Iron Dames

por Gildo Pires

Durante décadas, o automobilismo cultivou uma imagem quase imutável. Os boxes eram ambientes predominantemente masculinos, as reuniões técnicas tinham poucas vozes femininas, os engenheiros mais respeitados eram homens e as listas de inscritos das principais corridas do mundo pareciam confirmar que velocidade era um território reservado a um único gênero. Não existia nenhuma regra escrita impedindo mulheres de competir. Na prática, porém, existia algo muito mais difícil de enfrentar: uma cultura construída ao longo de mais de um século.

Foi justamente para desafiar essa cultura que nasceu um dos projetos mais interessantes do automobilismo contemporâneo.

As Iron Dames nunca foram apenas uma equipe de corrida. São uma ideia e talvez seja exatamente por isso que seu impacto seja muito maior do que seus resultados nas pistas.

A francesa Deborah Mayer não cresceu acreditando que fundaria uma das iniciativas mais influentes do automobilismo moderno. Empresária do setor financeiro e piloto por paixão, ela conheceu de perto um ambiente em que mulheres quase sempre apareciam como exceção. Ao iniciar sua própria carreira nas competições da Ferrari Challenge, percebeu que o problema não era simplesmente encontrar pilotos talentosas. O verdadeiro obstáculo era a ausência de um caminho estruturado que permitisse transformar talento em carreira.

Em 2018, Mayer decidiu inverter essa lógica.

Nascia o projeto Iron Dames, inicialmente reunindo três pilotos experientes, Rahel Frey, Michelle Gatting e Manuela Gostner, para disputar as 12 Horas de Dubai. A estreia terminou com um segundo lugar na classe GT3 Pro-Am e um nono lugar na classificação geral, resultado suficiente para mostrar que aquele projeto não havia sido criado para produzir manchetes sobre diversidade, mas para competir de igual para igual com qualquer adversário.

Desde o início, Mayer estabeleceu um princípio que diferenciaria as Iron Dames de praticamente todas as iniciativas semelhantes. O objetivo nunca seria criar uma categoria exclusiva para mulheres. O objetivo seria vencer homens nas mesmas pistas, com os mesmos carros, sob o mesmo regulamento e contra as mesmas equipes.

Essa diferença parece sutil. Na prática, ela muda completamente o significado do projeto. Durante muitos anos, equipes femininas apareceram esporadicamente no automobilismo internacional. Algumas sobreviveram poucas temporadas. Outras desapareceram antes mesmo de construir uma identidade competitiva. As Iron Dames seguiram o caminho oposto.

Ao invés de buscar visibilidade primeiro e resultados depois, decidiram construir credibilidade técnica. A escolha das pilotos refletia essa filosofia.

Rahel Frey já possuía vasta experiência internacional e havia competido em categorias como DTM, GT3 e endurance. Michelle Gatting acumulava vitórias em competições europeias e desenvolveria uma reputação como uma das pilotas mais consistentes do endurance. Sarah Bovy acrescentaria velocidade em classificação e uma leitura estratégica extremamente refinada. Mais tarde surgiriam nomes como Doriane Pin, Marta García, Célia Martin e diversas jovens apoiadas pelo programa de desenvolvimento do projeto.

O recado era claro: as Iron Dames não pediam espaço. Queriam conquistá-lo.

Existe um detalhe impossível de ignorar quando um carro das Iron Dames entra na pista: o rosa.

À primeira vista, muita gente interpretou aquela escolha como uma estratégia de marketing. Era muito mais do que isso. Durante décadas, o automobilismo praticamente evitou qualquer identidade visual associada ao universo feminino. Deborah Mayer decidiu fazer exatamente o contrário. Se a equipe seria constantemente observada por ser formada por mulheres, então faria dessa visibilidade uma ferramenta. O rosa deixou de ser um estereótipo e transformou-se em assinatura.

Hoje, basta um Porsche, Ferrari ou Lamborghini aparecer naquela tonalidade para que qualquer fã de endurance identifique imediatamente quem está no cockpit. A identidade visual tornou-se uma declaração de presença.

