{"id":7786,"date":"2026-06-25T08:00:57","date_gmt":"2026-06-25T11:00:57","guid":{"rendered":"https:\/\/aovolante.tv.br\/?p=7786"},"modified":"2026-06-23T22:22:07","modified_gmt":"2026-06-24T01:22:07","slug":"ricardo-juncos-perdeu-tudo-menos-seu-sonho-final","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aovolante.tv.br\/?p=7786","title":{"rendered":"Ricardo Juncos: perdeu tudo, menos seu sonho &#8211; final"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"555\" height=\"363\" src=\"https:\/\/aovolante.tv.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-318.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-7787\" srcset=\"https:\/\/aovolante.tv.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-318.png 555w, https:\/\/aovolante.tv.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-318-768x502.png 768w, https:\/\/aovolante.tv.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-318-1920x1255.png 1920w\" sizes=\"(max-width: 555px) 100vw, 555px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A chegada \u00e0 IndyCar costuma ser tratada como um ponto de chegada no automobilismo americano. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para a maioria das equipes, \u00e9 o momento em que d\u00e9cadas de planejamento, investimentos e rela\u00e7\u00f5es comerciais se convertem em presen\u00e7a permanente no grid. Para Ricardo Juncos, foi o oposto. Foi o in\u00edcio de uma nova camada de instabilidade, onde o desafio deixou de ser apenas sobreviver fora das pistas e passou a ser sobreviver dentro delas, em um ambiente onde cada corrida \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o financeira de alt\u00edssimo risco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando a Juncos Racing finalmente alcan\u00e7ou as 500 Milhas de Indian\u00e1polis, em 2017, o feito teve um peso simb\u00f3lico enorme. N\u00e3o era apenas a estreia em uma das provas mais importantes do mundo. Era a valida\u00e7\u00e3o de um percurso que come\u00e7ou com 400 d\u00f3lares emprestados pela av\u00f3 na Argentina, atravessou uma crise econ\u00f4mica devastadora e passou por anos de reconstru\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos. Mas, por tr\u00e1s da conquista, havia uma fragilidade estrutural que logo se tornaria evidente: a equipe n\u00e3o tinha base financeira para sustentar uma campanha cont\u00ednua na IndyCar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O custo de entrada na categoria ajuda a explicar essa vulnerabilidade. Estimativas do paddock indicam que uma opera\u00e7\u00e3o competitiva de IndyCar pode exigir or\u00e7amentos anuais que variam, em m\u00e9dia, de 8 a 15 milh\u00f5es de d\u00f3lares por carro, dependendo do n\u00edvel de desenvolvimento, folha de pagamento e pacote t\u00e9cnico. Equipes de ponta operam com estruturas ainda maiores, sustentadas por m\u00faltiplos patrocinadores de longo prazo e parcerias industriais consolidadas. Nesse contexto, uma equipe independente como a Juncos n\u00e3o disputa apenas contra carros mais r\u00e1pidos. Disputa contra um sistema econ\u00f4mico inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A diferen\u00e7a n\u00e3o est\u00e1 apenas no dinheiro, mas na previsibilidade. Grandes organiza\u00e7\u00f5es trabalham com contratos plurianuais, desenvolvimento cont\u00ednuo e capacidade de absorver acidentes e perdas sem comprometer a temporada. J\u00e1 equipes menores precisam transformar cada corrida em um evento de sobreviv\u00eancia financeira. Um acidente grave pode significar n\u00e3o apenas a destrui\u00e7\u00e3o de um carro, mas a ruptura de um ciclo de desenvolvimento inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa realidade se tornou evidente logo ap\u00f3s a estreia em Indian\u00e1polis. Sem or\u00e7amento suficiente para sustentar um programa completo, a equipe precisou operar em ciclos intermitentes. Em alguns anos, participou apenas de provas selecionadas. Em outros, ficou ausente da categoria enquanto buscava novos investidores. A presen\u00e7a na IndyCar n\u00e3o era constante. Era negociada corrida a corrida, patrocinador a patrocinador, decis\u00e3o a decis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse tipo de instabilidade cria um efeito colateral profundo dentro da pr\u00f3pria estrutura da equipe. Engenheiros e mec\u00e2nicos trabalham sob uma incerteza permanente. Pilotos entram em projetos sem garantia de continuidade. Investimentos em desenvolvimento