Hidrogênio: o combustível que pode salvar o ronco dos motores

por Gildo Pires
Toyota H24EVO – WEC SP 2026 – foto: Gildo Pires

Como já dissemos anteriormente, durante mais de um século, o automobilismo serviu como o mais sofisticado laboratório da indústria automotiva. Dos freios a disco aos motores turbo, das fibras de carbono aos sistemas híbridos, inúmeras tecnologias percorreram primeiro os autódromos antes de chegarem às ruas.

O hidrogênio pretende seguir exatamente esse caminho. A diferença é que, desta vez, a discussão ultrapassa a mera busca por desempenho e o que está em jogo é a tentativa de preservar a própria essência do esporte a motor em um mundo cada vez mais pressionado pela descarbonização.

As primeiras experiências esportivas envolvendo o hidrogênio são muito mais antigas do que normalmente se imagina. Ainda na década de 1990, a BMW utilizou o automobilismo e eventos de demonstração para validar pesquisas que posteriormente dariam origem ao programa Hydrogen 7 e, naquele momento, entretanto, o desenvolvimento ainda era visto como uma curiosidade tecnológica.

Foi somente no século XXI que o assunto começou a ganhar dimensão competitiva.

Em 2007, a FIA organizou, durante o Mundial de Turismo, algumas demonstrações de veículos movidos por células de combustível, buscando chamar atenção para combustíveis alternativos. Embora ainda embrionárias, aquelas iniciativas mostravam que o automobilismo começava a discutir seriamente seu futuro energético.

Extreme-E

Poucos anos depois, outro personagem entraria em cena. Alejandro Agag, empresário espanhol responsável pela criação da Fórmula E em 2014, compreendeu rapidamente que a eletrificação pura talvez não fosse a resposta para todas as formas de mobilidade e competição. Depois do sucesso inicial da categoria elétrica, Agag passou a defender publicamente o hidrogênio como a próxima grande revolução do esporte a motor.

Em 2020, ele anunciou a criação da Extreme H, categoria concebida para substituir gradualmente a Extreme E e tornar-se o primeiro campeonato internacional de alto nível movido exclusivamente a hidrogênio. A ideia era extremamente ambiciosa e, se a Extreme E utilizava SUVs elétricos para chamar atenção para as mudanças climáticas, a Extreme H passaria a utilizar células de combustível alimentadas por hidrogênio verde, produzido a partir de fontes renováveis e transportado para os locais das corridas utilizando sistemas desenvolvidos especificamente para a categoria.

Mais importante do que as corridas em si era a mensagem: Agag pretendia transformar a Extreme H em uma vitrine tecnológica global, exatamente como a Fórmula E fez com os veículos elétricos. Fabricantes, empresas de energia e governos passaram imediatamente a acompanhar o projeto. A categoria, inicialmente prevista para estrear em 2024 e posteriormente adiada para 2025 e 2026, deverá utilizar uma evolução dos atuais Odyssey 21 da Extreme E, agora equipados com células de combustível de hidrogênio. Os organizadores afirmam que o campeonato será o primeiro do mundo a operar integralmente utilizando hidrogênio verde em sua cadeia energética.

A entrada de Agag no setor teve enorme impacto porque demonstrou que o hidrogênio deixava de ser apenas um tema de engenharia para tornar-se um produto esportivo e comercial. Mas a verdadeira revolução continuava acontecendo em Le Mans e em 2018, o Automobile Club de l’Ouest e a FIA lançaram oficialmente o programa MissionH24, talvez a iniciativa mais importante da história do hidrogênio no automobilismo. O objetivo era claro: criar uma futura categoria de protótipos movidos a hidrogênio para as 24 Horas de Le Mans.

LMPH2G

O primeiro passo ocorreu com o desenvolvimento do LMPH2G, protótipo experimental construído pela GreenGT. O veículo serviu como plataforma inicial para estudos de segurança, armazenamento e reabastecimento. Em 2019 surgiu o H24, primeiro carro desenvolvido especificamente para competir utilizando hidrogênio e os números impressionavam: o protótipo utilizava quatro tanques armazenando hidrogênio a aproximadamente 700 bar de pressão e um conjunto de células de combustível capaz de gerar cerca de 300 kW de potência, equivalentes a aproximadamente 400 cavalos.

