Silverstone deixou algumas manchas na edição deste ano. Porém, não pode se dizer que foi tudo uma porcaria
por Sergio Milani
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Ao invés de me aprofundar em um único assunto, resolvi fazer um apanhado das percepções do GP da Gra-Bretanha do último fim de semana. Depois, tem coisa que vale a pena se aprofundar…
O desempenho da Ferrari surpreende
O que chamou mais a atenção foi o trabalho que a Ferrari fez para Silverstone. Embora a primeira leva de modificações na Unidade de Potência já tenha vindo na Áustria e trazido alguma potência a mais, o grande salto foi em relação ao acerto e, principalmente, no uso de energia.
As primeiras projeções davam conta que a Ferrari poderia perder cerca de 6 décimos em relação à Mercedes. Dado o que aconteceu no GP anterior, até que seria plausível. Até mesmo no que vimos em alguns momentos da temporada. A Mercedes mostrou que tem um conjunto mais forte e constante. Porém, os problemas de confiabilidade tem acossado Russell e Antonelli.
Chamou a atenção que, tanto Leclerc como Hamilton, disseram que não levaram tanto em conta dos resultados iniciais da preparação da Ferrari feitas nos simuladores. Isso joga mais luz sobre as palavras do britânico tempos atrás sobre não utilizar mais o simulador de Maranello. Cabe lembrar que a Ferrari gastou milhões na instalação de um moderníssimo sistema que, agora, vem sendo questionado internamente.
Tradicionalmente, a Ferrari é um caldeirão e não são poucos os vazamentos. Porém, Frederic Vasseur vem tentando mudar o rumo do transatlântico. Até mesmo por uma questão de sobrevivência. Este ano, a equipe soa mais coesa, confiando mais no processo. O SF26 soa ser um ótimo carro, desta vez com o projeto sendo conduzido desde o início por Loic Serra e com reforços vindos de outros times.
Todo caso, chama a atenção no trabalho feito na gestão de energia em Silverstone. As primeiras estimativas davam conta que cerca de 35 a 40 segundos da volta demandaria aceleração plena. Diante disso, quem soubesse usar melhor as baterias, especialmente entre as curvas 7 e 15 (ou da Luffield até a Stowe), se daria melhor.
Este era um dos motivos que fizeram boa parte dos especialistas e dos fãs acreditarem que a Mercedes se daria melhor. Mas desde sexta-feira, tanto Hamilton como Leclerc se mostraram fortes nesta área. Combinado com o bom desempenho dinâmico do SF-26 em curvas, ambos foram contenedores tanto na Sprint como principalmente na corrida Principal, vencida por Leclerc.
Foi uma vitória meritória da Ferrari, se aproveitando dos momentos da Mercedes. Não é para se iludir: a Mercedes tem o melhor conjunto. Mas a Ferrari é um time em situação melhor do que temporadas passadas. Pelo menos, este ano, está em condições de aproveitar os tropeços que Antonelli,Russell e a Mercedes dão. Isso é um bom animo para o campeonato.
Red Bull batendo cabeça
Mais uma vez, mesmo com todo o trabalho feito pela equipe técnica de Pierre Wache para melhorar o RB22, ainda é preciso que Max Verstappen pegue o carro pelo colarinho para ter uma boa performance. Embora tenha que se bater palmas para o trabalho feito por Isack Hadjar nas classificações.
Melhorou? Sim. Porém ainda falta alguma coisa. E cada vez mais Verstappen soa inquieto com a situação da Red Bull. Novamente houve um ruído na comunicação do time, com o neerlandês reclamando muito do carro e até pregando que largassem do pit lane para poder mexer no carro, o que foi negado pelo time.
Não sabemos detalhes do que acontece nos bastidores. Entretanto, a postura de Verstappen soa com a de outro piloto que gostava de estar vencendo sempre: um tal de Ayrton Senna. O brasileiro brigava internamente para que houvesse melhorias, mas também sabia usar a imprensa para fazer suas reclamações e forçar determinados cenários. Ele fez isso na Lotus e principalmente na McLaren.
Diz-se que ele tem direito a acionar cláusula de saída se determinadas condições não forem cumpridas. Embora o seu acordo atual vá até o fim de 2028, Verstappen vai jogando com a possibilidade de tirar período sabático ou abandonar a F1. A Red Bull vem perdendo gente (diz-se que o próximo será Paul Monaghan, o todo poderoso chefe de engenharia, que estaria de mudança para a Cadillac) e sabe que Gianpiero Lambiase vai para a McLaren em breve.
Tecnicamente, Pierre Wache aparenta não ser mais unanimidade e não se sabe se o comando dos taurinos tem a disposição de fazer mudanças para manter o status. O que é de conhecimento é que o novo túnel de vento está quase pronto em Milton Keynes e poderá ser usado a todo vapor no próximo ano. Mas pouco se sabe de reforços.
Verstappen cresceu dentro da Red Bull. Os taurinos hoje são reféns de seu talento e não tem ninguém em sua academia para fazer esta reposição (o mais novo aspirante à F1 é Nikola Tsolov, lider da F2). Sabem que, para fazer Verstappen ficar, terão que hipotecar seu futuro para manter este projeto que tem no piloto seu ultimo representante de um sucesso recente. Remontar uma estrutura vencedora leva tempo e requer paciência. Coisa que Verstappen não parece ter. A ver os próximos capítulos.
FIA sendo FIA
Costumo dizer que a pior decisão da FIA é sempre a próxima. E o procedimento final da Direção de Prova e dos Comissários no último domingo deixou a entidade mais uma vez na berlinda e mostra que ainda há muito trabalho a ser feito.
Não é passar pano para a FIA, mas cada vez mais se bate cabeça na gestão das provas e, embora se dê liberdade de ação, cada hora é uma ação diferente. A cereja do bolo foi atribuir a um erro de software o término na prova em regime de carro de segurança.
Uma das promessas de Mohammed Ben Sulayem era revisar regulamentos e dar mais apoio à gestão de prova. Embora alguns avanços tenham sido feitos, ainda estamos longe de um grau razoável de confiança. Não podemos esquecer que tivemos 4 Diretores de Provas nos últimos 6 anos e curiosamente não se fala mais no segundo Centro de Controle que fica na Sede da FIA na Suiça que serviria para dar suporte ao time local e do apoio de Herbie Blash, ex-mecanico da Brabham e que por anos fez parte do corpo da FIA.
É preciso cabeça fria para analisar a situação. Ainda mais em um esporte em que mais de 200 milhões de pessoas assistem ao vivo. Nunca haverá uma situação 100% livre de equívocos. Contudo, é preciso investir em tecnologia e, principalmente, nas pessoas. A solução apresentada tempos atrás para o uso de IA para verificação dos controles de limites de pista é um bom exemplo isso. Só que fico sempre com a lição de Eduardo Freitas, Diretor de Provas do FIA WEC: sempre é preciso bom senso.
por Sergio Milani
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