
A etapa de Mid-Ohio da IndyCar entregou muito mais do que uma corrida.
O tradicional circuito de Lexington, em Ohio, tornou-se o palco onde uma equipe brilhou, um piloto encerrou um longo jejum de vitórias, o campeonato ganhou novos contornos e, nos bastidores, uma das maiores mudanças de pilotos da categoria nos últimos anos definia seus contornos.
Poucos dias antes da largada, o paddock já estava agitado. A confirmação de que Scott Dixon deixará a Chip Ganassi Racing ao término da temporada colocou todos os holofotes sobre duas das principais equipes da categoria. Enquanto a Ganassi passa a buscar um substituto para aquele que construiu uma das carreiras mais vitoriosas da história da IndyCar, a Arrow McLaren viu crescer as especulações sobre como reorganizará seu elenco para receber um piloto de seis títulos da categoria.
E Christian Lundgaard, justamente um dos destaques da temporada, passou a ser citado como possível peça desse grande efeito dominó.
Se havia alguma dúvida sobre como o dinamarquês reagiria à pressão, ela desapareceu no sábado. Lundgaard colocou o Arrow McLaren/Chevrolet #7 na pole position com uma volta impecável. Ao seu lado, Pato O’Ward classificou o carro #5 na segunda posição, garantindo uma primeira fila completamente laranja para a equipe de Zak Brown. Era a confirmação de algo que vinha sendo percebido desde o início do fim de semana: a McLaren havia encontrado um acerto que nenhuma outra equipe conseguira igualar.
Atrás deles vinham nomes acostumados a lutar por vitórias, como Kyle Kirkwood, Álex Palou, Scott Dixon, Will Power e Josef Newgarden. Mas o ritmo demonstrado pela McLaren tanto em voltas rápidas quanto em simulações de corrida indicava que o restante do grid precisaria contar com estratégia ou algum imprevisto para impedir uma vitória da equipe.
Dixon, entretanto, teve um sábado complicado. Durante a classificação, envolveu-se em um incidente com Romain Grosjean, recebeu penalização e acabou largando mais atrás do que imaginava justamente no fim de semana em que todo o paddock discutia seu futuro.
No domingo, porém, qualquer expectativa de uma corrida movimentada por acidentes desapareceu logo após a largada.
Quando as luzes se apagaram, Christian Lundgaard largou com perfeição e manteve a liderança até a aproximação da primeira curva. Pato O’Ward encaixou-se imediatamente atrás do companheiro de equipe, enquanto Kyle Kirkwood conseguiu preservar a terceira posição. Álex Palou realizou uma largada limpa e começou imediatamente seu trabalho de recuperação depois de partir apenas da oitava colocação.
Nas primeiras voltas, Lundgaard tentou abrir vantagem. O dinamarquês conhecia bem a importância de controlar o ritmo em Mid-Ohio, um circuito estreito, técnico e tradicionalmente difícil para ultrapassagens. Ainda assim, O’Ward nunca permitiu que a diferença ultrapassasse alguns décimos de segundo.
Já se tinha uma certeza: a vitória seria decidida entre os dois pilotos da McLaren.
Enquanto isso, o restante do pelotão começava sua batalha estratégica. Sem bandeiras amarelas, cada equipe precisava decidir o momento ideal para entrar nos boxes. Qualquer erro significaria perder posições praticamente impossíveis de recuperar na pista.
Álex Palou, líder do campeonato, apostou em uma estratégia diferente da adotada pelos carros da frente. Sabendo que seu ritmo não seria suficiente para disputar diretamente a vitória, concentrou esforços em ganhar posições durante os ciclos de pit stop, explorando pneus em melhores condições e voltas rápidas com tanque mais leve.
