USA – corridas de rua valem a pena?

por Gildo Pires

Esse é um assunto recorrente nos grupos de aficionados pelo automobilismo mundial, que ganha destaque quando olhamos para o mercado norrte-americano. Quando a paixão obscurece a razão e dificulta o discernimento entre o que é bom e o que realmente faz o bem, torna-se necessário um instante de reflexão.

O ronco dos motores de alta performance costuma ser apresentado como o som do progresso econômico. Em cidades norte-americanas que recebem provas da NASCAR ou da IndyCar, a promessa é quase sempre a mesma: turismo em massa, hotéis cheios, restaurantes lotados e uma injeção de capital capaz de justificar, por si só, o fechamento temporário de grandes áreas urbanas. A narrativa é poderosa, repetida por promotores, governos locais e campanhas de marketing. Mas quando essa promessa é colocada sob a luz de dados econométricos, auditorias fiscais e estudos urbanos de longo prazo, o que aparece é uma história bem menos simétrica, e muito mais controversa.

A base dessa discussão vem de um conjunto de pesquisas que inclui o trabalho NASCAR as a Public Good, de Dennis Coates e David Gearhart, que analisou mais de 140 áreas metropolitanas nos Estados Unidos ao longo de mais de uma década. A conclusão central, frequentemente ignorada no debate público, é que a presença de pistas e grandes eventos automobilísticos não produz efeitos estatisticamente significativos sobre variáveis fundamentais da economia urbana, como renda média ou valorização imobiliária. Em termos simples, a cidade não fica mais rica de forma estrutural apenas por sediar corridas.

Esse dado, por si só, já desmonta uma parte importante do discurso promocional. Mas o ponto mais sensível aparece quando a análise sai do campo das projeções de receita e entra na engenharia real dos contratos públicos. Os chamados Relatórios de Impacto Econômico (EIRs), usados para justificar a realização desses eventos, frequentemente dependem de multiplicadores de impacto que ampliam artificialmente o efeito econômico estimado. É aqui que surgem distorções recorrentes.

Um dos mecanismos mais citados por pesquisadores críticos é o que pode ser chamado de “fator itinerante”: grande parte da força de trabalho envolvida em uma corrida (equipes técnicas, produção televisiva, fornecedores especializados) não pertence à cidade-sede. Ela chega, opera durante alguns dias e parte em seguida, levando consigo boa parte da renda gerada. O dinheiro circula, mas não se enraíza na economia local.

Outro ponto recorrente é a chamada “falácia da ocupação diária”. Promotores de circuitos permanentes frequentemente argumentam que a infraestrutura será utilizada ao longo do ano por escolas de pilotagem, eventos menores ou atividades promocionais. No entanto, estudos de viabilidade mostram que, em muitos casos, essa utilização adicional não é suficiente para compensar os custos de construção, manutenção e depreciação de estruturas que podem ultrapassar centenas de milhões de dólares ao longo de sua vida útil.

A crença de que eventos esportivos agem como motores de desenvolvimento regional é um dos dogmas mais persistentes da gestão urbana. Contudo, investigações jornalísticas e acadêmicas recentes nos Estados Unidos mostram que o custo para as prefeituras é, muitas vezes, uma via de mão única. Dados de jornais como o The Athletic e investigações do Journal of Urban Economics apontam que, na última década, cidades americanas gastaram bilhões de dólares em subsídios para infraestrutura esportiva, com retornos fiscais que raramente ultrapassam 10% a 20% do investimento inicial.

No caso específico da NASCAR, relatórios sobre eventos de grande porte indicam que, enquanto o impacto total na economia estadual pode ser anunciado na casa dos US$ 42 milhões, o impacto direto no orçamento municipal é frequentemente engolido por gastos com segurança pública e infraestrutura logística. Uma investigação do The Chicago Tribune sobre eventos de rua demonstrou que, em cidades como Chicago, o custo de montagem e as despesas com serviços de emergência podem chegar a milhões de dólares por evento, exigindo que a receita gerada pelo turismo seja astronômica para sequer atingir o ponto de equilíbrio (break-even) para a prefeitura.

