
Durante grande parte da última década, o debate sobre o futuro do automóvel pareceu caminhar em uma única direção. Governos anunciaram datas para o fim dos motores a combustão, montadoras prometeram investimentos superiores a centenas de bilhões de dólares e investidores passaram a tratar os veículos elétricos a bateria como o destino inevitável da indústria.
Mas, enquanto os holofotes estavam voltados para os automóveis elétricos, uma segunda revolução continuava avançando de forma silenciosa. Ela não promete apenas mudar o automóvel, mas pode alterar o transporte pesado, a indústria, o comércio marítimo, a aviação e até mesmo a geopolítica energética do planeta.
Seu nome é hidrogênio.
A pergunta inevitável é: quando veremos veículos movidos a hidrogênio circulando livremente pelas ruas? A resposta é surpreendente.
Do ponto de vista tecnológico, amanhã! Esse futuro já existe.
O Toyota Mirai chegou ao mercado em 2014, tornando-se o primeiro automóvel movido por célula de combustível produzido em série em escala global. Poucos anos depois surgiu o Hyundai Nexo, consolidando o hidrogênio como uma alternativa tecnicamente viável. Esses veículos demonstraram algo fundamental: a tecnologia funciona. As autonomias já podem ultrapassar 650 ou até 700 quilômetros, enquanto o reabastecimento ocorre em aproximadamente três a cinco minutos, tempos extremamente próximos dos veículos convencionais. Além disso, as células de combustível modernas já apresentam durabilidade entre 5.000 e 8.000 horas de operação, equivalente a centenas de milhares de quilômetros de utilização.
Sob a ótica puramente tecnológica, portanto, não existe qualquer impedimento para que novas gerações de veículos a hidrogênio sejam colocadas em produção. Caso uma montadora decidisse iniciar um projeto hoje, um novo modelo poderia chegar às ruas em aproximadamente três a cinco anos, prazo absolutamente normal dentro da indústria automobilística, mas a história do automóvel demonstra repetidamente que tecnologia, por si só, nunca determina vencedores.
O verdadeiro problema encontra-se em outro lugar. O maior desafio é a infraestrutura. Ao longo de mais de um século, o petróleo construiu um gigantesco ecossistema industrial. Refinarias, oleodutos, navios-tanque, postos de abastecimento e redes logísticas foram desenvolvidos ao redor do mundo.
Os veículos elétricos, por sua vez, beneficiam-se de algo igualmente importante: a existência prévia de uma vasta rede elétrica e o hidrogênio não possui nenhuma dessas vantagens. Sua infraestrutura praticamente precisa ser criada do zero , atualmente, a rede mundial de abastecimento continua extremamente limitada: o Japão possui aproximadamente 160 estações de hidrogênio; a Coreia do Sul ultrapassa ligeiramente as 200 unidades; a Alemanha possui cerca de uma centena de postos; nos Estados Unidos, a infraestrutura está praticamente concentrada na Califórnia. E no Brasil, a rede pública é praticamente inexistente.
E há uma razão econômica para isso: a construção de uma única estação de abastecimento de hidrogênio pode exigir investimentos entre US$ 2 milhões e US$ 5 milhões, dependendo da capacidade instalada e das características do projeto. Cria-se então um círculo vicioso: sem veículos, não existe justificativa econômica para construir postos. Sem postos, os consumidores não compram veículos. É o mesmo dilema enfrentado pelos primeiros automóveis no início do século XX.
Existe ainda um segundo obstáculo. Embora o hidrogênio seja extremamente atraente sob a ótica operacional, ele enfrenta dificuldades importantes do ponto de vista energético e para que um automóvel movido a hidrogênio funcione, é necessário: produzir eletricidade, utilizar essa energia para fabricar hidrogênio, comprimir o gás, transportá-lo, armazená-lo e reconverter o hidrogênio em eletricidade dentro do veículo.
Atenção: em cada uma dessas etapas ocorrem perdas. Ao final do processo, apenas cerca de 25% a 35% da energia originalmente produzida chega efetivamente às rodas do automóvel e, nos veículos elétricos a bateria, essa eficiência frequentemente supera 70%. Sob uma lógica puramente econômica e energética, isso torna extremamente difícil justificar a utilização do hidrogênio para veículos leves produzidos em massa.