H24

Em 2021, o carro realizou demonstrações durante o fim de semana das 24 Horas de Le Mans, transformando-se em uma das atrações do evento. Já em 2022 foi apresentado o H24EVO, uma evolução muito mais sofisticada. O novo protótipo possuía potência superior a 800 cavalos, peso reduzido e desempenho considerado compatível com categorias de alto nível do endurance. O objetivo declarado do ACO era introduzir uma categoria de hidrogênio em Le Mans inicialmente prevista para 2024, depois postergada para 2026 e, posteriormente, para o final desta década, refletindo a enorme complexidade técnica do projeto.

Enquanto os europeus apostavam nas células de combustível, o Japão escolheu outro caminho. Em maio de 2021, a Toyota inscreveu o ORC Rookie GR Corolla H2 Concept no campeonato Super Taikyu. O carro utilizava um motor de três cilindros turbo derivado do GR Yaris, mas adaptado para queimar hidrogênio. O impacto simbólico foi gigantesco e, pela primeira vez em muitos anos surgia a possibilidade de manter vivos o ronco, as vibrações e a experiência emocional dos motores de combustão em uma era de crescente eletrificação.

ORC Rookie GR Corolla H2 Concept

Akio Toyoda, então presidente da companhia, participou pessoalmente de diversas provas utilizando o pseudônimo “Morizo”. Mais do que marketing, tratava-se de um programa de desenvolvimento extremamente sério. Em apenas dois anos, a Toyota conseguiu aumentar a potência do carro em aproximadamente 30%, elevar significativamente a autonomia e reduzir os tempos de reabastecimento em cerca de 40%. Em 2022, a equipe passou a utilizar hidrogênio produzido a partir de energia renovável e, em 2023, iniciou testes utilizando hidrogênio líquido, uma tecnologia extremamente complexa devido às temperaturas criogênicas necessárias.

A evolução culminou na apresentação do GR H2 Racing Concept, revelado durante as 24 Horas de Le Mans de 2023.

GR H2 Racing Concept

Pouco depois, a Alpine apresentou o espetacular Alpenglow, protótipo desenvolvido especificamente para explorar a combustão de hidrogênio em alta performance. Inicialmente equipado com um motor V6 e posteriormente evoluindo para configurações mais potentes, o projeto francês tornou-se um manifesto em defesa da sobrevivência do motor térmico.

Até mesmo categorias tradicionalmente conservadoras começaram a observar o movimento e a FIA criou grupos de trabalho específicos para estudar aplicações do hidrogênio em diferentes modalidades. Fabricantes envolvidos na Fórmula 1 acompanham atentamente os avanços, enquanto diversas empresas fornecedoras passaram a investir pesadamente em sistemas de armazenamento, abastecimento e segurança. Isso porque o hidrogênio oferece algo que nenhuma outra tecnologia consegue entregar simultaneamente e permitia imaginar um futuro de baixas emissões sem necessariamente eliminar elementos que constituem a própria cultura do automobilismo.

Alpenglow

Naturalmente, os desafios permanecem enormes: armazenar hidrogênio exige tanques de altíssima pressão ou temperaturas próximas de -253 graus Celsius. O reabastecimento em ambiente competitivo demanda novos protocolos de segurança e toda a infraestrutura precisa ser desenvolvida praticamente do zero. Mas a história do automobilismo demonstra que grandes revoluções raramente são simples: Os motores traseiros foram inicialmente considerados perigosos, os turbocompressores pareciam inviáveis, os híbridos foram recebidos com enorme desconfiança antes de se transformarem em referência tecnológica.

Talvez o hidrogênio esteja percorrendo exatamente o mesmo caminho. E não deixa de ser simbólico que essa nova revolução esteja surgindo simultaneamente em Le Mans, no Japão e nos desertos e geleiras percorridos pela futura Extreme H. Pela primeira vez desde o início da eletrificação, o automobilismo parece ter encontrado uma tecnologia capaz de conciliar inovação, sustentabilidade e emoção.

Se ela conseguirá cumprir essa promessa, apenas o tempo dirá. Mas uma coisa já parece evidente: a corrida do hidrogênio deixou de ser um exercício teórico. Ela já começou e suas primeiras voltas estão sendo dadas agora, diante dos olhos de uma indústria que talvez esteja assistindo ao nascimento da próxima grande era do esporte a motor.

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