Quando o foco se desloca para os circuitos urbanos da IndyCar, o debate ganha outra camada: o custo direto da transformação da cidade. Em 2026, auditorias municipais e relatórios de gestão urbana em cidades-sede indicam que os chamados “custos operacionais invisíveis” (especialmente horas extras de policiamento, controle de tráfego e serviços de emergência) podem variar entre US$ 300 mil e US$ 600 mil por fim de semana de evento. Esses valores, em muitos casos, não são totalmente reembolsados pelos promotores privados, ficando parcialmente absorvidos pelo orçamento público.

Ao mesmo tempo, o retorno fiscal direto (imposto sobre vendas, taxas de serviços e consumo incremental) raramente cobre a totalidade dos investimentos públicos necessários para adaptar a cidade ao evento. Em diversos casos analisados, esse retorno não ultrapassa cerca de 20% do gasto público total associado à infraestrutura temporária e à operação urbana da corrida.

Se olharmos para a tecnologia aplicada, a sofisticação é inegável. Nos pneus Michelin do WEC, o desenho de blocos intertravados é uma obra-prima de engenharia que garante performance onde a física comum falharia. Mas há uma ironia: assim como o pneu precisa de rigidez para não colapsar sob carga, as cidades precisam de estruturas sólidas para não sucumbirem ao caos logístico de um GP de rua.

Quando transpomos esse cenário para a IndyCar, o desafio urbano é latente. O The New York Times, em análises sobre o impacto de circuitos temporários, destacou que o “preço da visibilidade” é pago pela população local através de interrupções comerciais prolongadas. Pequenos empresários relatam quedas de até 30% no faturamento durante o período de montagem e desmontagem das pistas, um prejuízo que nunca é contabilizado nos estudos otimistas de impacto econômico apresentados aos conselhos municipais.

Esse conjunto de efeitos ajuda a explicar por que o debate sobre corridas urbanas e autódromos frequentemente ultrapassa o esporte e entra no campo da política pública. A questão central deixa de ser apenas econômica e passa a ser institucional: até que ponto o investimento público em eventos de entretenimento privado pode ser justificado como “bem público”?

Em termos teóricos, um bem público deveria aumentar a utilidade coletiva de forma ampla e sustentável. No entanto, quando o custo de oportunidade entra na equação, o quadro se torna mais sensível. Cada dólar direcionado para subsidiar infraestrutura de um circuito ou operação de uma corrida urbana é um dólar que deixa de ser aplicado em áreas como saneamento, saúde ou educação. É uma escolha orçamentária, não apenas uma decisão esportiva.

Esse ponto tem ganhado força no debate político urbano nos Estados Unidos. Em cidades como Seattle e Nova York, propostas de apoio público a eventos de corrida enfrentam resistência crescente. Pesquisas de opinião recentes indicam que cerca de 65% dos eleitores urbanos são contrários ao uso de fundos públicos para subsidiar eventos esportivos que beneficiam principalmente promotores privados e setores específicos da economia de entretenimento. O incômodo não está apenas no barulho dos motores ou nos engarrafamentos temporários, mas na percepção de que o risco financeiro é socializado enquanto os benefícios são concentrados.

Quando se cruza essa resistência com os dados econômicos de longo prazo, o quadro fica mais claro. O que emerge não é uma condenação do automobilismo como espetáculo ou indústria, mas uma crítica à forma como ele é financiado e integrado às cidades. A “guerra dos subsídios esportivos”, na qual cidades competem entre si para atrair eventos, passa a ser vista sob outra lente: não como estratégia inevitável de desenvolvimento, mas como disputa fiscal assimétrica.

É nesse ponto que a discussão retorna ao trabalho de Coates e Gearhart. Ao questionar a existência de impactos econômicos robustos e sustentados, esses estudos deslocam o debate do entusiasmo para a contabilidade. E a contabilidade, nesse caso, é menos emocional do que o marketing urbano.

No fim, o que essa literatura sugere não é o fim das corridas, nem a negação de seu valor cultural ou esportivo. É algo mais simples e mais desconfortável: a necessidade de separar com mais rigor o espetáculo da economia, e a promessa da evidência.

Porque quando a última volta termina e as barreiras são removidas, a cidade volta a ser ela mesma. A pergunta que permanece não é se o evento foi bem-sucedido no domingo da corrida, mas se o modelo que o sustenta ainda faz sentido na segunda-feira seguinte, quando as contas chegam, o trânsito volta ao normal, e o impacto real precisa, finalmente, ser pago por alguém.

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