Como acontece em qualquer grande transformação cultural, respeito só veio acompanhado de resultados. Em 2022, Sarah Bovy tornou-se a primeira mulher da história a conquistar uma pole position no Campeonato Mundial de Endurance da FIA.

No ano seguinte, Rahel Frey, Michelle Gatting e Sarah Bovy escreveram um dos capítulos mais importantes da história recente do endurance ao vencerem a etapa do Bahrein, tornando-se a primeira formação exclusivamente feminina a conquistar uma vitória em uma prova do Campeonato Mundial de Endurance. Aquela corrida também encerrou definitivamente a era dos carros GTE, fazendo com que o triunfo das Iron Dames permanecesse para sempre registrado como a última vitória da categoria na história do WEC.

Mais do que um resultado esportivo, aquele domingo representou uma mudança simbólica. Pela primeira vez, uma equipe formada exclusivamente por mulheres não estava sendo notícia por participar. Estava sendo notícia porque venceu.

Um dos maiores equívocos sobre as Iron Dames é imaginar que o projeto existe apenas para revelar pilotas. Na realidade, Deborah Mayer sempre insistiu que o automobilismo só mudaria de verdade quando mulheres passassem a ocupar todos os espaços do paddock: engenheiras, mecânicas, estrategistas, gestoras, especialistas em telemetria, fisioterapeutas, coordenadoras de logística.

O projeto passou a investir em programas de formação, desenvolvimento de jovens talentos e parcerias institucionais, trabalhando em conjunto com iniciativas ligadas à FIA e, mais recentemente, com fabricantes como a Porsche, criando uma trilha de desenvolvimento que começa no kart, passa pelas categorias de base e chega ao endurance internacional.

A mensagem deixou de ser exclusivamente esportiva e passou a ser estrutural e talvez o maior legado das Iron Dames não esteja nas estatísticas, mas na mudança silenciosa de percepção. Durante décadas, muitas meninas cresceram sem enxergar alguém parecido com elas ocupando posições de destaque no automobilismo profissional.

Hoje isso mudou.

Uma criança pode assistir às 24 Horas de Le Mans, ao FIA WEC, à European Le Mans Series ou à IMSA e encontrar mulheres disputando vitórias em igualdade de condições. Essa representação possui um efeito difícil de medir, mas enorme no longo prazo. Porque carreiras começam quando alguém acredita que elas são possíveis.

Como todo projeto transformador, as Iron Dames também enfrentaram críticas.

Alguns enxergaram a iniciativa como estratégia de marketing, outros defenderam que equipes exclusivamente femininas reforçariam a separação entre homens e mulheres. As próprias integrantes sempre responderam da mesma forma, mas o objetivo nunca foi competir separadamente. Foi construir uma ponte capaz de aumentar o número de mulheres suficientemente preparadas para que, no futuro, uma equipe exclusivamente feminina deixe de ser notícia. Em outras palavras, o sucesso definitivo das Iron Dames talvez aconteça justamente quando elas deixarem de ser necessárias.

Nos últimos anos, o projeto deixou claro que pretende ir muito além do endurance.

Hoje apoia pilotos em monopostos, GT, rali, kart, categorias de formação e até expandiu sua marca para o hipismo. Mais recentemente, Deborah Mayer indicou uma evolução estratégica do movimento, com menos foco em manter uma única equipe exclusivamente feminina e maior ênfase no desenvolvimento individual de talentos e em programas globais de formação. A ideia é que o legado das Iron Dames seja medido menos pelo número de carros inscritos e mais pela quantidade de mulheres capazes de ocupar naturalmente qualquer posição dentro do esporte.

Essa talvez seja a etapa mais importante de toda a história do projeto. Durante sete anos, as Iron Dames provaram que mulheres podem vencer no mais alto nível do endurance e agora, tentam provar algo ainda mais ambicioso. Que um dia ninguém mais achará extraordinário ver uma mulher vencendo uma corrida de automobilismo e, nesse dia, paradoxalmente, as Iron Dames terão alcançado sua maior vitória.

Porque deixarão de representar uma exceção.

Passarão a representar apenas aquilo que sempre defenderam desde 2018.

Que talento nunca teve gênero.

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