Muito além da chuva: quanto vale o guarda-sol da Martini Racing?

por Gildo Pires
imagem: Lucas Giavoni

À primeira vista, trata-se apenas de um guarda-sol.

Tecido branco, as tradicionais faixas azul-claro, azul-escuro e vermelha da Martini Racing, um cabo de madeira e um logotipo que qualquer apaixonado por automobilismo reconhece instantaneamente.

Mas objetos como o da fotografia carregam um valor que não pode ser medido apenas pelo material de que são feitos. Eles representam uma das formas mais autênticas de preservar a memória do esporte a motor.

O exemplar retratado nesta reportagem pertence ao jornalista e pesquisador Lucas Giavoni, um dos brasileiros que mais têm se dedicado à preservação da história do automobilismo. Ao longo dos anos, seu trabalho extrapolou a cobertura jornalística tradicional. Por meio de uma pesquisa cuidadosa, da recuperação de documentos, fotografias, livros e objetos históricos, Giavoni vem ajudando a preservar uma parte importante da memória material das corridas.

Para ele, um item como este não é apenas um acessório estampado com uma marca famosa. É um documento histórico, uma testemunha silenciosa de uma época, de um ambiente e de uma cultura que ajudaram a construir o imaginário do esporte a motor.

As cores da Martini Racing talvez sejam, ao lado das pinturas da Gulf Oil e da John Player Special, as mais icônicas da história do automobilismo mundial. Desde o final da década de 1960, elas estiveram presentes em alguns dos carros mais lendários já construídos, passando por Porsche, Lancia, Brabham, Alfa Romeo, Ford, Williams e diversas outras equipes. O curioso é que, muitas vezes, basta um conjunto de três faixas coloridas para que um fã identifique imediatamente décadas de vitórias, pilotos históricos e momentos inesquecíveis.

O guarda-sol, portanto, não representa apenas uma marca. Ele simboliza uma época em que a identidade visual das equipes era quase tão importante quanto o desempenho dentro das pistas.

imagem: Lucas Giavoni

Antes da explosão do marketing digital, os objetos utilizados nos autódromos desempenhavam um papel fundamental na construção da imagem das equipes. Guarda-sóis protegiam pilotos, mecânicos e engenheiros do sol durante treinos e corridas, apareciam em fotografias oficiais, serviam de apoio nos boxes e acabavam se tornando parte da paisagem dos paddocks. Com o passar dos anos, muitos desses objetos desapareceram, foram descartados ou simplesmente se deterioraram pelo uso intenso. Justamente por isso, os exemplares preservados ganharam enorme importância entre colecionadores.

Mais do que isso, eles ganharam importância para os historiadores.

A memória do automobilismo não é construída apenas pelos carros preservados em museus ou pelos troféus expostos em vitrines. Ela também sobrevive em objetos aparentemente comuns, que testemunharam o cotidiano das equipes: um guarda-sol utilizado em um paddock pode contar muito sobre uma época, sobre a identidade visual de uma fabricante, sobre a forma como o esporte era apresentado ao público e até sobre a relação entre patrocinadores e equipes. Cada marca de uso, cada detalhe de fabricação e cada logotipo carregam informações que ajudam a reconstruir capítulos da história das corridas.

É justamente essa forma de enxergar a memorabilia que aproxima Lucas Giavoni de alguns dos maiores pesquisadores da história do automobilismo. Autores como Karl Ludvigsen, Doug Nye, Eoin Young, Denis Jenkinson e, mais recentemente, Mark Hughes, dedicaram décadas não apenas a relatar corridas, mas a documentar carros, equipes, personagens e objetos que formam o patrimônio cultural do esporte.

Cada um seguiu um caminho diferente, seja pela pesquisa documental, pelo jornalismo de pista ou pela literatura técnica, mas todos compartilham a mesma convicção: preservar a memória do automobilismo exige registrar muito mais do que resultados. Exige compreender todo o ecossistema que tornou aquelas corridas possíveis, desde os grandes protótipos vencedores de Le Mans até um simples guarda-sol que permaneceu aberto durante horas nos boxes protegendo pilotos e engenheiros.

