo argentino. O dinheiro deixou de circular. O crédito praticamente desapareceu. Pela primeira vez, Ricardo precisou tomar uma decisão que mudaria completamente sua trajetória. Continuar competindo significava comprometer a sobrevivência da empresa e colocar em risco o sustento da família. Permanecer no automobilismo deixava de ser uma demonstração de coragem para transformar-se em irresponsabilidade financeira.
Foi obrigado a parar. Não porque tivesse perdido a paixão pelas corridas ou porque faltasse competência. Mas porque a realidade econômica havia vencido.
Esse talvez seja um dos aspectos mais importantes de sua história e, ao mesmo tempo, um dos menos compreendidos por quem acompanha apenas os resultados da IndyCar. Em vários momentos da vida, Ricardo não saiu das pistas por derrotas esportivas. Saiu porque não havia condições de continuar. Precisou trocar capacetes por planilhas, carros de corrida por contas a pagar e projetos esportivos pela necessidade de preservar aquilo que restava da empresa.
Milhares de argentinos viveram dramas semelhantes naquele período. A diferença é que Ricardo decidiu transformar aquela derrota em um ponto de partida.
Em 2002, ao lado do irmão Mariano, embarcou para os Estados Unidos levando aproximadamente 400 dólares emprestados pela avó. É um número que costuma aparecer em praticamente todas as entrevistas sobre sua trajetória porque simboliza a dimensão do risco assumido. Quatrocentos dólares não representavam capital para abrir uma empresa. Não garantiam conforto. Não ofereciam qualquer segurança. Eram apenas o suficiente para atravessar os primeiros dias enquanto buscavam uma oportunidade.
Deixar a Argentina significava muito mais do que mudar de endereço. Significava admitir que o sonho construído ao longo de anos havia sido derrotado pelas circunstâncias, abandonar familiares, amigos, clientes e tudo aquilo que havia construído profissionalmente e, mais do que isso, significava aceitar que, aos olhos de muitos, estava começando novamente do zero.
Os primeiros meses nos Estados Unidos foram extremamente difíceis.
Sem dominar o idioma e sem uma rede de contatos consolidada, Ricardo conseguiu emprego em uma carpintaria industrial. O trabalho exigia esforço físico intenso e pouca relação tinha com aquilo que imaginara para sua vida. Ainda assim, nunca tratou aquela experiência como um fracasso. Enxergava-a como uma etapa necessária para reconstruir o futuro. Durante o dia trabalhava e à noite estudava inglês. Nos fins de semana buscava qualquer oportunidade de aproximar-se novamente do automobilismo. Era uma rotina exaustiva.
Mais do que aprender um novo idioma, precisava compreender uma cultura empresarial completamente diferente daquela que conhecera na Argentina. Descobriu rapidamente que o automobilismo norte-americano funcionava de maneira muito mais estruturada, profissionalizada e dependente de gestão do que imaginava. Foi justamente nesse período que começou a perceber que, para sobreviver naquele ambiente, precisaria tornar-se não apenas um bom engenheiro, mas também um gestor muito mais preparado.
A oportunidade de retorno ao esporte surgiu quando passou a trabalhar como mecânico em uma equipe de kart ligada à família Fittipaldi. O salário era modesto e as condições estavam longe do ideal, mas representavam algo infinitamente mais valioso: a possibilidade de voltar ao ambiente das corridas. Ricardo não desperdiçou a oportunidade.
Observava atentamente como funcionava a organização das equipes americanas, a relação com patrocinadores, a logística, os processos administrativos e a maneira como cada detalhe era planejado. Aos poucos, compreendeu que sua experiência na Argentina havia lhe ensinado a sobreviver com poucos recursos, mas os Estados Unidos poderiam ensiná-lo a construir uma organização capaz de crescer de forma sustentável.
Em 2003 nasceu a Juncos Racing. Inicialmente, era apenas uma pequena equipe de kart, poucos equipamentos e funcionários, recursos extremamente limitados. Mas havia algo diferente. Ao contrário da primeira experiência empresarial na Argentina, Ricardo decidiu estruturar a equipe com uma visão de longo prazo. Cada investimento era cuidadosamente planejado. Cada patrocinador era tratado como parceiro estratégico. Cada piloto era visto não apenas como cliente, mas como parte do desenvolvimento da organização.
Os resultados começaram a aparecer. Nos anos seguintes, a Juncos Racing transformou-se em uma das principais forças das categorias de acesso da Indy. Vieram campeonatos, dezenas de vitórias e a reputação de revelar talentos capazes de chegar à principal categoria do automobilismo americano.
Por trás daqueles troféus, porém, continuava existindo uma realidade invisível. A equipe permanecia financeiramente vulnerável; a cada temporada, precisava ser construída praticamente do zero, um novo patrocinador conquistado representava uma garantia de sobrevivência. Cada contrato perdido colocava em risco meses de planejamento.
Enfim, Ricardo havia voltado às pistas, mas ainda estava muito longe de vencer sua corrida mais importante.
Essa corrida tinha um nome: IndyCar.
E, para chegar até ela, descobriria que os maiores desafios de sua vida ainda estavam por acontecer.
Continua…