t\u00e9cnico precisam ser calibrados com extrema cautela, porque n\u00e3o h\u00e1 certeza de que o programa continuar\u00e1 no ano seguinte. Em termos organizacionais, trata-se de uma estrutura que vive em estado permanente de planejamento de curto prazo, mesmo dentro de um esporte que exige vis\u00e3o de longo prazo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2019, essa fragilidade ficou ainda mais evidente. A Juncos precisou reduzir drasticamente sua presen\u00e7a na IndyCar, retornando temporariamente \u00e0s categorias de acesso e reavaliando sua estrat\u00e9gia. N\u00e3o foi uma decis\u00e3o t\u00e9cnica, nem esportiva. Foi uma decis\u00e3o financeira. Em um ambiente onde o custo de perman\u00eancia \u00e9 elevado e a margem de erro \u00e9 pequena, a aus\u00eancia \u00e0s vezes n\u00e3o \u00e9 escolha, mas consequ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O retorno gradual come\u00e7ou a ganhar forma com novas parcerias, culminando na entrada de Brad Hollinger como s\u00f3cio, dando origem \u00e0 Juncos Hollinger Racing. Essa associa\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas trouxe recursos adicionais, mas tamb\u00e9m permitiu reorganizar a estrutura da equipe em um n\u00edvel mais pr\u00f3ximo do padr\u00e3o competitivo da categoria. Ainda assim, a diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s grandes organiza\u00e7\u00f5es permaneceu significativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 aqui que a hist\u00f3ria de Ricardo Juncos ganha uma dimens\u00e3o diferente da maioria dos dirigentes da IndyCar. Enquanto nomes como Roger Penske e Chip Ganassi operam estruturas que se aproximam de imp\u00e9rios industriais do automobilismo, Juncos administra uma opera\u00e7\u00e3o que ainda carrega caracter\u00edsticas de sobreviv\u00eancia empresarial. Isso n\u00e3o \u00e9 um detalhe. \u00c9 uma diferen\u00e7a estrutural que influencia diretamente decis\u00f5es t\u00e9cnicas, estrat\u00e9gias de corrida e at\u00e9 a forma como a equipe reage a acidentes e imprevistos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos epis\u00f3dios mais emblem\u00e1ticos dessa realidade aconteceu durante as 500 Milhas de Indian\u00e1polis de 2021, com o piloto Callum Ilott. Durante os treinos, o carro sofreu um acidente severo, destruindo praticamente todo o conjunto. Em uma equipe de grande porte, esse tipo de ocorr\u00eancia representa um problema log\u00edstico. Em uma equipe como a Juncos, representa uma amea\u00e7a existencial para o or\u00e7amento da temporada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O impacto n\u00e3o se limita ao custo do equipamento. Envolve pe\u00e7as de reposi\u00e7\u00e3o, horas de trabalho intensivo, reprograma\u00e7\u00e3o log\u00edstica e, principalmente, a press\u00e3o emocional sobre uma equipe que sabe que cada recurso gasto em recupera\u00e7\u00e3o \u00e9 um recurso a menos para desenvolvimento futuro. Ainda assim, a rea\u00e7\u00e3o da equipe foi imediata. Em poucos dias, engenheiros e mec\u00e2nicos trabalharam para reconstruir o carro e devolver o projeto \u00e0 pista. O epis\u00f3dio se tornou um exemplo claro da cultura interna da organiza\u00e7\u00e3o: operar sempre na fronteira entre o poss\u00edvel e o imposs\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa fronteira \u00e9 uma constante na hist\u00f3ria da equipe. Ao longo dos anos, a Juncos enfrentou n\u00e3o apenas limita\u00e7\u00f5es financeiras, mas tamb\u00e9m interrup\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas for\u00e7adas por falta de patrocinadores, mudan\u00e7as de mercado e oscila\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas globais. Em alguns momentos, a equipe simplesmente precisou desaparecer temporariamente do grid para evitar um colapso financeiro definitivo. Poucas organiza\u00e7\u00f5es na IndyCar carregam esse hist\u00f3rico de entradas e sa\u00eddas t\u00e3o diretamente ligadas \u00e0 sobreviv\u00eancia econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao mesmo tempo, a presen\u00e7a da equipe na categoria tem um impacto que vai al\u00e9m dos resultados esportivos. Para a Argentina e para a Am\u00e9rica do Sul, a Juncos representa uma ruptura simb\u00f3lica importante. Durante d\u00e9cadas, a regi\u00e3o foi reconhecida principalmente pela produ\u00e7\u00e3o de pilotos talentosos, mas raramente por estruturas t\u00e9cnicas e empresariais capazes de competir no mais alto n\u00edvel do automobilismo