Existe ainda uma distinção importante que os especialistas em memorabilia costumam fazer: há uma enorme diferença entre um produto licenciado vendido ao público e um item efetivamente utilizado em ambiente de competição. Um guarda-sol distribuído para equipes, patrocinadores ou utilizado em áreas técnicas possui uma história própria. Ele esteve presente onde as corridas realmente aconteceram. É um objeto que testemunhou vitórias, derrotas, reuniões estratégicas, comemorações e momentos de tensão que jamais apareceram nas transmissões de televisão.

O mercado internacional demonstra claramente esse interesse crescente: casas de leilão especializadas e plataformas dedicadas à memorabilia automobilística negociam regularmente guarda-sóis Martini Racing provenientes de antigos programas oficiais da Porsche, da Lancia e de equipes de rali e endurance. O que determina seu valor raramente é apenas o estado de conservação. A procedência costuma ser o fator mais importante e quanto maior a ligação comprovada com uma equipe ou um evento histórico, maior tende a ser seu interesse para colecionadores.

O fascínio pela Martini Racing ajuda a explicar esse fenômeno.

imagem: Lucas Giavoni

Diferentemente de muitos patrocinadores que permaneceram poucos anos no automobilismo, a Martini construiu uma identidade visual consistente durante mais de cinco décadas. As mesmas faixas acompanharam o Porsche 917 vencedor em Le Mans, os lendários Lancia 037 e Delta Integrale do Mundial de Rally, os Brabham da Fórmula 1 dos anos 1970 e, décadas depois, voltariam a aparecer nos Williams de Fórmula 1. Poucas pinturas conseguiram atravessar tantas categorias mantendo praticamente a mesma identidade visual. Hoje, basta ver essas três faixas coloridas para que qualquer apaixonado pelo esporte seja imediatamente transportado para alguns dos capítulos mais gloriosos da história das corridas.

Essa força simbólica é tão grande que continua sendo explorada pelas próprias fabricantes. A Porsche, por exemplo, mantém coleções oficiais inspiradas na Martini Racing, oferecendo relógios, roupas, guarda-chuvas, malas e diversos acessórios que reproduzem a identidade visual de carros históricos como o Porsche 917 Longtail. A estratégia mostra que o valor dessas cores já ultrapassou há muito tempo o universo da publicidade. Elas passaram a representar uma herança cultural que desperta emoção em sucessivas gerações de fãs.

No caso específico do guarda-sol fotografado, alguns detalhes chamam atenção. A estrutura tradicional em madeira, a construção em painéis e a identidade visual da Martini Racing são compatíveis com modelos utilizados pela marca em paddocks, áreas de hospitalidade e ações promocionais ao longo de diferentes décadas do automobilismo, a partir do final de 1960 e, principalmente, na década de 1970.

Independentemente de quem segurou naquele cabo, seu significado permanece evidente. Objetos assim contam uma parte da história que raramente aparece nos livros. Eles lembram que o automobilismo nunca foi feito apenas de carros extraordinários e pilotos talentosos. O esporte também foi construído por milhares de pequenos elementos que ajudaram a formar sua identidade visual e cultural, como macacões, placas de box, ferramentas, credenciais, capacetes, bandeiras e guarda-sóis.

Para o colecionador, possuir uma peça como essa significa preservar uma memória material de uma era considerada por muitos como a idade de ouro das corridas.

Para um pesquisador, significa conservar uma fonte histórica.

Para um fã, basta olhar para as três faixas azul-claro, azul-escuro e vermelha para que a imaginação viaje imediatamente até Le Mans, Monte Carlo, Monza, Silverstone ou qualquer outro circuito onde a Martini Racing escreveu alguns de seus capítulos mais memoráveis.

Essa talvez seja a maior virtude da memorabilia automobilística: ela transforma objetos comuns em cápsulas do tempo.

E poucas marcas conseguiram fazer isso com tanta força quanto a Martini Racing. Depois de mais de meio século, suas cores continuam despertando exatamente a mesma emoção que despertavam quando apareciam nos boxes, provando que algumas identidades visuais deixam de ser simples patrocinadores para se tornarem parte permanente da história do esporte a motor.

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