Lotus: O último triunfo de uma gigante da F1

por Sergio Milani

39 anos atrás, a dita “Ferrari britânica” tinha seu último triunfo “original” nas ruas da então capital do automóvel. E pelas mãos de um brasileiro

por Sergio Milani
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Sei que o tema acaba sendo um pouco espinhoso. Afinal de contas, as estatísticas dão conta da famosa discussão entre o que seria a Lotus verdadeira entre 2010 e 2011, bem como a assunção posterior do time de Enstone até 2015. Oficialmente, a base de dados da FIA considera 2011 como a ultima temporada do time e o StatsF1, um site com muita confiabilidade, contabiliza as temporadas de 2010 a 2015. Neste ponto, sou “tradicionalista” e, mesmo sabendo de todos os acordos comerciais, considero 1994 como o ponto final daquela Lotus gigante.

(Até sobre este ano final da Lotus, escrevi um artigo sobre o tema no Parabólica. O link é este).

Dentro deste contexto, hoje completa-se 39 anos da ultima vitória da Lotus “clássica”. Em 21 de junho de 1987 estava marcado o VI Grande Prêmio de Detroit. Quinta etapa da temporada daquele ano, a F1 chegava às ruas da “Cidade dos Motores” em uma condição totalmente aberta. Em quatro corridas, três vencedores diferentes : Alain Prost vencera no Brasil e Bélgica; Nigel Mansell levou em San Marino e Ayrton Senna havia vencido quinze dias antes em Mônaco. Prost chegava na liderança do campeonato com 18 pontos, perseguido por Senna com 15 pontos e Stefan Johansson (McLaren) com 13 pontos. A Williams, que era considerada a melhor equipe, ficava com Piquet com 12 pontos e Mansell com 10 pontos.

Detroit não era uma pista querida pelos pilotos e equipes. Era uma pista de rua montada no centro da Cidade, tendo como cenário o Lago St. Clair e o onipresente Renaissance Center, Sede Mundial da General Motors. Desde 1982 no calendário, era mais uma tentativa de trazer o público estadunidense para as teias da F1. A prova tinha o apoio da cidade, além das gigantes automotivas sediadas lá.

Os treinos foram dominados por Nigel Mansell, que simplesmente botou 1,5s sobre Senna, que garantiu a segunda posição. Piquet foi o terceiro colocado, em uma pista em que já deixou claro várias vezes que não gostava. Ao seu lado, Thierry Boutsen com um Benetton/Ford. Prost ficava em quinto reclamando horrores do equilíbrio de seu Mclaren, chegando a andar de tanque cheio para tentar melhorar a estabilidade e fazer os pneus funcionarem…

Em um domingo de tempo fechado, que começou com nevoeiro e direito a pista úmida no treino de aquecimento, os 26 carros foram para a corrida. Mansell confirma a pole position e sai na frente, sendo seguido por Senna, Piquet e Eddie Cheever (Arrows). Na terceira volta, Piquet tem um pneu furado e vai para os boxes, voltando em 21º lugar.

Mansell impunha um ritmo forte, abrindo cerca de 1 segundo por volta sob Senna, que vinha tranquilo na vice-liderança. Por conta de um pedal de freio baixo, o brasileiro segurou seu ritmo. Até porque sabia que sua chance de vencer a prova era na estratégia ou se aproveitar de algum problema de Mansell. Seu Lotus 99T tinha no trato de pneus gerado pela suspensão ativa o seu grande trunfo e o melhor que poderia acontecer era uma repetição de 15 dias antes em Mônaco.

(Sobre o 99T, outro artigo sobre o carro feito por mim no Parabólica segue aqui).

A corrida ia ficando animada pela briga na terceira posição. Michele Alboreto puxava um grupo composto por Prost e Berger. A Benetton, que prometia bastante para esta etapa por conta de uma nova versão do Ford Turbo V6, foi ficando para trás. Piquet vinha numa escalada frenética e já aparecia em quinto lugar na 30ª volta.

Nelson Piquet ultrapassando Thierry Boutsen. O brasileiro fez uma escalada de encher os olhos após parar nos boxes na 3ª volta, chegando em 2º lugar (fonte: Reprodução/ X)

A esta altura, Senna tinha recuperado a confiança nos freios e aumentou o ritmo. A diferença que tinha chegado à casa de 20 segundos batia nos 14 segundos. Os pneus de Mansell cobravam a conta (lembrar que a GoodYear era fornecedora única) e o fato do brasileiro ter andado “mais devagar” ampliado pela suspensão ativa, trazia vantagem neste momento da prova.

Até que chegou a volta 34 e Mansell foi fazer sua troca de pneus. A Williams se perdeu no caminho e o trabalho dos mecânicos foi longo, especialmente por conta da dificuldade de tirar a roda traseira esquerda. Longos dezoito segundos fizeram o britânico perder a liderança…

Senna assumia a liderança e Mansell voltava na terceira posição, atrás de Prost. A Williams #5 faz a volta mais rápida e ultrapassa a McLaren do então bicampeão francês. Mas logo após Senna batia o tempo e garantia uma vantagem de 33 segundos.

Piquet ultrapassava Prost pela terceira posição, enquanto os tempos de Mansell começavam a variar muito. Simplesmente cãimbras acometiam o piloto britânico, que considerou abandonar a prova. Enquanto isso, Senna decidiu não parar nos boxes, embora estivesse em uma situação tranquila. E assim foi até o final, mesmo com uma ligeira garoa aparecendo nas voltas finais.

Senna completava as 63 voltas com uma diferença de 33 segundos para Piquet. Prost fechava o pódio, com Berger em quarto e Mansell se arrastando pela pista, conseguindo ainda um quinto lugar, levando uma volta de Senna. Eddie Cheever fechou os lugares pontuáveis com o sexto lugar em sua Arrows.

Pódio de Detroit, com Piquet (2º), Senna (º) e Prost (3º). (fonte: senna.com.br)

Seria a última vitória de Senna naquela temporada e da Lotus dita “clássica”. Além disso, o brasileiro saía de Detroit líder do campeonato, condição que levaria até o GP da Alemanha. Aquela temporada seria a última digna de toda a história da Lotus, que até hoje marca seu nome em várias estatísticas da F1 e ajudou através da genialidade e persistência de seu fundador, Colin Chapman, a moldar tecnicamente a categoria.

Foi em um 21 de junho….

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