mundial. Ricardo Juncos altera essa l\u00f3gica ao demonstrar que tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel exportar gest\u00e3o, engenharia e capacidade organizacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa dimens\u00e3o \u00e9 refor\u00e7ada pela presen\u00e7a de jovens talentos sul-americanos dentro da equipe ao longo dos anos, criando uma ponte entre o automobilismo da regi\u00e3o e o ambiente altamente profissionalizado da IndyCar. Em um esporte historicamente dominado por estruturas norte-americanas e europeias, isso representa uma mudan\u00e7a de narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas talvez o elemento mais profundo da trajet\u00f3ria de Juncos esteja fora das estat\u00edsticas e dos resultados. Est\u00e1 na forma como a instabilidade permanente molda decis\u00f5es humanas dentro da equipe. Em grandes organiza\u00e7\u00f5es, erros s\u00e3o absorvidos por estruturas robustas. Em equipes menores, cada decis\u00e3o carrega peso direto sobre empregos, continuidade e futuro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso afeta tudo. Desde a escolha de componentes aerodin\u00e2micos at\u00e9 a forma como um piloto \u00e9 instru\u00eddo a correr uma prova. Em determinados momentos, a necessidade de preservar equipamentos pode influenciar diretamente a agressividade em disputas de pista. Em outros, a busca por resultados imediatos pode se sobrepor ao desenvolvimento de longo prazo. \u00c9 um equil\u00edbrio constante entre risco esportivo e risco financeiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentro desse contexto, a figura de Ricardo Juncos se torna ainda mais singular. Ele n\u00e3o \u00e9 apenas um dirigente tentando vencer corridas. \u00c9 algu\u00e9m que, em diferentes momentos da vida, j\u00e1 precisou interromper completamente sua rela\u00e7\u00e3o com o automobilismo por falta de recursos. Isso cria uma rela\u00e7\u00e3o diferente com o risco. N\u00e3o \u00e9 te\u00f3rica. \u00c9 vivida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fato de ter sa\u00eddo das pistas mais de uma vez ao longo da carreira n\u00e3o como escolha esportiva, mas como necessidade econ\u00f4mica, faz com que cada retorno tenha um peso psicol\u00f3gico particular. N\u00e3o se trata apenas de competir. Trata-se de manter vivo algo que j\u00e1 esteve morto antes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, com a consolida\u00e7\u00e3o da Juncos Hollinger Racing como presen\u00e7a permanente na IndyCar, a equipe finalmente alcan\u00e7ou um n\u00edvel de estabilidade maior. Mas a estrutura ainda carrega as marcas de sua origem. N\u00e3o \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o constru\u00edda sobre abund\u00e2ncia de recursos, mas sobre adapta\u00e7\u00e3o constante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O filho de Ricardo, Leandro Juncos, simboliza outra camada dessa transforma\u00e7\u00e3o. Crescendo dentro da equipe, ele representa a transi\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria marcada pela escassez para uma nova gera\u00e7\u00e3o que j\u00e1 conhece o automobilismo por dentro de uma estrutura consolidada. \u00c9 uma mudan\u00e7a de eixo que ajuda a dimensionar o impacto de longo prazo do projeto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao final, o que define Ricardo Juncos n\u00e3o \u00e9 apenas sua presen\u00e7a na IndyCar. \u00c9 a forma como essa presen\u00e7a foi conquistada e mantida. Em um esporte onde a maioria das hist\u00f3rias \u00e9 contada em vit\u00f3rias e t\u00edtulos, a dele \u00e9 contada em recome\u00e7os, interrup\u00e7\u00f5es e sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele nunca venceu as 500 Milhas de Indian\u00e1polis. Nunca disputou um campeonato como favorito. Nunca operou com o mesmo n\u00edvel de recursos das grandes pot\u00eancias do grid.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas construiu algo raro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma equipe que n\u00e3o deveria ter chegado at\u00e9 aqui, mas chegou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E que, contra todas as probabilidades econ\u00f4micas e esportivas, ainda insiste em continuar correndo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fim.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A chegada \u00e0 IndyCar costuma ser tratada como um ponto de chegada no automobilismo americano. 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