F1: A união improvável que salvou o GP do Brasil

por Sergio Milani

Um empresário-piloto-dirigente e uma prefeita de esquerda recém-chegada ao posto. Como Piero Gancia e Luiza Erundina salvaram o GP do Brasil de F1.

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Abril de 1989. A temporada da F1 daquele ano mal havia começado, mas as negociações para o futuro da categoria já seguiam a todo vapor. A primeira etapa daquele ano foi o GP do Brasil, disputado em Jacarepaguá, Rio de Janeiro. Desde 1981, a cidade recebia a prova da categoria máxima do automobilismo, principalmente por desavenças entre a organização e a Prefeitura de São Paulo sobre adaptações que Interlagos necessitaria.

Desde 1979, a organização do GP do Brasil deixou de ser da Confederação Brasileira de Automobilismo e passou às mãos de Bernie Ecclestone, então dono da Brabham e comandante da associação de construtores, a FOCA. Por conta disso, as negociações para a extensão do acordo com a Prefeitura do Rio de Janeiro, através da RIOTUR (Empresa de Turismo do Município) tiveram início.

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1989 foi um ano começou complicado para o Rio de Janeiro. Além da desorganização causada pela hiperinflação, o município estava praticamente falido. O prefeito de então, Saturnino Braga, tinha enfrentado uma das maiores enchentes da história no início de 1988 e não recebeu toda a ajuda prometida pelo Governo Federal. Além disso, a Câmara de Vereadores, já em pé de guerra com o prefeito, vetou um pacote de reajuste de impostos e corte de despesas. Em 15 de setembro de 1988, Saturnino Braga foi à TV e disse que o Município estava falido, já que o Banco Central havia mandado bloquear as contas da Prefeitura.

Em novembro de 1988, na ressaca da aprovação da nova Constituição, o Brasil teve eleições para as prefeituras e câmaras municipais. No Rio de Janeiro, Marcello Alencar, que já tinha sido Prefeito entre 1983 e 1985 (o último alcaide nomeado), foi eleito. E coube a ele assumir, entre outras tarefas, a renovação do acordo para que a F1 seguisse no Rio de Janeiro.

A edição do GP do Brasil de 1989 ficou marcada pelo acidente de Philippe Streiff na pré-temporada (uma sequência de fatos que levaram muitos a jogar a culpa da paraplegia do piloto) e pela morte de um espectador por cair de uma das arquibancadas tubulares pela movimentação de uma das tábuas de sustentação.

Mesmo assim, havia a intenção de permanecer. Porém, havia o pedido de Ecclestone e da FISA (então braço esportivo da FIA) para que Jacarepaguá passasse por reformas estruturais. E o pagamento da taxa de realização, obviamente. O que parecia certo, foi barrado por dois motivos: a Prefeitura tinha outras prioridades naquele momento em relação à F1 e também membros da RIOTUR teriam pedido dinheiro a Ecclestone para que o acordo fosse assinado.

Diante do quadro, Ecclestone resolveu mandar os cariocas às favas e não foi acertada a renovação. Naquela época, vários locais se estapeavam para receber a F1 e não seria difícil encontrar um substituto para Jacarepaguá.

A Operação Salvamento começa

As notícias da não-renovação do acordo logo chegam à Piero Gancia, Presidente da Confederação Brasileira de Automobilismo. O italiano tinha uma extensa lista de serviços prestados ao automobilismo nacional, não só como dirigente: mas foi piloto entre as décadas de 60 e 70, se notabilizando com os Alfa Romeo do time Jolly-Gancia.

Carlo Gancia comum de seus Alfa de competição (fonte: Diário Motorsport)

Mas Gancia era principalmente um empresário: vindo para a América da Sul após a 2ª Guerra Mundial, Piero veio para ajudar nos negócios da família, que tinha escapado para a Argentina. Em 1952, se muda para o Brasil e se baseia em São Paulo. Aí também expande os negócios (que posteriormente serão comprados pela Martini & Rossi, onde comanda as operações até 1992) e cai de cabeça no automobilismo

Por conta de suas ligações desportivas e empresariais, Gancia recebeu o recado da FISA: o Brasil vai perder seu GP. Através de emissários de Ecclestone, outro recado chegou: ainda há chance de salvar.

Naquele momento, o Brasil não tinha muitas opções de autódromos em condições de receber a F1: Goiânia havia recebido a MotoGP, mas o traçado era muito curto. Brasília havia recebido uma prova extra-campeonato em 1974, mas uma reforma ampla teria que ser feita. Havia uma opção: Interlagos.

Àquela altura, Interlagos era praticamente um elefante branco. Desde 1980, quando a F1 tinha passado pelo autódromo, pouquíssima coisa havia sido feita em termos de estrutura. No máximo, havia pintura e corte de grama. Mesmo assim, Interlagos ainda recebia as principais categorias nacionais, as Mil Milhas Brasileiras e a F2 Sul-Americana.

Naquele 1989, São Paulo também tinha Prefeito novo. Ou melhor, Prefeita: Luiza Erundina. A paraibana foi escolhida pelo Partido dos Trabalhadores e foi eleita para suceder Janio Quadros, batendo Paulo Maluf. Àquela altura, Interlagos não era uma das prioridades da nova gestão. Inclusive alguns no secretariado defendiam que a área fosse transformada em condomínio de casas populares.