Essa realidade explica por que diversas montadoras reduziram seus programas de automóveis a hidrogênio nos últimos anos. Mas isso está longe de significar o fim da tecnologia.
Paradoxalmente, o maior futuro do hidrogênio talvez não esteja nos automóveis de passeio: as baterias apresentam limitações importantes em aplicações de alta demanda energética. Caminhões pesados, ônibus de longa distância, mineração, máquinas agrícolas, transporte marítimo e aviação enfrentam desafios muito maiores para a eletrificação e, em muitos desses casos, o peso das baterias torna-se proibitivo. A necessidade de recargas extremamente rápidas e de operação praticamente contínua transforma o hidrogênio em uma solução extremamente atraente. Não por acaso, algumas das maiores empresas do planeta continuam investindo bilhões de dólares nessa tecnologia: Toyota, Hyundai, Daimler Truck, Cummins, Airbus e diversos grupos da indústria naval acreditam que o hidrogênio poderá desempenhar papel fundamental na economia mundial das próximas décadas.
Talvez o aspecto mais fascinante dessa revolução esteja fora da indústria automobilística.
Ao longo do século XX, o petróleo moldou a geopolítica global. Guerras, alianças internacionais, estratégias militares e o crescimento econômico de inúmeras nações foram determinados pela localização das reservas petrolíferas. O hidrogênio possui potencial para criar um novo mapa energético mundiale, pela primeira vez em mais de um século, países sem petróleo podem transformar-se em grandes potências energéticas.
Nações capazes de produzir eletricidade renovável abundante e barata poderão tornar-se exportadoras de hidrogênio verde. E poucos países encontram-se em posição tão privilegiada quanto o Brasil. A combinação de enormes recursos hidrelétricos, uma das maiores capacidades eólicas do planeta e extraordinário potencial solar coloca o país entre os candidatos naturais à liderança desse novo mercado. O Nordeste brasileiro, em particular, reúne condições excepcionais: projetos bilionários começam a surgir em estados como Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Piauí.
Os portos estão sendo adaptados para exportação de hidrogênio e derivados, memorandos internacionais são assinados e investidores globais acompanham atentamente o desenvolvimento dessa nova indústria. E as consequências econômicas podem ser gigantescas. Estamos falando da possibilidade de atração de dezenas de bilhões de dólares em investimentos; criação de novas cadeias industriais; geração de milhares de empregos altamente qualificados; desenvolvimento tecnológico nacional; fortalecimento da posição estratégica brasileira no cenário internacional.
Pela primeira vez em muitas décadas, o Brasil possui a oportunidade concreta de assumir protagonismo em uma transformação energética global.
E quando vamos ver isso acontecer? Depende da escala considerada.
Do ponto de vista tecnológico: já é possível hoje. Como mercado de nicho, já ocorre em diversos países e como mercado relevante: entre 2030 e 2035. Mas como mercado de massa global: provavelmente após 2040, caso os desafios econômicos e de infraestrutura sejam superados.
E talvez a maior lição dessa nova revolução seja outra.
O futuro da mobilidade dificilmente será dominado por uma única tecnologia. Os veículos elétricos deverão prevalecer em boa parte da mobilidade urbana e os híbridos continuarão desempenhando papel fundamental durante as próximas décadas. E o hidrogênio poderá tornar-se indispensável justamente nos setores mais difíceis de descarbonizar. Talvez estejamos diante de algo muito maior do que uma simples mudança de combustível e estejamos assistindo ao nascimento de uma nova ordem energética mundial.
Uma transformação capaz de redefinir a indústria automobilística, reorganizar cadeias econômicas globais e alterar o equilíbrio geopolítico construído ao longo de mais de um século de dependência do petróleo.
E, desta vez, o Brasil pode não ser apenas um espectador. Pode tornar-se um dos protagonistas dessa nova era, porque, silenciosamente, essa nova corrida energética já começou por aqui.
E ela poderá ser movida não pelo petróleo, mas pelo elemento mais abundante do universo.
Que temos sobrando.