
Nenhum esporte sobrevive sem confiança.
Não é o regulamento que sustenta uma competição. Não são os contratos de televisão. Não são os patrocinadores.
É a confiança.
A confiança de que todos estão competindo sob as mesmas regras. A confiança de que uma infração será punida independentemente do nome estampado no carro. A confiança de que uma vitória foi conquistada na pista e não nos corredores do poder.
Quando essa confiança começa a ser questionada, mesmo que não exista prova concreta de favorecimento, o dano para o esporte já começou.
A IndyCar oferece atualmente um dos exemplos mais relevantes desse desafio.
Nos últimos anos, a categoria viu crescer uma discussão que jamais deveria ocupar tanto espaço: a credibilidade de sua estrutura de fiscalização. A razão é simples: Roger Penske é proprietário da categoria, é proprietário do Indianapolis Motor Speedway e o proprietário da equipe mais vitoriosa da história do campeonato.
Mesmo que todos os profissionais envolvidos atuem com absoluta integridade, a simples existência dessa estrutura cria um problema inevitável de percepção. O esporte moderno não depende apenas de ser justo. Ele precisa parecer justo.
E são duas coisas completamente diferentes.
Quando uma equipe é punida, ninguém questiona. Quando uma equipe ligada ao proprietário da categoria é punida, todos observam. Quando uma equipe ligada ao proprietário da categoria não é punida, todos observam ainda mais.
Os recentes episódios envolvendo infrações técnicas da Team Penske provocaram exatamente esse tipo de reação dentro do paddock. Equipes rivais passaram a questionar publicamente não apenas as irregularidades encontradas, mas também como elas não haviam sido detectadas anteriormente.
Nesse momento surge o maior risco para qualquer campeonato.
A dúvida.
Não a prova.
A dúvida.
Porque uma prova pode ser investigada. Uma dúvida permanente corrói a credibilidade todos os dias. É justamente por isso que a IndyCar decidiu promover uma profunda reformulação de sua estrutura de arbitragem e fiscalização, criando um organismo independente para supervisionar direção de prova, comissários desportivos e inspeções técnicas.
A decisão, por si só, já representa um reconhecimento institucional de que a percepção pública havia se tornado um problema.
Alguns torcedores perguntam: “Os comissários têm medo de contrariar Roger Penske?” Não existe evidência pública que permita responder “sim”. Mas talvez essa seja a pergunta errada.
A pergunta correta é: “Por que essa dúvida existe?”
Quando uma parcela significativa do paddock, da imprensa e dos fãs começa a levantar esse questionamento, o problema deixa de ser uma pessoa. O problema passa a ser a estrutura. Nenhum diretor de prova consegue trabalhar adequadamente quando cada decisão é analisada sob a lente da suspeita. Nenhum comissário técnico consegue preservar sua autoridade quando parte do público acredita que existe influência externa. Nenhum piloto consegue confiar plenamente no sistema quando interpretações diferentes do regulamento parecem gerar consequências diferentes. E nenhum patrocinador gosta de investir milhões de dólares em um ambiente onde a palavra mais repetida deixa de ser competição para se tornar credibilidade.
A história do esporte mostra que campeonatos fortes são construídos sobre instituições fortes. A Fórmula 1 enfrentou esse desafio. A NASCAR enfrentou esse desafio. A IndyCar agora enfrenta o seu.
O objetivo não é provar que existe favorecimento; é construir um sistema onde ninguém sequer considere essa possibilidade. Porque, no fim das contas, o torcedor não quer analisar processos disciplinares. Ele quer discutir ultrapassagens.
Não quer debater estruturas de governança. Quer falar dos pilotos.
Quando diretores de prova, comissários e inspetores técnicos passam a ocupar mais espaço nas manchetes do que os competidores, algo está profundamente errado.
Em qualquer esporte. Em qualquer época. E em qualquer categoria do mundo.
(imagem meramente ilustrativa)