Gancia procurou Erundina com uma ideia fixa: Interlagos teria que receber novamente a F1. Em sua exposição, Gancia disse que o GP estava em risco e que a F1 seria uma ótima forma de divulgar o nome da cidade no mundo, dado o alcance da categoria. Gancia também apelou para o peso dos campeões brasileiros na F1 e da história de Interlagos.

Erundina escutou e procurou o seu Secretário de Esportes, o jornalista Juarez Soares, para tratar do assunto. Deu-se o seguinte diálogo:

Prefeita Luiza Erundina – “Secretário, para continuarmos a ter autódromo em São Paulo o senhor terá de trazer a F1. Do contrário vou construir casas populares e um hospital no local. A área de Interlagos tem aproximadamente um milhão de metros quadrados”.

– Secretário Juarez Soares – “Vamos fazer o seguinte. A senhora reforma o autódromo e eu trago a F1”.

– Prefeita Luiza Erundina – “Não, não. O senhor traz a F1 e eu reformo o autódromo”.

– Secretário Juarez Soares – “Mas tem dinheiro”?

– Prefeita Luiza Erundina – “Nem um tostão”

Começou-se a busca do impossível. Em 18 de abril de 1989, Carlo Gancia se encontrou com Luiza Erundina na Prefeitura e ali é feito o anúncio oficial: A Prefeitura de São Paulo iria reformar Interlagos para que o GP do Brasil continuasse no calendário da F1 para 1990.

O incansável Chico Rosa estava à frente da administração de Interlagos e já tinha ideias para o projeto. Inicialmente, se pensava numa solução que mantivesse boa parte do traçado original de 7.823 metros e ainda mantivesse o anel externo. No dia do anuncio, a primeira proposta era simplesmente fazer uma chicane antes da Curva 3 e um trecho para ligar o resto do traçado… (foto acima)

Porém, uma intensa discussão começou: era preciso reduzir o tamanho. E ainda havia a ideia não tão velada de Bernie Ecclestone de inviabilizar o uso do anel externo para impedir que a IndyCar pudesse ir para Interlagos. Emerson Fittipaldi chegou a negociar em 1985 e 1986, mas, entre vários motivos, houve um “aviso” sobre isso: se a prova fosse disputada, adeus OK da FISA.

Em paralelo, uma operação de guerra teve início para viabilizar financeiramente a reforma. Houve uma série de conversas com órgãos estatais e várias empresas. A solução mais incrível veio de onde menos se esperava: a petroleira neerlandesa Shell.

Àquela altura, a Shell estava diretamente vinculada à Ayrton Senna, graças à ligação da petroleira com a McLaren. E houve um empurrão do brasileiro para a conclusão do negócio, a pedido de Erundina. Ficou acordado que a Shell bancaria a reforma de Interlagos e em contrapartida o Município cederia áreas na cidade para que fossem abertos postos de combustível. Algo estimado em US$ 3,5 milhões. Ainda havia acordo para que 50 ônibus fossem entregues à frota CMTC e a Shell ainda cederia um percentual do faturamento destes postos à Prefeitura.

Piero Gancia usou de toda sua influencia na FISA para manter o GP e ainda teve que acender uma vela a uma pessoa determinante: Bernie Ecclestone. O britânico era efetivamente o “dono” do GP. Muitos bateram em sua porta para pegar esta vaga. Mas consegui-se se chegar a um acordo para que Interlagos voltasse (isso incluiu o circuito e os Hospitality Centers)

Em 12 de novembro de 1989, Luiza Erundina, Piero Gancia e Bernie Ecclestone firmam na Prefeitura de São Paulo o acordo para que Interlagos voltasse a sediar o GP do Brasil a partir de 1990 e que a reforma de Interlagos pudesse começar.

A esta altura a guerra Senna x Balestre tinha estourado e a FISA estava implacável em relação aos padrões para reforma. À esta altura, o projeto inicial havia sido mudado e já se falava numa pista de cerca de 5 km. Mas havia 4 meses para que tudo ficasse pronto, já que o GP ficou marcado para 25 de março de 1990.

Com as obras iniciadas, ainda tinham sérios desacordos com o traçado. Até que em meados de dezembro, Ayrton Senna foi visitar as obras. E deu a sugestão da criação de um “S” em declive, ligando a reta dos boxes até a Curva do Sul. A ideia inicial era de um trecho de alta velocidade, lembrando um pouco Spa. Mas não saiu como o pensado originalmente, sendo uma forte freada. Porém criando um ponto de ultrapassagem e consolidando a redução do traçado para 4,325m. Era o S do Senna, pensado inicialmente para ser o S do Chico Landi.

Com toda a correria, em fevereiro de 1990, as obras foram aprovadas pela FIA. E quando Alain Prost passou pela linha de chegada com a sua Ferrari, Piero Gancia respirou aliviado. A sua teimosia tinha dado certo. Luiz Erundina também viu a sua aposta sendo bancada. O retorno financeiro para São Paulo foi impressionante. Tanto que, até hoje, a F1 é o evento que mais traz receitas para o Município.

O encontro improvável de um piloto-dirigente-empresário italiano e uma prefeita paraibana de esquerda garantiu Interlagos e a F1 ao Brasil.

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