Scott Dixon também apostava na estratégia para compensar sua posição de largada, enquanto pilotos como Felix Rosenqvist, Marcus Armstrong e Will Power buscavam permanecer próximos dos líderes esperando uma eventual neutralização, que nunca veio: durante as 90 voltas da corrida, a bandeira amarela não apareceu uma única vez. Foi a primeira prova da temporada disputada integralmente em bandeira verde, transformando engenheiros e estrategistas em protagonistas quase tão importantes quanto os pilotos.
O momento decisivo aconteceu na volta 42: depois de passar praticamente metade da corrida estudando cada movimento de Lundgaard, Pato percebeu uma pequena perda de tração do companheiro na saída da curva 2. Aproveitou a melhor aceleração, colocou o McLaren #5 por dentro e assumiu a liderança numa das ultrapassagens mais importantes da temporada. A partir daquele instante, a equipe apenas administrou a corrida.
Sem cometer erros, Pato passou a controlar a vantagem, enquanto Lundgaard permaneceu sempre próximo, mas sem encontrar oportunidade para um contra-ataque. A McLaren optou por não interferir na disputa entre seus pilotos, mas também evitou qualquer situação que pudesse colocar em risco uma dobradinha histórica.
Atrás deles, Kyle Kirkwood fez talvez a corrida mais eficiente entre os adversários. Sem possuir velocidade suficiente para acompanhar os dois McLaren, manteve um ritmo constante, aproveitou pequenas perdas de tempo dos concorrentes e garantiu o terceiro lugar para a Andretti Global/Honda #27.
Um dos grandes destaques do domingo foi Rinus VeeKay. O holandês levou a Dale Coyne Racing/Honda #18 a um surpreendente quarto lugar, resultado que representa um dos melhores desempenhos da equipe em toda a temporada.
Álex Palou completou outra atuação típica de um candidato ao título. Longe de ter o carro mais rápido, evitou riscos desnecessários, ganhou posições gradualmente e transformou um fim de semana complicado em um quinto lugar extremamente valioso para o campeonato. Ao receber a bandeirada, encerrava um jejum de vitórias que já durava desde a temporada anterior.
Mais do que isso. Conduzia sua equipe à sua primeira dobradinha desde a entrada definitiva da equipe na IndyCar.
Os números ajudam a explicar o domínio: Christian Lundgaard liderou 41 voltas, Pato liderou outras 45. Dos 90 giros disputados, 86 tiveram um carro papaya na primeira posição. Foi uma demonstração de superioridade construída não apenas pela velocidade dos pilotos, mas principalmente pela consistência do conjunto. A equipe executou todos os pit stops sem erros, trabalhou com precisão nas estratégias de combustível e pneus e administrou a corrida praticamente do início ao fim.
Enquanto isso, nos boxes, continuavam as conversas sobre o mercado de pilotos.
A confirmação da saída de Scott Dixon da Chip Ganassi Racing abriu oficialmente a principal disputa dos bastidores para 2027. Christian Lundgaard aparece entre os nomes cotados para substituir o neozelandês, enquanto a McLaren prepara a chegada daquele que muitos consideram o maior desenvolvedor de carros da IndyCar moderna.
Independentemente de como esse quebra-cabeça será montado, Mid-Ohio deixou uma mensagem bastante clara: a McLaren já não depende apenas do talento individual de Pato O’Ward. Hoje possui dois pilotos capazes de disputar vitórias, uma equipe técnica extremamente consistente e um carro que finalmente parece reunir velocidade, equilíbrio e confiabilidade para desafiar a hegemonia recente da Chip Ganassi Racing.
No campeonato, Álex Palou continua líder graças à regularidade construída ao longo da temporada. Entretanto, pela primeira vez em muitos meses, a sensação no paddock é que a categoria ganhou um novo protagonista coletivo.
A corrida de Mid-Ohio talvez seja lembrada no futuro não apenas pela vitória de Pato O’Ward.
Pode ter sido o domingo em que a Arrow McLaren mostrou definitivamente que deixou de ser apenas uma equipe veloz para se transformar em uma legítima candidata ao título da IndyCar.